Um Corvo para soltar as Bruxas - Edgar Alan Poe

*trad: Machado de Assis

*Você já teve uma noite de Terror?


O Corvo


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."


Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.


E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."


Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.


Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.


Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."


Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.


Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".


Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".


No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"


Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".


Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".


Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.


Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".


“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".


“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."


“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".


E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Cavando o Buraco - Guilherme Paiffer

Palavra Insone
Sono, sonâmbulo, insônia,
Olhos, palpebras, ponteiros
Pupila, pulsando medo

Medo de olhar para as mãos
Para os pés
Para o palco que te mata um pouco a cada segundo

A mulher insana
O homem insone
O filho da puta
Do teu coração
Te pedindo para esquecer do dinheiro
E viver a vida
Pulando de perdão
Em perdão...


*pic: Darko Dicic

Tristesa
Hoje, se eu morrer,
Morro feliz.
Mas se eu morrer amanhã
Arrastando tanta tristeza
Levo alguns comigo

Pior que a Morte - Frederico Barbosa

*pic: Oliviero Toscani, em sua publicidade engajada
em United Colors of Bennetton. 

para JC

O pior é o que dizem: rezou.

Ele que sempre foi contra,
do contra, ateu,
agora que zerou, creu?

Ele que sabia que a vida é coisa
de sempre não
Sem fórmulas fáceis,
nem saídas para a dor
de cabeça
de pensar
de ser sem crer.

Ele sabia que não há aspirina
contra o bolor.

Logo dirão que se inspirou,
e compôs de improviso
um soneto vendido,
dos que sempre enfrentou.

Dirão ainda que se converteu
e defendeu a vida devota,
a pacificação bovina,
a prédica dos pastores.

                (Verbo e verba:
                  pragas velhas.)

E que se arrependeu do pecado
de ser exato, claro e enjoado.

Vida, te escrevo merda.
Às vezes fezes, mas sempre merda.

Fingida flor, feliz cogumelo,
caga e mela.
Sempre severa e cega merda.

Triste é depender
de relatos carolas,
acadêmicos, cartolas.

Triste é depender
da leitura alheia,
facéis falácias: farsas.

Triste é depender
dos olhos dos outros,
de voz de falsas sereias.

Triste é não poder mais
se defender.

Mas
um aqui, João,
incerto, grita
e insiste em não crer
na sua crença repentina
que a morte (sua)
 desminta a obra (sua) vida

                     Um aqui, João
                     o tem por certo:
                     é mais difícil o não
                     crer, não
                     ceder, não
                     descer, não
                     conceder: Não

                     Não, não orou.


*o pior é quando morto te inutilizarem a VIDA

Arqueologia poética lavrense


BOSSA MAL-DITA


Deixo a minha família dependurada na janela do Casarão Rodrigues
e aviso para os raros companheiros
que retornarei em breve para nossa interminável sinuca de cada dia
Abandono a cidade
e o efêmero amor provinciano
Lavras está presa nos balcões dos tristes armazéns da rua Santana
esperando o bonde da inércia passar

Na minha claustrofobia interiorana
vou em passos agonizantes
em busca do porto do “Pelintra”
das notícias do jornal moderno
das flores de concreto

5 de abril de 1951
Meus primeiros passos na “rodoviária da bossa”
respiro maresia e fumaça
Ascendo meu novo cigarro
e faço sinal para um taxi.
Da janela do grande ford
meus olhos impregnam-se de ruas rápidas
nordestinos itinerantes
negros
ternos andantes
cafés em esquinas

O mar e a asma
pouco me preocupa...

Não vim para sonhar e nem para Ipanema
estou aqui para a fragmentação do éter verbal
e para uma grande missão:
Atear fogo no último purista!

Que fique bem claro
Eu sou
antes de mais nada
a vergonha da família tradicional,
um burgues cancerígeno
filho que não volta mais...
e se voltar

INTERNEM-ME em Barbacena!





Beraldo Rodrigues ( 1927 - 1958), Poeta Lavrense.

