Anderson Souza e o delírio da simplicidade hiperbólica

Aproveitando o natalício do poeta Anderson de Souza, conhecido nos já velhos tempos da mais velha ainda São João del-Rei, o grupo Larvas tem o prazer de homenagear (nos) com uma palinha desse grande ser humano, filósofo e escritor, que ainda divaga -corajosamente- como educador nas horas vagas, e também é tantas outras coisas em tantos outros lugares desse mundão de ninguém.


São João del-Rei


Há certos cordões que, quando arrebentados, causam uma dor terrível.
Depois que o cordão umbilical que me unia à minha mãe se arrebentou,
fui construindo novos outros – com meu amor, meu entusiasmo, minhas quedas, meus sonhos...
Mas que logo, novamente se arrebentavam...
Em São João del-Rei, não foi diferente!
O cordão que se formou entre eu e esta cidade foi tão intenso, mas tão intenso... (aos meus sentidos e a minha irracional razão),
que quando me assustei, uma parte de mim já havia se dissolvido
no último crepúsculo do meu olhar junto à igreja São Francisco.
Parece uma hipérbole! E é mesmo! É também um exagero
dizer que São João não é mais o sonho, não é mais a minha realidade.
Não é mais minha vida, não é mais minha cidade/mãe?!
...ah – o teatro, as orquestras, os amigos, a Karen, a Marina, a Suleimara, a Marcelinha, (os amores), os conflitos, as brigas, os margumes, o Naldinho, o Anselmo, o Josias, o Monteiro, o Aluízio, o chá mágico, a Camila, as crises, as alegrias, as loucuras, a Gisele, as vielas, as luas, as pontes, as festas, a faculdade, as vertentes, os recitais... tudo, hoje...é apenas uma ideia – sem encosto e sem acento – pendurada em um cordão arrebentado de minhas lembranças.


...


“Personalidade é tudo na arte e na poesia.”
(Goethe)


Felicito-me com a alegria da alma dos pássaros.
Mas, a alma, o que é?...
(Os filósofos vão dizer que é uma determinada substância.
Os físicos vão dizer que é uma espécie de energia.
Os “espíritas”, a seu modo, vão dizer outra coisa...). Alice, por sua vez, disse-me que mostro minha alma ao escrever poemas. Então vá:
alma abstrata diante dos pilares de concreto do tempo;
Vá – idéia desconexa com a lógica do mundo;
Vá – algarismo perdido no Um de Pitágoras;
Vá – linguagem figurada diante das figuras terrestres;
Vá – comboio de fantasias desnorteadas;
Vá – ilusão de uma das fatias do espaço;
Vá – rima metafísica aos olhos do alfabeto do mundo;
Vá – corda arrebentada de uma canção crepuscular;
Vá – devaneio inconsciente dos sonhos mortos de Freud;
Vá – imagem perdida nas margens da vida;
Vá – metáfora sem sentido da nova ortografia;
Vá...
Mesmo que inconstante, mesmo que cambaleante, mesmo que inconsciente, mesmo que impertinente, mesmo que em forma de letras mal traçadas e mal estruturadas; vá, mesmo que distorcida,
mesmo que reprimida, mesmo que perdida, mesmo que sem sina, mesmo que sem rima, mesmo que rouca, mesmo que louca... Vá...
Vá ao encontro de olhos espirituosos que possam abraçar tua angústia, que possam abraçar teu sorriso, que possam abraçar tuas alegrias, tristezas e imperfeições. Vá, siga os sinais!... Continue ouvindo os pássaros e as palavras de Alice. E, se Apolo lhe permitir, diga a ela que seu espírito é um presente sem roupas para cobrir (tua alma).


* Anderson, Poeta, de mão e garganta cheia, sabe dizer seus versos em alto e bom som como poucos. Acaba de lançar seu segundo livro de poemas "Fragmentos do Inconsciente e Outros Poemas". Há quem diga que o viu com seu filho no colo em SP, e na lua. Há quem diga que o viu tomando uma cachaça em Macuco ou no bar do Bosco. O certo é que, onde quer que ele passe, fica um rastro cinza de explosão e melancolia.

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