sábado, 10 de julho de 2021

"Do horizonte eu gosto da grandeza"

    

 

 

Eu gosto do caminho.

Do cheiro da terra
Da chuva
Da brisa que bate
E arrepia as manhãs.
No verão ver o dia nascer
No outono a lua apontar
laranja.

ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto do gosto.
Dos contrastes
Do limãoㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E do afeto.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhos que sorriem
De gente simples
De casa aberta.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De gente que fala o que sente
E senteㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Transparente.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de abraços que apertam
E mãos que soltam.
De melodias que embalam
E trilhas que expandem.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Do horizonte eu gosto da grandezaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De me reconhecer pequena
Apenas póㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Poeira.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhar o presente
Presente.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de gente que está
De gente que vaiㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Que caminhaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E quase como uma miragem
Cruza nosso caminho.
Eu gosto do caminho.


Yvye Prado






terça-feira, 6 de julho de 2021

Interlúdio


    Que trabalho de campo é uma experiência intensa de aprendizado, a gente bem sabe. Não vejo cabimento em supor que se vai pro meio do mato e se volta intacta, pois sempre aumentamos a bagagem – e não falo só da carroceria cheia de potes e poeira. Às vezes o que mais toma lugar na memória nem é do roteiro do trabalho de campo em si, mas dos encontros que o acaso realiza e da experiência humana singular que daí resulta.

     Estávamos nós no sertão mineiro, pelas margens do rio Pandeiros, lá onde ele se junta com uma lagoa perene que preserva ainda em seus cílios ralos uns buritis antigos. Antiga também uma barragem hidrelétrica que ali existe, pequena e desativada; tão antiga quanto muitas das pessoas mais velhas dessa vila rural onde nos alojávamos, vila xará do rio. Sendo nossa terceira campanha coletando formigas em uma pesquisa ecológica no entorno desses corpos d’água, foi dessa vez que iniciamos entrevistas com parte do pessoal dos arredores. Por isso a expectativa boa de finalmente sermos algo mais do que um grupo vindo de longe, geralmente sujo de barro e suor, que passa para-lá-e-para-cá, caminhonete branca erguendo poeira. Ou gente que só desce rápido no mercado, perneiras ainda vestindo as canelas, porque o estoque de água comprado em Montes Claros não segurou o calor dos dias ou porque o fim do dia pedia mesmo era uma cerveja geladinha. Coisa de campo, a gente bem sabe.

            Como costume, estávamos naqueles dias trabalhando na nossa maneira de fazer mais com menos: duas duplas em áreas distintas, fosse pela manhã em experimentos de coleta de formigas e dados ecológicos, fosse à tarde entrevistando quem se dispunha.  Já umas dez da manhã, o experimento já pelos meios, minha dupla e eu ali de olhos no chão: em folhas, miçangas de madeira recheadinhas com uma massa atrativa, que se passam por sementes naturais e bem dão conta de convencer as formigas que por esse tipo de recurso se interessam. Atentas, a gente ia anotando as interações dos bichos, coletando quem comia uns bocados ali mesmo e quem carregava nossas sementes artificiais pra longe da folha (sempre o mais divertido, um jogo de pega-pega com pinça). Tudo conforme o roteiro, à sombra razoável de árvores baixas à margem da lagoa, sombra mais que boa sendo o sol forte de novembro. Não chovia, mas algum vento vez ou outra punha a dançar o buriti grande que guarda a trilha que se inicia bem na saída da lagoa, pertinho do nosso primeiro ponto de coleta.

     Num repente, sai um cavaleiro da lagoa. Lembro bem do bigode cerradinho, do chapéu sertanejo e da bolsa de couro a tiracolo. De feição bem séria, disse – “dia! ”. “Bom dia! ”, a gente gritou de volta em simpatia, já acompanhando com os olhos outro homem mais jovem, que o seguia montado a cavalo. Uns barulhos de pisoteio de casco na água rasa, sons metalizados de sinos que mais parecem agogôs e, pronto, tempo nem deu de retornar a atenção para as formiguinhas na folha. Um boi chifrudo é quem agora irrompe da água da lagoa! Nem deu tempo do susto, já sai outro boi da beira detrás do buriti. E mais um e outro, em atropelos de levantar água, mugir e virar as caras grandes pro nosso lado.