Rua Santana no século XIX.
Fonte da foto: Jornal de Lavras

Resmungo confuso e gutural de um homem que leu demais - Carl Solomon

                              Kafca,
                              Strindberg,
                              Jack London,
                              Gogol,
                              Mike Gold,
                              Edward Everett Hale,
                              Heywood Broun,
                              Westbrook Pegler,
                              Jacques Vaché,
                              Henri Miler,
                              Stalin,
                              Mao Tsé-Tung,
                              Hitler,
                              Mussolini,
                              William Buckley,
                              Lawrence Ferlinghetti,
                              Estes e muitos outros

             E o que eu ganhei em termos de sabedoria universal?
             Nada.

             A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que a gente encontra no metrô... é óbvio que é só um meio de matar o tempo, um assunto para conversa. Estou entregando o jogo?
             Mas não se pode dizer isso de qualquer coisa... o beisebol, tantas bolas rebatidas? Onde está o que eu procuro? E eu estou procurando alguma coisa?
            Digamos: eu leio para manter minhas mãos ocupadas... para não me masturbar.
            Sou possuído pela linguagem e não tenho nada a dizer.
            Porque não colecionar selos, piadas sujas ou trocadilhos?
            Beber intermináveis chicaras de café ou entrar em um concurso de comedores de tortas é quase a mesma coisa.
            Eu estou um pouco desapontado com Ferlinghetti. O verdadeiro Dada deveria ter atravessado a Rússia no lombo de um cavalo.



A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street

Slavoj Žižek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar ao acampamento de manifestantes do movimento Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), que vem protestando contra a crise financeira e o poder econômico norte-americano desde o início de setembro deste pano.

***

"Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, doar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma 'nação cristã', lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a 'comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor'. Nós, aqui, somos o 'Espírito Santo', enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.
Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?
Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…
Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.


¡Si no nos dejáis soñar, no os dejaremos dormir!

Homenagem em Vermelho - Lucas F.L

Mirada do alto da Serrinha ou felicitações pelos 180 anos de Lavras

Mirada do alto da Serrinha

Eu vejo Lavras bailar suas baladas de máscaras
negras alternativas de chapéu camisa social
coturnos camisetas de micaretas ou metal
em cima de seus truques suas tribos e refúgios.
A Cofap explodindo em fumaça e suor
Do noiteanoite de suas máquinas
Mas domingo tem missa na matriz
tem palestra no augusto silva
tem culto na presbiteriana
Tem circuitogoninhodarcebares
Tem a praça com entrada de graça
E tantos outros espaços para praticar
E esquecer os nossos pecados cotidianos
Enquanto a juventude universitária bebe
O investimento que seus pais fizeram
No gammon no cnec nos cursinhos
No futuro do sangue do seu sangue
O investimento dos barões do café
Do latifúndio das estatais da soja
E esse lucro ainda há de acabar
com a fome do mundo
Ainda há de alimentar todos
Os carros de forma sustentável
Entupir as veias da cidade
De vaidades motorizadas
Bem motivadas pelo progresso
Comercial dessa cidade modelo
Modelo
Alta, magérrima, triste atrás
De suas multicolores maquiagens
De sua praça cheia de luzes
E bancos e bancos e estacionamentos
Enquanto chora uma idosa a demora
De um vereador que esqueceu
Sua caixa d’água
Mas suas netas não esqueceram
(talvez o nome, não a sede)
Ao contrário de seus primos
No são Vicente no barro preto
Na COHAB no Pitangui e tantos outros
Que já se esqueceram e inventaram
Seus meios mais ou menos
Legais,
legais pra quem carapálida?
E tudo se esconde sob a poeira
que se levanta sob os pés
no campinho de terra
enquanto no alto da madrugada
uma menina é assaltada por uma pedra
de crack bem intencionada
que não quer machucá-la
só redistribuir a renda e sustentar
uma, só uma, baforada.
Tátudobem a brisa a revolução
Estendida no sofá no brejão
Correndo na perimetral de manhã
Tem de tudo, menos calçada
um cachorro morto, um homem talvez,
Tem esperança até, mesmo que as vezes
Caia no buraco, ou morra no morro
Por não saber controlar
A embreagem. A embriaguez.
E como é difícil
Esse controle.
Talvez não pra jornais que
Imprimem tudo no plano
Tudo em linha reta. Confabulando
Posições e oposições. Como o sol
Que já se deita atrás de minhas costas
E acende as luzes da cidade sob
O afogamento da ponte do funil.
A noite começa e o baile não pode esperar.
Resta outra espera. Desesperada.
Talvez algo que assome
De alguma distante, neblinosa

 alvorada.

