sexta-feira, 4 de maio de 2012

Poucas cinzas do machado Abiatar



Poucas cinzas


Como se fosse um porto, meu corpo assiste a um filme barato no qual Garcia Lorca se enleva com as cinzas de Salvador Dali  e Buñuel visita seus futuros roteiros nos poemas de Lorca. 
Como se fosse outro, meu corpo no filme percebe um galho retorcido e sonha com um crânio que brisa e braceja o hálito do tempo na minha cara...

O filme retrata um beijo tímido de Lorca enquanto Dali dialoga muito sensual com sua loucura de garoto profano sem muita ideologia, mas valoroso pelas cinzas...

 Lorca escreve uma poesia abarrotada de vergonhas. Bastante sentimental! Descrevendo como somos crianças pequeno-burguesas mesmo quando poetas ou proletários.

Portanto, o filme tem galhos e analogias de crânio derretendo uma escola em Madri.

Portanto, o filme habita meu corpo e exala personagens culpadas de amar. Mas como poderiam amar de outro modo um pintor e um poeta demasiadamente preocupados com catolicismo, no inicio do século passado?

Mas como poderia mostrar o amor diferente um filme modulado para ser um gueto, uma marca?

Mas talvez o amor seja realmente uma porcaria, um produto cultural com data de validade vencida, que apenas por desespero desejamos viver...

Penso em outros filmes ruins. Filmes que não tinham galhos retorcidos, nem crânios, nem surrealismos, nem olhos de Dali e lábios de Lorca. Filmes de Bang Bang e Kung Fu. Filmes sobre puberdades sexistas na Filadélfia. Os caçadores de emoções mascarados com meu rosto já odiando a história política dos Estados Unidos. Pornochanchadas brasileiras que não descobrem as profundezas de Humberto Mauro, mas são belas quando mostra, em segundo plano, um fantasma enrubescido e gritante, chorando em silêncio, a morte da Olga Benário.

Os seriados também ensinam e me ensinaram o cérebro humano pelo avesso: a mente espacial e orelhuda de doutor Spock e as espaçonaves que ornamentavam minha vida enquanto menino meu corpo dormia desejando a nave espacial

Filmes de lobisomens que morriam com uma bala de prata ou uma espada forjada por alquimistas de séculos passados, mas que mordendo abandonavam um filho ruim no corpo gozoso da donzela.

Como se fosse um blues, o filme barato mostra visões que me possuíram. Dores quase biográficas arrancadas de algumas miniaturas dos quadros de Miró conseguidas com bastante dificuldade

Os dias com Allen Ginsberg.

Os amigos magos que se perderam nos braços morenos da província chorando  suas dores nos telhados da minha alma como se fossem o Buda e o meu poema carne.

Ao galho digo que gosto da sua energia se afastando das qualidades do meu corpo, que admiro sua falsidade plástica e seus suspiros com Augusto dos Anjos humilhando a paisagem; ao crânio digo seu sentido calvo, sua existência humana, mesmo quando aos pés de um manequim.

Oh crânio Lazarento, minhas noites cinematográficas contam desejos de literatura: os olhos dentro do meu roteiro que nunca será filmado se parece um pouco com Lorca morrendo na guerra Civil Espanhola alguns anos depois.

Oh crânio Lazarento, estou na casa de meu pai enquanto escrevo.Vejo os barracos ensolarados da miséria e os garotos que agora não poderão ser os coribantes de Roberto Piva, pois a vida experimental ficou extremamente defasada e as drogas só fazem  insônia e ordem na minha bonequinha de vestido verde.     

Vejo também a escola em que cursei o primário e um senhor do meu tempo de escola ainda remenda a horta escolar e conta piadas.

Meu corpo não abandonou essa escola como não se separou desses morros. Estranhos de comover mais que todas as galerias de arte em que meus quase colegas de profissão estudam o tempo e a maldade do tempo.

Vejo

e vendo acordo a esperança claudicante das recordações

A morte rápida de certos acontecimentos e pessoas e a morte demorada da memória nas lembranças,
mas a morte é realmente a única diferença, mesmo quando os cavalos do poema conseguem ver a gênese continuada dos sentidos. 
A menina do morro imita Brigett Bardot nas pupilas do meu sexo e como não sou embaixador não verei Sevilha

E como Mallarmé meu corpo continuará procurando o buquê todos os buquês até gastar a ultima moeda gasta da minha vida... 

Oh crânio Lazarento, escrevo para não ver seu filme morrendo no meu corpo, pois meu corpo sente simpatias por você, gosta muito da sua pintura cariada de Monalisa; gosta mais ainda quando no seu corpo de crânio o  tempo me pede um trocado como se fosse Garcia Lorca. 