            A vinte metros da água e a uns cinco da trilha, a gente até tentava seguir com o experimento em seu tempo marcado, já que a fila de bois parecia ir tomando seu rumo estradinha afora, margeando a cerca. Os cavaleiros na frente puxando a boiada, “êêê, boi! ”. Nisso o primeiro homem sai da trilha, estaciona seu cavalo ao nosso lado e, do alto do bicho, bem sério nos pergunta que fazíamos nós ajoelhadas mexendo ali com aqueles trem. Maravilha, pensei, surgia ali um momento de diálogo. Animada eu disse da importância das formigas em espalhar sementes e fazer crescer as matas, e que a gente usava as miçangas com massinha como se sementes fossem e etecetera. Sério ele continuou, de novo analisou as continhas de madeira. Não sendo formiga, a ele não convenceram. Pelas rédeas botando o cavalo de novo no rumo da trilha do buriti, ventou a despedida sobre nossas cabeças: “o povo inventa cada coisa!”.



Cynthia Oliveira




Haiga de Mugido




 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Versus

 







De saída encantou-me o xadrez:


Cavalo a galopar a inicial de meu nome


A mobilidade mágica da torre


avançando em highway bicolor


E a rainha dançando a rosa dos rumos


como quem vê no mundo o quintal


Mas desaprendi tudo em nome das damas


Guerra entre infantarias de rua


sem mantos nem medalhas


Time com camisa, time sem. E só


Tudo mais nobre que as obscenas


estratégias de generais sacrificando peões


em benefício de reis que jamais


hão de estapear-se entre si




Luís Mingau






segunda-feira, 17 de maio de 2021

@larissa

 




De modo compulsivo, minha irmã postava fotos e mais fotos do corpo esbelto, bem definido, seguidas de frases prontas sobre sua rotina de treino e os fatos banais de sua vida cotidiana. Três anos mais nova e dez quilos mais magra, Larissa era uma celebridade das redes sociais com seu meio milhão de seguidores; eu era a garota tímida, acima do peso, com o rosto pipocado de espinhas, um perfil irrelevante, sem status, sem curtidas. Brigávamos com tanta frequência que a única maneira de manter a paz era evitar qualquer conversa. Assim fizemos por dois anos consecutivos até o dia do acidente que nos separou de vez e para sempre.

Enquanto eu me matava de estudar para ingressar numa universidade renomada, minha irmã se esforçava na busca do físico perfeito. Entre suas amigas de academia, não se falava outra coisa; a mesma devoção que as beatas dedicavam aos assuntos da alma, elas dedicavam aos assuntos do corpo. Falavam entusiasmadas sobre dietas, tabelas nutricionais, treinos de intensidade e da superação dos vícios em guloseimas hipercalóricas. O corpo de Larissa era uma ferramenta de marketing na busca incessante de novos seguidores.

Muitas vezes, meus pais se queixavam do tempo que Larissa gastava nas redes sociais. Minha irmã estava sempre com o celular, fosse no banheiro ou na hora das refeições. Raramente era possível falar com ela sem ser interrompido por uma notificação.

Um dia, andando com fones no ouvido, ao conferir uma mensagem, Larissa não se deu conta de que o sinal havia fechado. O motorista do ônibus freou, mas era tarde demais. No asfalto, o rosto lindo e o corpo esbelto tão bem-cuidado ficaram irreconhecíveis. 

Minha irmã foi velada com o caixão fechado. Houve uma grande comoção nas redes sociais. Os seguidores fiéis de Larissa inundaram seu feed com postagens de carinho e despedidas.

Em casa, minha família agonizava em silêncio, sufocada em lágrimas naquele estágio do luto em que a morte, de tão inesperada, parece irreal. Enquanto minha mãe fortaleceu seu vínculo com a religião, meu pai procurou alívio na bebida, e eu me senti a pessoa mais culpada do mundo pelas brigas constantes que tinha com minha irmã.

Uma semana depois do velório, no meu feed do Instagram, apareceu uma postagem de Larissa. Era uma foto na academia, tirada provavelmente uma semana antes de sua morte, seguida pela legenda: “A vida passa, a morte chega, mas estarei sempre com vocês, meus queridos.”

Seus seguidores, é óbvio, também não acreditaram na mensagem absurda. A postagem causou muita revolta. Fiquei indignada e logo dei início ao processo de exclusão da conta. Quando preenchia os dados solicitados, anexando documentos de comprovação de parentesco e óbito, o perfil enviou uma mensagem.

“Não me apague, por favor.”    

“Quem é vc?”

“Sou eu, a Larissa.”

“Vou desativar essa conta. Minha família e a memória de minha irmã merecem respeito”, digitei, apressada, com as mãos trêmulas de raiva.

Minha mãe também tinha visto a postagem e veio me contar que alguém estava usando o perfil de Larissa.

— Filha, pelo amor de Deus, essa gente não respeita nem o luto de uma mãe — lamentou revoltada, pedindo para que eu desse um jeito de apagar o perfil.