Igor Alves

Serrinha - Lavras/MG -

Lavras, cidade dos carros e dos supermercados


*Lavras, se essa cidade não te engole, entope
*pic: Lucas F.L


Acho que hoje é o dia perfeito para se falar sobre Lavras, a cidade modelo, o satélite da região.
Dia 13 de Outubro, quinta-feira 13, e não sexta. Feriado de aniversário de Lavras, que emenda com o feriado de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brazil e formam a "Semana do Saco Cheio", como chamam os estudantes, e há ainda o início da maior micareta universitária do país, a inter-odonto e jurídica Lavras-folia.

Nunca fui no Lavras-Folia, que deve ser ótimo, mulheres, bebidas e axé, quem não curte!? Mas pra gente que tá de fora é meio bizarro, as mulheres lindas estão vomitando na calçada e o cheiro de mijo sobe como um odor infernal.

Ontem dei uma voltinha na cidade, e vi as obras dos dois grandes hipermercados, há sempre obras, mais e mais comércios pra agregar no cartel geral.

O que mais me preocupa, é em que sentido a cidade cresce. A cada dia que passa a cidade fica mais limpa, não de lixo, mas de pessoas. Há mais policia nas ruas, câmeras, e, se há Lavras-folia pra elite universitária, o carnaval foi sendo espremido e espremido pela prefeitura até que foi completamente sufocado, parece até que essa onda de higienização que BH tá lançando tá pegando aqui.

E eu que sempre andava livremente pela cidade agora tou sentindo na pele que não sou bem-vindo. Reformou-se a sinalização de trânsito para desafogar o tráfego no centro. O entupido trânsito do centro, que, pelo que parece, só piorou. E uma das medidas tomadas foi regular em quais paradas os ônibus intermunicipais podem parar. Pontos péssimos, espaçadíssimos, e quando eu contei, cruzando a cidade a pé, são 3, na cidade inteira. Culpam as pessoas de fora pelo o caos no trânsito e não a cultura motorizada lavrense, em que ter carro é status e garante a liberdade, aí se vai de carro em tudo quanto é lugar, padaria, esquina, pra se caminhar guia-se até a Augusto Silva e circula-se infinitas vezes a praça.

Lavras rejeita o que não é tradicional, ao mesmo tempo que não cuida de sua tradição. Os movimentos em Lavras foram se dissipando e parando de existir, cadê as casas de shows legais que antes eram bacanas de frequentar e vão se capitalizando, cadê os butecos legais pra trocar idéia e que entraram na onda de cartéis e puseram TODAS as cervejas à R$4,50, cadê os festivais de Metal, cadê o movimento estudantil que antigamente levou a única movimentação politica que vi em Lavras que foi o passe livre, cadê os grupos de teatro que eu nunca mais ouvi falar, cadê a RESISTÊNCIA em lavras? Tem? Por quê se tem não tão com seus espaços reservados nas pixações da cidade, aliás não tem pixações na cidade, Lavras deve se orgulhar por ser uma cidade limpa.

Porque parece que a onda é essa. Lavras se torna cada vez mais polo comercial e as pessoas vão esquecendo cada vez mais de evoluir o espirito e a soliedariedade. E isso por quê? É tudo muito difícil, a resistência em Lavras tem que ser resistência mesmo. Você logo leva um soco na cara, como eu indo conversar com o pessoal da secretaria de cultura, e descubro só numa tacada que LAVRAS NÃO TEM SECRETARIA DE CULTURA, o que chamam de secretaria é só um departamento da secretaria de educação, que não dá a menor bola pra esse departamento e ainda que Lavras NÃO TEM ARQUIVO HISTÓRICO,  ao menos não na cidade, pois Lavras despachou todo seu arquivo pra cidade de Campanha que graças ao bom e glorioso Deus aceitou abrigar, senão concerteza iria pra churrasqueira.

