Isso que é amor?

Aqui estamos! Abaixo o que se encontra é a reprodução do primeiro livro de Lucas Teixeira o Isso que é amor?.
 Esse livro, já esgotado, se encontra na sua continuidade mas também é o responsável pelo inicio de uma disposição poética e de uma atividade de publicação.
Foi o primeiro livreto autopublicado que muita gente viu circular por aí, e em sua performance a refletir a irreverência do conteúdo  ao vender os livretos de mãos em mãos foi inspiradora e catártica em muitos sentidos.
Agora, quando Lucas Teixeira vai para seu segundo livro, o A Letra X da Palavra Amor é mais que necessário que disponhamos o conteúdo desse antológico e episódico livro.
Evoé!
Saravá!

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Prefácio


Entre o reflexivo e irreverente, Lucas Teixeira reverencia a figura feminina em seus poemas reunidos neste trabalho. Mesmo quando o poema não trata da mulher, a figura feminina está presente no jogo de palavras que ele habilmente usa.

Em alguns poemas encontramos o inesperado no desfecho, como em "Olhares", "Uma dor profunda assola meu peito", "A santinha foi à festa". A chuva é feminina a pátria, a dor, a família, a celebridade, a primeira vez. Coincidência ou não, o gênero feminino domina a palavra escrita deste poeta.

No poema "Acerca de um amor In", faz um jogo de palavras que aponta para a metalinguagem, que vai nos lembrar Camões e Fernando Pessoa, ao refletir sobre a invenção do amor através desta palavra, num joguete de verbetes.

Poeta promissor, Lucas aponta uma visão da vida entre a divertida e séria, sempre se pautando pelo uso da ironia em seus escritos.

Magda Velloso Fernandes de Tolentino


***

 Critério / mote para seleção: "O amor romântico é uma farsa, pois toda rosa subentende um 'caule' duro e vários espinhos"


***

...

Só minhas segundas intenções

Sustentam esse texto        



***

Olhares
A conversa era com ele
Mas lá no fundo
Ela estava olhando pra mim
Com o cantinho do olho
Veja bem
O canto de um olho só
Tudo para ele não perceber
Tudo para me desacreditar que era comigo
Ah! Tres vivas à mulher dissimulada!
Ele se foi
E eu cheguei.
Papo vai, papo vem,
E pro paredão logo a levei
Fui feliz naquele dia
Mas no dia seguinte
Um ditado me arrebatou
Quando o a esmola é demais
O santo desconfia.
Ficou a paranóia 
De que dos meus braços
Era outro que ela via.
Desde então
Abri mão das vesgas.


***

Inconformismo


 Oh meu Brasil feminil,
Indo, vindo, e de perfil.
Pra que ter tantas belezas
Se sou apenas um?
Oh cruel Pátria curvilínea,
Por que tem todas as cores
Silhuetas e temperos
Se sou apenas um?
E por que destinastes a mim
Só o bagaço da laranja?
É por ser devoto de São Jorge
Ou por muito tocar-me 
A miséria humana?
Meus olhos despem
O que as mãos não veem.
O violão que toco é desafinado 
E está prestes arrebentar as cordas


***

Pentento à infidelidade


Não esperes de mim, oh meu amor,
Um pacto de fidelidade
Em um mundo desigual no qual
Sobra mulher
E falta homem de verdade.


***


Previsões de Abril
(Ao ler, tenha em vista os feriados deste mês)


A princípio 
Um dia de mentiras
Conduzirar-te a uma feira de paixão
Porém, cuidado,
Logo O Traído
Far-se-á vivo
E quando menos esperar
Tiram-lhe os dentes 
2 por 1


***


Um amor


Um amor
Não tem preço,
Só custos.


***


Algo me diz...



Algo me diz que ela emagreceu
Sentou-se, curvou-se
E o cofrinho apareceu.


***


Uma dor profunda assola o meu peito



Uma dor profunda Assola o meu peito.
A face agoniada,
Um frio na barriga;
Falta-me ar
E sobra-me um grito
Entalado na garganta.
Algo que é maior que eu,
Algo que não posso controlar...


Meus arrotos guturais.




***


Sobre sapos 


O sapo casamenteiro
Garante pra si outra genitália
Ainda girina.
Logo leva
Sua pererequinha para a cama,
E anos mais tarde,
Acorda com uma sapa gorda
Gritando em sua ressaca.