— Não se preocupe, mãe, logo a conta será excluída. Estou preenchendo os dados, é um processo burocrático.

— Queria saber quem é o desgraçado que está fazendo isso! — exclamou meu pai, não se contendo de raiva.

Enquanto nos queixávamos da injúria, o perfil deu início a uma live. Em poucos minutos, milhares de seguidores acompanhavam a transmissão, todos tão indignados quanto nossa família. Meus pais sentaram-se ao meu lado, no sofá, diante do meu notebook. A live estava sendo transmitida de um local escuro. A sombra oculta disse com a voz idêntica à de Larissa:

— Boa noite, meus amores! Acharam que eu ia abandonar vocês? De jeito nenhum. Não deixem de seguir meu perfil, continuem curtindo e compartilhando minhas postagens. Estarei sempre trazendo conteúdo novo para vocês! — A voz fez uma pausa e acrescentou: — Queria que minha família participasse desta live.

Minha mãe levou a mão ao peito, tremia e chorava sem parar. Meu pai permanecia imóvel com os olhos arregalados, como se tivesse ouvido um fantasma.

— É a voz da Larissa, eu tenho certeza. É ela... Deixa eu falar com a minha filhinha — suplicou minha mãe, caindo num choro desesperado. 

— Não, mãe — disse, me contrapondo. — Isso é alguma brincadeira de mau gosto.

— Mãezinha — continuou a suposta voz de Larissa —, lembra a última coisa que a senhora me disse antes do acidente? Pediu para eu não me esquecer de comprar seu remédio e explicou o que estava escrito na receita, porque a letra do doutor César é um garrancho, pior que a letra do meu pai.

Minha mãe implorou, queria de qualquer jeito conversar com a filha falecida. Eu continuava cética, mas acabei mandando um “oi” a fim de mostrar que estava lá e aceitei o convite para participar da live; tudo o que eu queria era desmascarar a impostora. 

— Oi, família! — disse a voz com satisfação quando aparecemos na tela. — É bom ver vocês de novo. Não fiquem tristes. Quero ver minha família unida, como na noite do velório, em que vocês dormiram abraçados na mesma cama. Lembrei quando a gente era pequena e invadia a cama da mãe e do pai com medo de espíritos.

Nesse momento, estremeci de horror, só a Larissa poderia saber desses detalhes íntimos da nossa vida familiar.

— Filha, minha filhinha, a gente sente muito sua falta — disse minha mãe, emocionada. — De onde você está falando? Está no Céu?

A voz não respondeu.

— Filha? — insistiu minha mãe.

— Não estou no Céu nem no Inferno. Estou aqui no Instagram e aqui vou ficar para sempre. A única coisa que eu peço é que não apaguem meu perfil.

Os seguidores de minha irmã haviam se convencido do milagre e digitavam entusiasmados:

“Larissa vive! Deusa do Instagram! Nós te amamos!”

— Não, filha, essa não é a vontade de Deus — disse minha mãe, procurando força em sua fé. — Você precisa ir para onde vãos as almas. Por favor, Larissa. Eu rezei muito por você, aqui não é mais seu lugar.

— É verdade, filha. Você precisa descansar em paz — concordou meu pai, segurando a mão trêmula de minha mãe.

— Não! — gritou minha irmã como se soltasse um rugido feroz. — Se apagarem meu perfil, nunca vou perdoar vocês!

Em seguida, Larissa encerrou a live e nos bloqueou.


Conto Integrante do Livro

A Crise dos Valores

de José Carlos Balieiro

pode ser adquirido com o autor

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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Odisséia 2021

 Ninguém consegue nada

Sem um pouco de fracasso

Em breve: 

Condomínios no espaço

Que caso!


Na nuvem tem mais que chumbo azul,

Há todo mundo prestes

A desabafar

Filmes e perfis sem passar

De verdade.


Fotos e filtros, tudo fake.

News pela metades.

Seis semanas,

Seis dias,

Seis horas, okey.

Números humanos


Tudo bem.

A vida ainda passa 

Se repete.

Mas a TV reprisa

Uma história mal passada..


Kubrick acorda depois

De trinta anos de ressaca.

E lança:

"2021 Uma Odisseia Sem  Espaço"

Pouco espaço de memória

 Menores espaços  de fala

Gigabytes de histórias,

Uma a uma mal contadas.

Pesadelos que pesam toneladas.

O universo se expande

Na base dos gritos

E silêncios conectados.