Essas pequenas escolhas mostram em que a prefeitura e os empresários em Lavras dão valor (há quem diga por aí que cada povo tem o governo que merece), e com certeza não é no capital humano, por isso que nós, que tentamos ver outras possibilidades, que vemos como a vida das pessoas pode ser mais vida e menos objeto, menos óleo para a máquina do Estado e água pras nossas raízes, temos que nos unir e nos firmar como Movimento.

Aliás, quem somos nós?

Quando é que Lavras vai virar a terra da educação e da preservação e não só das escolas construídas e dos Ipês? Ipês nada, dê uma volta por lavras e só vai ver carros e supermercados, é só o que importa.
Pra quem?

¿Qué tal si empezamos a ejercer el jamás proclamado derecho de soñar?


El Derecho Al Delirio

Aunque no podemos adivinar el tiempo que será, sí que tenemos, al menos, el derecho de imaginar el que queremos que sea. Las Naciones Unidas proclamaron extensas listas de derechos humanos; pero la inmensa mayoría de la humanidad no tiene más que el derecho de ver, oír y callar.


¿Qué tal si empezamos a ejercer el jamás proclamado derecho de soñar?
¿Qué tal si deliramos, por un ratito?

Al fin del milenio, vamos a clavar los ojos más allá de la infamia, para adivinar otro mundo posible:
El aire estará limpio de todo veneno que no venga de los miedos humanos y de las humanas pasiones;
En las calles, los automóviles serán aplastados por los perros;
La gente no será manejada por el automóvil, ni será programada por la computadora,
Ni será comprada por el supermercado, ni será mirada por el televisor;
El televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia.
La gente trabajará para vivir, en lugar de vivir para trabajar;
Se incorporará a los códigos penales el delito de estupidez,
Que cometen quienes viven por tener o por ganar,
En vez de vivir por vivir nomás,
Como canta el pájaro sin saber que canta y como juega el niño sin saber que juega;
En ningún país irán presos los muchachos que se nieguen a cumplir el servicio militar,
Sino los que quieran cumplirlo;
Los economistas no llamarán nivel de vida al nivel de consumo,
Ni llamarán calidad de vida a la cantidad de cosas;
Los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas;
Los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos;
Los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas;
La solemnidad se dejará de creer que es una virtud,
Y nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz de tomarse el pelo;
La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes,
Y ni por defunción ni por fortuna se convertirá el canalla en virtuoso caballero;
Nadie será considerado héroe ni tonto por hacer lo que cree justo en lugar de hacer lo que más le conviene;
El mundo ya no estará en guerra contra los pobres, sino contra la pobreza,
Y la industria militar no tendrá más remedio que declararse en quiebra;
La comida no será una mercancía, ni la comunicación un negocio,
Porque la comida y la comunicación son derechos humanos;
Nadie morirá de hambre, porque nadie morirá de indigestión;
Los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura, porque no habrá niños de la calle;
Los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero, porque no habrá niños ricos;
La educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla;
La policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla;
La justicia y la libertad, hermanas siamesas condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, bien pegaditas, espalda contra espalda;
Una mujer, negra, será presidenta de Brasil y otra mujer, negra, será presidenta de los Estados Unidos de América;
Una mujer india gobernará Guatemala y otra, Perú.
En Argentina, las locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental,
Porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria;
La Santa Madre Iglesia corregirá las erratas de las tablas de Moisés, y el sexto mandamiento ordenará festejar el cuerpo;
La Iglesia también dictará otro mandamiento, que se le había olvidado a Dios: «Amarás a la naturaleza, de la que formas parte»;
Serán reforestados los desiertos del mundo y los desiertos del alma;
Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados,
Porque ellos son los que se desesperaron de tanto esperar y los que se perdieron de tanto buscar;
Seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de justicia y voluntad de belleza,
Hayan nacido donde hayan nacido y hayan vivido cuando hayan vivido, sin que importen ni un poquito las fronteras del mapa o del tiempo;
La perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los dioses;
Pero en este mundo chambón y jodido, cada noche será vivida como si fuera la última y cada día como si fuera el primero.
Eduardo Galeano
 Perpicácia (1936) - René Magritte

