Poucas cinzas do machado Abiatar



Poucas cinzas


Como se fosse um porto, meu corpo assiste a um filme barato no qual Garcia Lorca se enleva com as cinzas de Salvador Dali  e Buñuel visita seus futuros roteiros nos poemas de Lorca. 
Como se fosse outro, meu corpo no filme percebe um galho retorcido e sonha com um crânio que brisa e braceja o hálito do tempo na minha cara...

O filme retrata um beijo tímido de Lorca enquanto Dali dialoga muito sensual com sua loucura de garoto profano sem muita ideologia, mas valoroso pelas cinzas...

 Lorca escreve uma poesia abarrotada de vergonhas. Bastante sentimental! Descrevendo como somos crianças pequeno-burguesas mesmo quando poetas ou proletários.

Portanto, o filme tem galhos e analogias de crânio derretendo uma escola em Madri.

Portanto, o filme habita meu corpo e exala personagens culpadas de amar. Mas como poderiam amar de outro modo um pintor e um poeta demasiadamente preocupados com catolicismo, no inicio do século passado?

Mas como poderia mostrar o amor diferente um filme modulado para ser um gueto, uma marca?

Mas talvez o amor seja realmente uma porcaria, um produto cultural com data de validade vencida, que apenas por desespero desejamos viver...

Penso em outros filmes ruins. Filmes que não tinham galhos retorcidos, nem crânios, nem surrealismos, nem olhos de Dali e lábios de Lorca. Filmes de Bang Bang e Kung Fu. Filmes sobre puberdades sexistas na Filadélfia. Os caçadores de emoções mascarados com meu rosto já odiando a história política dos Estados Unidos. Pornochanchadas brasileiras que não descobrem as profundezas de Humberto Mauro, mas são belas quando mostra, em segundo plano, um fantasma enrubescido e gritante, chorando em silêncio, a morte da Olga Benário.

Os seriados também ensinam e me ensinaram o cérebro humano pelo avesso: a mente espacial e orelhuda de doutor Spock e as espaçonaves que ornamentavam minha vida enquanto menino meu corpo dormia desejando a nave espacial

Filmes de lobisomens que morriam com uma bala de prata ou uma espada forjada por alquimistas de séculos passados, mas que mordendo abandonavam um filho ruim no corpo gozoso da donzela.

Como se fosse um blues, o filme barato mostra visões que me possuíram. Dores quase biográficas arrancadas de algumas miniaturas dos quadros de Miró conseguidas com bastante dificuldade

Os dias com Allen Ginsberg.

Os amigos magos que se perderam nos braços morenos da província chorando  suas dores nos telhados da minha alma como se fossem o Buda e o meu poema carne.

Ao galho digo que gosto da sua energia se afastando das qualidades do meu corpo, que admiro sua falsidade plástica e seus suspiros com Augusto dos Anjos humilhando a paisagem; ao crânio digo seu sentido calvo, sua existência humana, mesmo quando aos pés de um manequim.

Oh crânio Lazarento, minhas noites cinematográficas contam desejos de literatura: os olhos dentro do meu roteiro que nunca será filmado se parece um pouco com Lorca morrendo na guerra Civil Espanhola alguns anos depois.

Oh crânio Lazarento, estou na casa de meu pai enquanto escrevo.Vejo os barracos ensolarados da miséria e os garotos que agora não poderão ser os coribantes de Roberto Piva, pois a vida experimental ficou extremamente defasada e as drogas só fazem  insônia e ordem na minha bonequinha de vestido verde.     

Vejo também a escola em que cursei o primário e um senhor do meu tempo de escola ainda remenda a horta escolar e conta piadas.

Meu corpo não abandonou essa escola como não se separou desses morros. Estranhos de comover mais que todas as galerias de arte em que meus quase colegas de profissão estudam o tempo e a maldade do tempo.

Vejo

e vendo acordo a esperança claudicante das recordações

A morte rápida de certos acontecimentos e pessoas e a morte demorada da memória nas lembranças,
mas a morte é realmente a única diferença, mesmo quando os cavalos do poema conseguem ver a gênese continuada dos sentidos. 
A menina do morro imita Brigett Bardot nas pupilas do meu sexo e como não sou embaixador não verei Sevilha

E como Mallarmé meu corpo continuará procurando o buquê todos os buquês até gastar a ultima moeda gasta da minha vida... 

Oh crânio Lazarento, escrevo para não ver seu filme morrendo no meu corpo, pois meu corpo sente simpatias por você, gosta muito da sua pintura cariada de Monalisa; gosta mais ainda quando no seu corpo de crânio o  tempo me pede um trocado como se fosse Garcia Lorca. 



Abiatar Machado
Caratinga, Bairro Santa Cruz, Abril de 2012

Abiatar, poeta de Caratinga, fazendo poesia

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