Abiatar Machado
Caratinga, Bairro Santa Cruz, Abril de 2012

Abiatar, poeta de Caratinga, fazendo poesia

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas.

Poema da Lesma

se no tranco do vento a lesma treme
o que sou de parede a mesma prega
se no fundo da concha a lesma freme
aos refolhos da carne ela se agrega
se nas abas da noite a lesma treva
no que em mim jaz de escuro ela se trava
se no meio da náusea a lesma gosma
no que sofro de musgo a cuja lasma
se no vinco da folha a lesma escuma
nas calçadas do poema a vaca empluma!

(Poema de Manoel de Barros musicado por Tetê Espíndola)




VII
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.


Em homenagem aos nossos companheiros de Conselheiro Lafayete que carregam a poesia nas costas como a Lesma o seu casulo. 

Evoé!

domingo, 29 de abril de 2012

Rascunho a uma negação do futuro - Paco Bernardo

Porque sendo a vida nada,
a morte também é nada.
E fios que chiam e gente que debate
e gente que diz o que está lendo e o que
A quis dizer com B, e qual o contexto histórico que o circunda
e como C é fruto de toda uma condição favorável para que C fosse C
ao invés de ser uma porra qualquer à esquerda. Qual ele mesmo que fala.
Isso sim
minha filha
é conformismo.




sábado, 7 de abril de 2012

LARVASNEWS: Abril Poético já bate asas


Pois é, pessoal. Estamos meio sumidos do nonada virtual, e dessa vez não foi por acaso nem por crises depressivas.

Voltamos já para anunciar nossa parceria com esse evento bacaníssimo que já quase completa uma década e que nós, crianças no mundo da poesia e da produção cultural, nos engajamos pra ajudar fazer acontecer.




 O ABRIL POÉTICO é um circuito poético/cultural criado pelo pessoal do grupo LESMA, de Conselheiro Lafayete, e que passa por diversas cidades da região central de Minas, e agora começa uma parceria profícua e promíscua com Universidades e outros bandoleiros como nós para estender seus tentáculos para outras veredas das Minas Generais. Esse abril se iniciará em Lavras, dia 12 de abril, quinta feira, com uma programação cheia e que se incrementa a cada dia, com a prévia já nesse cartaz:




Na sexta feira 13, contra todo o azar, a trupe irá pra São João del-Rei para mais um dia com intervenções poéticas/musicais em lugares públicos, exibição de filmes e poemas, mesa redonda sobre performance poética com a professora Dr. Maria Ângela Araújo Resende e poetas Grupo Lesma e Larvas Poesia . Tudo isso antes do gran finale no centro cultural do campus CTAN com recitais de poesia e shows com a talentosíssima dupla paranaense Marcoliva Lives e Tatiane C., seguidos dos impagáveis Dos Fernandes e  muito mais:




Depois ainda teremos Campanha, Caxambú, Lafayete, Catas Altas da Noruega, Itabirito, Congonhas e mais algumas cidades, antes do encerramento em Ouro Preto, no outro final de semana, com a presença da poeta Alice Ruiz!

Em breve mais informações e ações, e ainda resenhas sobre os artistas e apresentações que integrarão o evento!

Liberdade, ainda que tarde!


Abril Poético Universitário
CAMINHOS DO SUL
(LAVRAS – SÃO JOÃO DEL REY – CAXAMBU - CAMPANHA)

PROGRAMAÇÃO:



12  de Abril  (Quinta feira)
LAVRAS

09hs – Abertura do Abril Poético Universitário.
Recital na escola Dora Matarazzo (Liga Ecológica Santa Matilde – LESMA)
12hs - Exposição de poemas (cantina)
Exposição musical (cantina)
Curta Metragem (cantina)
Canja musical: Tatiana e Marco Oliva

20:40hs - Exposição de poemas (cantina)
Exposição musical (cantina)
Alessandro Coimbra

21hs - Espaço: Manda Chuva – Bar e eventos
Recital:
TERÇA INTEVENÇÃO
LESMA
LARVAS
Guilherme c/ a performance “Na Rua”
Palco livre de poesia e música acrossallnight (Participação de poetas da cidade)

Música:
Marco Oliva e Tatiane Cobbett
Diversos
Exposições de poemas, venda de livros, zinem (stand temporário)


13 de Abril (Sexta feira)
SÃO JOÃO DEL REY

12:00hs  - Intervenção "Poesia ao pé do ouvido" (Poetas da caravana Abril Poético) (Restaurante Popular