Parem com essa bagunça aí encima!!! - Angeli


*-o vizinho de cima faz uma zona infernal!

Las venas aun abiertas de nuestra América Latina


No se puede tener la pretensión de hablar o escribir sobre la historia mítica y cristiana de la llamada “Latino América” en un pequeño texto, aunque se tenga apenas la pretensión de hacer un análisis del momento histórico actual que viven los países llamados subdesarrollados, que surgirán en este continente después de la colonización luso-hispánica hace más de quíñenos años. El escritor uruguayo Eduardo Galeano tiene un libro que sirve de inspiración al título de este texto, llamado “Las Venas Abiertas de América Latina” (1971).
 Las venas abiertas de América Latina tiene una función muy clara: dar a conocer cuáles fueron los orígenes de la constante humillación de la que es objeto esta parte del mundo por parte de los países más desarrollados, los cuales tejen sus redes de dependientes a través de la imposición tecnológica y económica de sus empresas. Galeano titula la introducción de su libro con el más que representativo "Ciento veinte millones de niños en el centro de la tormenta" y no es para menos, pues el hecho de que grandes empresas adquieran el dominio de la economía en el ámbito internacional traerá como consecuencia que las empresas netamente nacionales no puedan competir y que eso, a su vez, provoque un declive en cuanto a los gastos en desarrollo social o cualquier apoyo "altruista" a la gente.
Esta realidad actual, en los ámbitos económico y social, no es consecuencia de una progresión histórica normal y pacífica, sino fruto de un suelo lleno de sangre derramado por las manos de países que, con una ideología explícitamente imperialista y expansionista, en especial los Estados Unidos y algunos países de Europa, hicieron muchas cosas terribles para imponer un modo de vivir, una economía neoliberal, ideologías competitivas y de mercado, a cualquier costo. Millares de vidas inocentes fueran arrancadas a poco tiempo (pero que ya muchos no recuerdan) en las dictaduras militares en toda América Latina y que, con ayuda financiera y militar de los Estados Unidos, mataran y callaran a las personas, luchando contra un supuesto espectro del comunismo que rondaba nuestro continente.
Galeano, al empezar su ya famoso y célebre análisis, que incluso fue arreglado hace poco tiempo por Hugo Chávez al presidente Barack Obama, nos dice que:

"América Latina, la región de las venas abiertas. Desde el descubrimiento hasta nuestros días, todo se ha trasmutado siempre en capital europeo o, más tarde, norteamericano, y como tal se ha acumulado y se acumula en los lejanos centros de poder. Todo: la tierra, sus frutos y sus profundidades ricas en minerales, los hombres y su capacidad de trabajo y de consumo, los recursos naturales y los recursos humanos. El modo de producción y la estructura de clases de cada lugar han sido sucesivamente determinados, desde fuera, por su incorporación al engranaje universal del capitalismo. A cada cual se le ha asignado una función, siempre en beneficio del desarrollo de la metrópoli extranjera de turno, y se ha hecho infinita la cadena de las dependencias sucesivas, que tiene mucho más de dos eslabones, y que por cierto también comprende, dentro de América Latina, la opresión de los países pequeños por sus vecinos mayores"