***

A santinha foi à festa


A santinha foi à festa
E pensou achar 
Seu príncipe encantado.
Hoje, amargamente
Ainda chora
E se deixa levar
Pelo seu notívago amante;
Da cerveja
Orgia 
E preguiça. 


***


Viúva suspeita


Foi um bom marido??




Graças a Deus

Ele foi... 



***


...
Belas invenções 
Distorcidas para o mal:
Com a criação da família nuclear
Logo veio o divórcio


***


Celebridade


Deve ser interessante
Ser celebridade.
Não ser esnobado
Pelas festas pobres,
Ter filas de gente
Pra me conhecer.
Ter duas gostosas
Sentadas no meu colo,
E pelo celular
Rejeitar serviço ruim.
Ser idolatrado,
Ser premiado,
Ser copiado.
E aos trinta anos dar na garganta
Um tiro bem dado,
Pela vida vazia
E a queda inevitável. 



***

Chuva



Vencer na chuva
Indica determinação.
Rir e dançar na chuva é um sinal da paixão
Porém, a única certeza,
É que peito molhado dá constipação 


***


The dog


Dia de sol.
O asfalto brilha,
Daria pra fritar um ovo.
Concreto por todo lado
Pessoas agitadas
E um cão dormindo.
Chutam-lhe as patas,
Pisam-lhe o rabo;
E o cão fica inerte
Com seus olhos e boca
Pela pose deformados.
Será doença?
Será desilusão?
Será que nosso cão medita
Transcendendo esta dimensão?
Nada mais importa.
Passa uma cadela no cio
E o cão volta a ser cão. 



***


Acerca de um amor In


 Decepcionarte-ei-te ao não dizer-lhe
Que na primeira vez que vislumbrei-te
Meu ser se iluminou com o brilho de teu sorriso,
Ou que hipnotizaram-me teus negros olhos,
ou ainda, de modo galante o bastante,
Que tua pele me lembra chocolate,
E que, portanto, fiquei louco pra te comer.

Nem às paredes confesso
Que quando toquei tuas delicadas e gélidas mãos ,
Senti-me como Romeu, forçado a me envenenar
Bebendo vinho, e um comprimidinho de Amorfil Paixonitrila.

Pois assim como grandes poderes
Trazem grandes responsabilidades,
O medo, a vergonha e o orgulho,
Estas quimeras castradoras
Estão aí de bote espiatório para
O fato de eu ser um fraco.

Amo-te,
No sentido mais falso da palavra,
Já que sois só mais um amor inventado,
Um joguete de verbetes e nada mais!

O demônio da analogia - Mallarmé




 Palavras ignotas cantaram em seus lábios restos malditos de uma frase absurda?

Saí de meu apartamento com a sensação peculiar de asa a deslizar sobre as cordas de um instrumento, lenta e leve, que uma voz substituíra pronunciando as palavras em tom descendente: "A Penúltima está morta", de modo que 


                                                                                     A Penúltima
               encerrou o verso e
                                             Está morta