16:00hs - Mostra de Curtas sobre poesia, cultura e história regional (Coletivo Mosca)
         Recital de Violão Clássico     anfiteatro do dom bosco)

19:00hs -  Recital LESMA (Afiteatro do dom bosco)
         Recital Larvas
         Mesa Redonda sobre Performance Poética: Prof. Dr. Maria Ângela de Araújo Resende, Representante do LESMA, Representante do Larvas

22:30hs - RockAbril Poético (Centro Cultural Em Construção - CTAN
         Fábio Pimentel
         Performance (Na Rua)
         Marcoliva e Tatiana Cobbett
         Performance  com Anderson Souza (lançando seu livro "fragmentos do inconsciente e outros poemas")
         Apresentação de Os Fernandez


 14 de Abril (Sábado)
CAXAMBU

17hs – Mostra Especial de Curtas-metragens “Mosca encontra Lesma”:ecologia, cultura história regional.

19:30hs – “Poesia na Praça”: atividades culturais na Praça XVI de Setembro (coreto). Recitais:

Recital Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete)
Íris Ferreira Torres (São Lourenço)
Homenagem ao Poeta Caxambuense Eustáquio Gorgone de Oliveira

20hs – “Espaço Abril Poético”: intervenções culturais e artísticas no-Bar Viking. Shows:           

Fábio Pimentel e Fernando Amarante (Lambari)
Os Fernandes (Barbacena)
Tatiana Cobbett & Marcoliva (Florianópolis)


Dia: 15 de abril de 2012 (domingo)
CAXAMBU  e CAMPANHA

09hs – “Ritmo e Poesia”: oficina de poesia e música para crianças de 7 a 14 anos, no Parque das Águas (fonte Duque de Saxe)

10hs – “Música no Parque”: roda de música e poesia no Parque das Águas com lançamento:

CD “Árvore da Vida” do Grupo Lesma
CD “Bendita Companhia”, de Tatiana Cobbett & Marcoliva

Campanha

18hs – “Poesia na Praça”: atividades culturais na Praça Central com:
Recital Lesma Poesia e Convidados

20hs – “Espaço Abril Poético”: intervenções artísticas na Praça Central, com recitais e shows:
Fábio Pimentel e Fernando Amarante (Lambari)
Íris Ferreira Torres (São Lourenço)              
Recital Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete)
Os Fernandes (Barbacena)
Tatiana Cobbett & Marcoliva (Florianópolis)


Dia: 16 de abril de 2012 (segunda feira)
CAMPANHA

09hs – “Ritmo e Poesia”: oficina de poesia e música para crianças na Escola Estadual Dom Othon Motta

10hs – “Música na Praça”: roda de música e poesia na Praça Central, com lançamento:
CD “Árvore da Vida” do Grupo Lesma
CD “Bendita Companhia”, de Tatiana Cobbett & Marcoliva

15:30hs – Mostra Especial de Curtas-metragens “Mosca encontra Lesma”: ecologia, cultura história regional. No Cinema da Prefeitura (garagem)

19hs – “Poesia: ações e reflexões”: mesa de discussão no Auditório da Paiva de Vilhena (Sion)
(Com participação da Prof. Dr. Maria Ângela de Araújo Resende (UFSJ), Grupo Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete) e Grupo Larvas (Lavras)

21hs – “Poesia na Varanda”: apresentações culturais nos jardins das Faculdades Integradas Paiva de Vilhena (Sion).
Participações de Recital Lesma Poesia, Fábio Pimentel e Fernando Amarante, Tatiana Cobbett & Marcoliva, e alunos dessa instituição.

Evoé, Baco!

domingo, 18 de março de 2012

Notícia Súbita - Ferreira Gullar

Ocorrência




Aí um homem sério entrou e disse: bom dia
Aí o outro homem sério respondeu: bom dia
Aí a mulher séria respondeu: bom dia
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços


Editorial - Sem Pauta

Um supermercado foi inaugurado,
as eleições estão chegando,
alguns movimentos de reivindicação estão sendo mais bem trabalhados,

as pessoas saíam absurdamente sorridentes do supermercado,

as pessoas estão entrando no clima do processo eleitoral, além de estarem com a disposição de sempre pra votar em seu candidato de sempre, sem tentar ouvir nem aos candidatos e nem a si mesmos antes,

os movimentos políticos de reivindicação estão vasculhando tudo minunciosamente procurando pautas para manterem suas lutas, no entanto desativaram o Diário Sistemático da Militância

E nós sem nenhum escândalo pra cobrir, ninguem esclarece qual foi o flagrante do CQC na câmara dos vereadores, não que tenhamos tentado com afinco descobrir tambem...