De esta forma, quedan a la expectativa gran cantidad de niños, los cuales o se resignan a mirar su pobreza o tienen que salir a las calles a ganar la comida del día. Si estudian o no qué importa, la necesidad primordial es dejar contento al estómago y cuando no salga ni para eso, pues tendrán el refugio pasajero de las drogas y otros paraísos artificiales (o futuros, como el paraíso cristiano). Esta realidad que empieza en la miseria y sistema social impuestos, pasa por la dificultad de trabajo y la vida dura, junto a la facilidad de producción y consumo de ciertas substancias prohibidas (y por eso muy lucrativas), y a los grandes mercados – justamente – o –injustamente – el mercado consumidor europeo y norteamericano, crea un panorama de violencia y muerte, armas (en su mayor parte también norteamericana) sexo y sangre, que asola esos tiempos de crisis y barbarie como el vivido en México, donde el número de muertos por el narcotráfico (y la supuesta guerra) puede llegar a 50.000 mil en apenas 4 años.
En este mercado, los países ricos entran con el consumo y los latinos con la producción y los muertos. Pero, antes de hacer juicios inmediatos, tenemos que entender que la raíz de esta guerra (contra quien y para quién?) es justamente la pobreza, y su dinero y sus armas también vienen de los mismos lugares que ayudaran a crear nuestro propio auto sacrificio. Pero aun así, seguimos, los que creen, luchando para hacer de nuestro suelo, esta América de utopías y barbaries, una tierra donde la esperanza siempre habite el corazón de las mujeres, niños y hombres de este pueblo tan diverso, rico y fuerte.

"La vieja se inclinó y movió la mano para darle viento al fuego. Así, con la espalda torcida y el cuello estirado todo enroscado de arrugas, parecía una antigua tortuga negra. Pero aquel pobre vestido roto no protegía, por cierto, como un caparazón, y al fin al cabo ella era tan lenta sólo por culpa de los años. A sus espaldas, también torcida, su choza de madera y lata, y más allá otras chozas semejantes del mismo suburbio de Sao Paulo; frente a ella, en una caldera de color carbón, ya estaba hirviendo el agua para el café. Alzó una latita hasta sus labios; antes de beber, sacudió la cabeza y cerró los ojos. Dijo: O Brasil é nosso («el Brasil es nuestro»). En el centro de la misma ciudad y en ese mismo momento pensó exactamente lo mismo, pero con otro idioma, el director ejecutivo de la Union Carbide, mientras levantaba un vaso de cristal para celebrar la captura de otra fábrica brasileña de plásticos por parte de su empresa. Uno de los dos estaba equivocado."

(Eduardo Galeano)

Em apoio à Dandara

O Grupo Larvas acredita na construção de um mundo para além de legalidas que segregam, oprimem e matam as pessoas, seja através da polícia, da política ou da miséria. Apoiamos as mulheres, homens e crianças de Dandara, e todos que estão juntos em sua luta. Segue um comunicado das Brigadas Populares sobre a situação vivida por essas pessoas, por todos nós:

Belo Horizonte, MG, Brasil, 07 de outubro de 2011

As Brigadas Populares (BPs) comunicam a todos/as a situação quepassa a Ocupação-comunidade Dandara, espaço territorial localizada no BairroCéu Azul, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Esta comunidade surgiu no dia09 de abril do ano de 2009 com cerca de 200 famílias e foi crescendo rapidamenteaté contar com cerca de 1.000 famílias na atualidade.

Desde o primeiro dia de ocupação, tentamos construir uma propostade negociação com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, dirigida peloprefeito Márcio Lacerda e com o Governo de Minas, que hoje é conduzido pelogovernador Antônio Anastasia. Realizamos inúmeras audiências, solicitações dereuniões, atos públicos, sem, contudo, conseguirmos a abertura das negociaçõescom os governos. Intransigentes em relação aos pobres e solícitos em relaçãoaos empresários, o prefeito de BH e o governador de Minas viraram as costaspara situação, deixando a cargo do judiciário a decisão em relação ao despejo.Não tiveram a grandeza de procurar evitar o conflito e defender os direitossociais e humanos daqueles que lutam pelo bem mais básico, a moradia.