                                                                                                                                                                       se desligou da pausa 
fatídica mais inutilmente no vazio de significação. Dei alguns passos na rua e reconheci no som nulo a corda estendida do instrumento de música, que estava esquecido e que a gloriosa Lembrança certamente acabara de visitar com sua asa ou uma palma e, com o dedo sobre o artifício do mistério, eu sorri e implorei, com intenções intelectuais, uma especulação diferente. A frase retomou, virtual, livre de uma queda anterior de pluma ou ramo, doravante através da voz ouvida, até enfim articular-se só, vivendo com sua personalidade. Ia (não me satisfazendo mais com uma percepção) lendo-a em fim de verso, e, daí, como uma experiência, adaptando-a à minha fala, logo pronunciando-a com um silêncio após "A Penúltima", depois a corda do instrumento, tão estendida em olvido sobre o som nulo, partia-se sem dúvida e eu aduzia como objeto de oração: "Está morta". Eu não parava de tentar uma retornada a pensamentos prediletos, alegando, a fim de me acalmar, que, por certo, a penúltima é o termo do léxico que significa a sílaba anterior à última dos vocábulos, e sua aparição, o resto mal renegado de um labor de linguística pelo qual quotidianamente soluça em pausas a minha nobre faculdade poética: a própria sonoridade e o ar de falsidade assumido pela pressa da fácil afirmação eram uma causa de tormento. Fatigado, resolvi deixar as palavras de triste espécie errarem à vontade. por minha boca e eu seguia murmurando com entonação suscetível de condolência: "A Penúltima está morta, ela está morta, bem morta, a desesperada Penúltima", crendo assim satisfazer a inquietude, e não sem a secreta esperança de sepultá-la na aplificação da salmodia quando, assombro! - por magia facilmente dedutível e vibrátil - senti que tinha minha mão refletida por uma vidraça de loja, lá fazendo o gesto de uma carícia que desce sobre alguma coisa, a própria voz (a primeira, que indubitavelmente havia sido a única).
   Mas onde se instala a indiscutível intervenção do sobrenatural e o começo da angústia, sob a qual agoniza meu espírito há pouco poderoso, foi quando eu vi, erguendo os olhos, na rua dos antiquários instintivamente seguida, que estava diante da loja de um violeiro, vendedor de velhos instrumentos pendurados na parede e, pelo solo, palmas amarelas e, com asas enfiadas na sombra, pássaros antigos. Eu fujo, excêntrico, pessoa condenada a carregar provavelmente o luto inexplicável Penúltima.



*pic: Mallarmé por Manet



Notas do tradutor:

   O "demônio da analogia" (Le Démon de l'analogie) foi publicado em 1º de março de 1874, na Revue du Monde Nouveau, sob o título de "Lá Penultième" (A penúltima). Possivelmente, apenas por ocasião do lançamento dos poemas reunidos, veio o novo e definitivo título.
   Trata-se de um dos textos mais fascinantes do poeta. Já existia uma tradução dele, de Inês Oseki-Dépré, editada há anos pela revista Código, onde a frase-chave, "la Penultième est morte", permanecia no original, sem ser vertida para nossa língua. Motivo: a palavra penultième tem também acento na penúltima sílaba, enquanto, em português, ele recai na antepenúltima. Mas, como esta atual edição nossa é bilíngue, preferimos realizar a transposição inteira.
  Da mesma forma, Anthony Hartley (Mallarmé) procedeu em sua tradução: "The Penultimate is dead" - na lingua inglesa também caindo em pré-proparoxítona, mas em edição também bilíngue.
  Restaria a hipótese de se fazer a versão de "penultième" para "antepenúltima". Talvez, quem sabe? - uma respeitável tentativa de se preservar inteiramente o teor de metalinguagem. Mas, em paralelo, parece-nos uma acrobacia exagerada, ostensiva, em nome do "significante" no original. Há "traições" e "traições".

José Lino Grünewald
Retirado do livro "Poemas", edição da Saraiva de Bolso.
    

O mundo que te ofereço, amiga - Jorge Rebelo

O mundo que te ofereço, amiga 
tem a beleza de um sonho construído.

Aqui os homens são crentes 
Não em Deus e outras coisas sem sentido
mas em verdades puras e belas
tão belas e tão universais 
que eles aceitam morrer para que elas vivam.

É esta crença, são estas verdades,
 que tenho 
para te ofertar.

Aqui a ternura não nasce 

nas alcovas.
É uma ternura rude, violenta, amarga 
nascida na dureza áspera da luta
 em caminhadas longas 
em dias de espera. 

É esta ternura, rude e amarga,
 que tenho 
para ofertar. 

Aqui não crescem rosas coloridas.
O peso das botas apagou as flores pelos caminhos.
Aqui cresce milho, mandioca 
que o esforço dos homens fez nascer 
na previsão da fome. 

É esta ausência de rosas,
este esforço, esta fome
que tenho
para te ofertar.

Aqui as crianças não envelhecem, 
o seu riso é eterno,
 brincam com o sol, com o vento
com a chuva e os gafanhotos, 
com espingardas verdadeiras,
com pedaços de granadas.

É este riso eterno de criança, este sol, 
estas espingardas verdadeiras 
(com as quais também brinquei), 
que eu tenho 
para te ofertar.

O mundo em que combato 

tem a beleza de um sonho construído.

É este combate, amiga, este sonho, 

que tenho para te ofertar. 



Sugerido por Maria Cristiana Casimiro, de Macau
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