Arqueologia poética lavrense


BOSSA MAL-DITA


Deixo a minha família dependurada na janela do Casarão Rodrigues
e aviso para os raros companheiros
que retornarei em breve para nossa interminável sinuca de cada dia
Abandono a cidade
e o efêmero amor provinciano
Lavras está presa nos balcões dos tristes armazéns da rua Santana
esperando o bonde da inércia passar

Na minha claustrofobia interiorana
vou em passos agonizantes
em busca do porto do “Pelintra”
das notícias do jornal moderno
das flores de concreto

5 de abril de 1951
Meus primeiros passos na “rodoviária da bossa”
respiro maresia e fumaça
Ascendo meu novo cigarro
e faço sinal para um taxi.
Da janela do grande ford
meus olhos impregnam-se de ruas rápidas
nordestinos itinerantes
negros
ternos andantes
cafés em esquinas

O mar e a asma
pouco me preocupa...

Não vim para sonhar e nem para Ipanema
estou aqui para a fragmentação do éter verbal
e para uma grande missão:
Atear fogo no último purista!

Que fique bem claro
Eu sou
antes de mais nada
a vergonha da família tradicional,
um burgues cancerígeno
filho que não volta mais...
e se voltar

INTERNEM-ME em Barbacena!





Beraldo Rodrigues ( 1927 - 1958), Poeta Lavrense.

Rua Santana no século XIX.
Fonte da foto: Jornal de Lavras

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