Em última audiência realizada na 20ª Vara Cível, com a presençadas lideranças da Ocupação, assistidas juridicamente pela Defensoria Pública deMG, e da Construtora Modelo, por seus advogados, a única proposta de negociaçãodefendida pela construtora apontava para a verticalização total da área,reprodução do mesmo modelo de segregação social vivenciado na cidade, comprédios destinados a moradia das famílias de menor poder aquisitivo e outrosdestinados a famílias de maior renda. E, ainda, não sendo suficiente, exigiaque todos os moradores saíssem de suas casas, sem nenhuma garantiaindenizatória ou de qualquer outro tipo, para que depois, supostamente,retornassem para apartamentos de 39,5 metros quadrados que seriam comprados viaMinha Casa, Minha vida. Apresentamos uma contraproposta intermediária, queverticalizaria parte da área ocupada sem a remoção das famílias, mas a Construtora
Modelo manteve-se intransigente em sua posição.

Assim, no dia 03/10/2011 recebemos a notícia que em dois diasseria publicada decisão do juiz da 20ª Vara Cível determinando expedição demandado de despejo contra a Comunidade Dandara. Não houve nenhuma preocupaçãocom o destino dos milhares de trabalhadores e trabalhadoras, crianças e idososque poderão ser retirados à força pela polícia, sendo que a conseqüência dissoserá a violência, os espancamentos, abusos de crianças, e a possível morte de muitos. ANUNCIAMOS MAIS UMA VEZ O MASSACRE!!!

A Prefeitura de Belo Horizonte, o Governo de Minas e o PoderJudiciário acreditam que o despejo é uma solução, que com ele estarãoresolvendo um “problema”. No entanto, qualquer consciência minimamente honestapercebe que o despejo gerará um conflito social sem precedentes na história deBelo Horizonte. Basta entender que são 1.000 famílias sem-teto, mais de 5.000pessoas jogadas de uma vez só nas ruas, sem nenhum tipo de apoio ou alternativa de habitação.

A Ocupação Dandara representa uma solução para milhares de pessoasque moravam em áreas de riscos, em cubículos alugados, na rua e em situação deprofunda vulnerabilidade social. No entanto, ao se organizar para reivindicarseus direitos, os moradores estão sendo tratados como problema por aqueles quelucram com as desigualdades e as injustiças.

Diante desta situação é necessário lucidez e grandeza, poisexistem alternativas que podem evitar o despejo e o MASSACRE. Continuamosabertos às negociações e ao entendimento, como sempre estivemos. Acreditamosque algumas providências podem e devem ser tomadas para garantir o respeito àdignidade e à vida dos habitantes da Ocupação-comunidade Dandara. Por isso reivindicamos:

1) Suspensão imediata da ordem de despejo;
2) Que a Prefeitura de BH e o Governo do Estado abram negociações;
3) Que a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte vote o projeto de lei quedeclara o perímetro da Ocupação-comunidade Dandara como uma área de interessesocial para fins de moradia para a população de baixa renda. Levando, assim, a desapropriação da área pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Estas medidas evitarão a violência e oferecerão uma saída justapara todos. A área da Ocupação-comunidade Dandara oferece condições para que asfamílias lá instaladas vivam com dignidade. E, ainda mais, pode ser administradaurbanisticamente para que outras famílias sem-teto que hoje se encontram nosmais de 100 núcleos de habitação, esperando na fila do Orçamento Participativoda Habitação, sejam também contempladas com moradias no mesmo local,contribuindo para diminuir o déficit habitacional do município de BeloHorizonte.

Convidamos mais uma vez a Sociedade Civil, apoiadores, ativistas epessoas preocupadas com o destino da cidade para que reforcem a Campanha deSolidariedade e apoio à Ocupação Dandara, participando deste movimento emdefesa de uma cidade justa, sem despejos e sem violência.