Eduardo Guimarães

19/07/2019




sexta-feira, 30 de abril de 2021

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Relato Selvagem

 

Lá estava o Bar do Wilson me chamando cada vez mais. O Wilson, camarada de tantos goles. Com a pandemia, no entanto, ele pôs duas mesas de plástico na porta de entrada e servia dali as doses de pinga ou qualquer coisa que as pessoas iam comprar lá. Doces para crianças, créditos para celular, até jogo do bicho ele fazia. Wilson era um cara bom. Eu já estava há algum tempo sem beber. Estava dando um tempo com esse fluxo de álcool nas veias que me torcia os miolos até ver tudo rodando.  

Atravessei a rua e comprei um latão de Itaipava. Apesar do calor e da sede, a cerveja não desceu muito bem. Mesmo assim comprei mais uma logo em seguida, após tomar a primeira em duas goladas ali mesmo nas mesas de plástico que protegiam a entrada. A segunda já desceu melhor e uma certa calma foi me paralisando aos poucos ali no bar do Wilson. Não demorou muito pra eu pedir uma pinga, um tira gosto e me irmanar despreocupadamente na alegria benfazeja do Wilson.

Dali a pouco acabei reencontrando os velhos amigos, todos frequentadores assíduos do bar do Wilson. O Pastor chegava falando alto, gesticulando, gargalhando e contando histórias que poucos entendiam, mas de que todos riam, menos o Reinaldo, sempre bêbado demais para entender qualquer coisa. Ficava balançando o tempo todo e com um sorriso de retardado na cara que só tirava para tomar os copos de pinga que ele emborcava de uma só vez, estalando os lábios em seguida. 

Depois da décima cerveja, entornada na mesa, Wilson já tinha entendido que novamente eu só sairia dali carregado e com uma conta tão alta como meu grau alcoólico, pagando bebida e petiscos para todos. Porém, para alegria ou tristeza do Wilson, nada disso aconteceu. Assim que decidi voltar para casa, ao atravessar a pista, um caminhão com os faróis ligados me acertou e me arremessou à metros dali. Senti então aquela  angústia sufocante e derradeira, fechei os olhos e tudo finalmente parou de rodar. 


Felipe Fernandes





terça-feira, 27 de abril de 2021

Casas que não a minha




Saí de casa, devidamente vestida e paramentada para o cenário de epidemia que nos acomete. Sair sendo sempre aquela correria planejada. Fazer tudo que se precisa pros próximos 15 dias, tempo máximo previsto: duas horas. Após calibrar os pneus da minha Biz cansada, seus pneus murchos da tristeza da inutilidade, a primeira parada do rolê.
Uma casa de gente jovem, plantas em vasos e estantes de livros numerosos. Distante e brevíssimo contato presencial humano com alguém com quem não vivo. E já corre, que é preciso fazer tudo antes que chova.
Segunda casa. Paro em frente, buzino, interfono (será a casa 1?), mensageio. Dois trabalhadores da Copasa fazem uma obra nessa rua e o mais velho me avisa:
- Tem gente aí não, moça. O dia inteiro a gente não viu ninguém.
Na caixa dos Correios vários papéis promocionais de supermercado.
- Mas o Maps indicou aqui, só não sei qual das casas... Não devem tá saindo porque tão em isolamento – digo, triste porque é justo aquilo que esses dois trabalhadores não podem fazer.
- É república, tá desocupada.
Me vejo obrigada a recorrer à ligação. Atende, a casa é mais embaixo. Percebo que tem república e tem mais casas, um condomínio azulejado, varandas meio escondidas de mim e do sol.
O cara com quem tenho assunto a tratar me recebe. Entro no portão e me deparo com um sobrado, área de jardim e uma piscina de azulejos amarelos. Pequena e amarela. Jamais tinha eu visto uma piscina amarela.
Dentro de uma janela do térreo, lavando louça, uma senhora me vê chegar.
- Boa tarde! – eu digo.
Sem resposta, ela abaixa os olhos. Resolvo meu breve assunto e, antes de seguir ao portão acompanhada por quem me recebeu, grito:
- Boa tarde pra senhora! – ela continua a lavar a louça, não me responde nem me vê. Não quer me incomodar me vendo nem exibindo sua existência? Ali, naquele lugar amontoado de coisas, lugar que não lhe pertence.
Estranho, que conheço a mãe do sujeito que fui ver e no fundo sabia que dela não se tratava, mas demorei a me atinar.
- Acho que essa senhora não me ouviu me despedindo.
- Ah, a Eva... – e ele me dá um meio sorriso, não explicações. Sem graça?
Saí da casa sentindo o quase olhar de Eva atrás das costas.


 

Cynthia Oliveira




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