Também estamos sem pauta, mantendo a nossa pré-disposição para falar mal de todo mundo, mas sem nenhuma crítica muito construtiva pra fazer;

Caso alguém morra de overdose de iogurte,
Caso alguém sorria olhando o horizonte
Caso alguem se revolte por livre e espontãnea sensibilidade extra-sensorial e dê um grito bem altão pra depois se envergonhar por ser peformatico demais mande um e-mail para larvaspoesia@yahoo.com.br e entraremos em contato por telecinese postando imediatamente um poema de algum dos heterônimos de Fernando Pessoa.

Só levitações, sucos de maçã e outras bobagens, não nos encham com traficantes atirando em usuários, isso já era pro estado ter resolvido, e, se o estado não resolveu já era hora dos jovens saberem que é melhor não se meter com gente armada, se eles quisessem fazer bem a alguem portariam um sorvete de limão recém comprado para dar pra primeira meininha de oito anos com a testinha franzida porque o sol tá quente....







sexta-feira, 9 de março de 2012

Que que adianta não ser imbecil ou borboleta, Manoel?

Entrar na Academia já entrei
mas ninguém me explica por que que essa torneira
aberta
neste silêncio de noite
parece poesia jorrando…
Sou bugre mesmo
me explica mesmo
me ensina modos de gente
me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa
me explica por que que um olhar de piedade
cravado na condição humana
não brilha mais que anúncio luminoso?
Qual, sou bugre mesmo
só sei pensar na hora ruim
na hora do azar que espanta até a ave da saudade
Sou bugre mesmo
me explica mesmo:
se eu não sei parar o sangue, que que adianta
não ser imbecil ou borboleta?
Me explica porque penso naqueles moleques
como nos peixes
que deixava escapar do anzol
com o queixo arrebentado?
Qual, antes melhor fechar essa torneira, bugre velho...


Henri Matisse

PERDER A INTELIGÊNCIA DAS COISAS PARA VÊ-LAS.

Manoel de Barros

quarta-feira, 7 de março de 2012

Três tapas na cara, por Manuel Bandeira

Poética
Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas. 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbados 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação.
...
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
...
O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
Ecos por un grito (1937) - David Alfaro Siqueiros - Pintor Mexicano

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

La poesía la llevo dentro/ alguien / - con su palito erecto - / me la metió: Regina José Galindo



**Foto sacada por la amiga Zaira, en la exposición "Piel de gallina", de la artista guatemalteca Regina José Galindo.




Vídeo sobre su obra en el museo Artium: la violencia con las mujeres y otras cosas más (y malas)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Há metafísica bastante em não pensar em nada? - Alberto Caeiro



Há metafísica bastante em não pensar em nada. 

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso. 

Que ideia tenho eu das cousas? 
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? 
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma 
E sobre a criação do Mundo? 
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
E não pensar. É correr as cortinas 
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos, 
Começa a não saber o que é o sol 
E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
Mas abre os olhos e vê o sol, 
E já não pode pensar em nada, 
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
De todos os filósofos e de todos os poetas. 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? 
A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
A nós, que não sabemos dar por elas. 
Mas que melhor metafísica que a delas, 
Que é a de não saber para que vivem 
Nem saber que o não sabem? 

«Constituição íntima das cousas»... 
«Sentido íntimo do Universo»... 
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
É incrível que se possa pensar em cousas dessas. 
É como pensar em razões e fins 
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. 

Pensar no sentido íntimo das cousas 
É acrescentado, como pensar na saúde 
Ou levar um copo à água das fontes. 
O único sentido íntimo das cousas 
É elas não terem sentido íntimo nenhum. 

Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
Sem dúvida que viria falar comigo 
E entraria pela minha porta dentro 
Dizendo-me, Aqui estou! 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, 
Não compreende quem fala delas 
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 

Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar, 
Então acredito nele, 
Então acredito nele a toda a hora, 
E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 

Mas se Deus é as árvores e as flores 
E os montes e o luar e o sol, 
Para que lhe chamo eu Deus? 
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
Sol e luar e flores e árvores e montes, 
Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
E luar e sol e flores, 
É que ele quer que eu o conheça 
Como árvores e montes e flores e luar e sol. 

E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
Como quem abre os olhos e vê, 
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
E amo-o sem pensar nele, 
E penso-o vendo e ouvindo, 
E ando com ele a toda a hora.



Alberto Caeiro




**imagens: Magritte e Dali
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