Participe das atividades realizadas na ocupação, acesse os blogs da organização e mantenha contato conosco:

CONTATOS:
Rosa:militante da Frente Pela Reforma Urbana BP’s MG – moradora/coordenadora, cel.:31 9287 1531 – E-mail: rosad2011@live.com
Junio: militante da Frente PelaReforma Urbana das Bps MG, cel.: 031 86951966
Joviano Mayer, advogado e militanteda Frente Pela Reforma Urbana das Bps MG: CEL.: 88154120
Rafael Bitencourt: militante da FrentePela Reforma Urbana das Bps MG
Maria do Rosário (advogada): cel.:31 9241 9092, E-mail: rosariofi2000@yahoo.com.br
Frei Gilvander Moreira, cel.: 319296 3040, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Obs.: Venha visitar a ComunidadeDandara. Consulte www.ocupacaodandara.blogspot.com– http://www.brigadaspopulares.org/

...

Faz escuro, mas eu canto. Cantamos.

Cuando un dueño de la tierra proclama: “¡para quitarme tal propiedad tendrían que pasar sobre mi cadáver!” debería tener en cuenta que a veces… pasan.
Mario Benedetti

Octavio Paz: Había una extraña correspondencia entre la palpitación nocturna del firmamento y la musiquilla del insecto.

Vivimos no sólo el fin de un siglo sino de un período histórico. ¿Qué nacerá del derrumbe de las ideologías? ¿Amanece una era de concordia universal y de libertad para todos o regresarán las idolatrías tribales y los fanatismos religiosos, con su cauda de discordias y tiranías? Las poderosas democracias que han conquistado la abundancia en la libertad ¿serán menos egoístas y más comprensivas con las naciones desposeídas? ¿Aprenderán éstas a desconfiar de los doctrinarios violentos que las han llevado al fracaso? Y en esa parte del mundo que es la mía, América Latina, y especialmente en México, mi patria: ¿alcanzaremos al fin la verdadera modernidad, que no es únicamente democracia política, prosperidad económica y justicia social sino reconciliación con nuestra tradición y con nosotros mismos?
Imposible saberlo. El pasado reciente nos enseña que nadie tiene las llaves de la historia. El siglo se cierra con muchas interrogaciones. Algo sabemos, sin embargo: la vida en nuestro planeta corre graves riesgos. Nuestro irreflexivo culto al progreso y los avances mismos de nuestra lucha por dominar a la naturaleza se han convertido en una carrera suicida. En el momento en que comenzamos a descifrar los secretos de las galaxias y de las partículas atómicas, los enigmas de la biología molecular y los del origen de la vida, hemos herido en su centro a la naturaleza. Por esto, cualesquiera que sean las formas de organización política y social que adopten las naciones, la cuestión más inmediata y apremiante es la supervivencia del medio natural. Defender a la naturaleza es defender a los hombres.


Al finalizar el siglo hemos descubierto que somos parte de un inmenso sistema – conjunto de sistemas – que va de las plantas y los animales a las células, las moléculas, los átomos y las estrellas. Somos un eslabón de "la cadena del ser", como llamaban los antiguos filósofos al universo. Uno de los gestos más antiguos del hombre un gesto que, desde el comienzo, repetimos diariamente es alzar la cabeza y contemplar, con asombro, el cielo estrellado. Casi siempre esa contemplación termina con un sentimiento de fraternidad con el universo. Hace años, una noche en el campo, mientras contemplaba un cielo puro y rico de estrellas, oí entre las hierbas oscuras el son metálico de los élitros de un grillo. Había una extraña correspondencia entre la palpitación nocturna del firmamento y la musiquilla del insecto. Escribí estas líneas:


Es grande el cielo
y arriba siembran mundos.
Imperturbable,
prosigue en tanta noche
el grillo berbiquí.


Estrellas, colinas, nubes, árboles, pájaros, grillos, hombres: cada uno en su mundo, cada uno un mundo y no obstante, todos esos mundos se corresponden. Sólo si renace entre nosotros el sentimiento de hermandad con la naturaleza, podremos defender a la vida. No es imposible: fraternidad es una palabra que pertenece por igual a la tradición liberal y a la socialista, a la científica y a la religiosa.
Alzo mi copa – otro antiguo gesto de fraternidad – y brindo por la salud, la ventura y la prosperidad.

Octavio Paz
( Palabras pronunciadas el 10 de diciembre de 1990, el día que recibió el Nobel. )


*Salvador Dali
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