Os Fernandes: como um deus despedaçado que renasce numa flor

Às vezes se vai dormir e um sino toca (ou o Gustavo Lima no vizinho), a imagem de um santo triste (ou o Jô na TV), a aridez da cruz, ou o escuro mesmo (e seus fantasmas) nos encara.
Para alguns, a (quase) convicção de que deus não existe, e que devemos levar isso até as últimas consequências. Nada. Nem aqueles bonitões da Grécia, nem os naturebas Célticos, nem os sedentos por sangue Astecas. Se bobear, nem o Lula, o Reuni e o Bolsa Família. Nem Marx. Se pá, nem a grana, meu camarada. Corre atrás não pra ver.

E é aí que tá uma grande questão pra você, desamparado até pela divina cultura de massa que de rodízio em rodízio já não desce no seu estômago. Não. Não quer nem se vestir de preto mais, berrar a sua revolta com o mundo, nem se adequar, nem entrar na fila e financiar uma imagem no banco?

Tudo bem: daí vem uma fila de clichês, desde o universiotário cult bacaninha que adora agitações culturais, até o comunista que almeja entre uma maconha e outra, lutar com os movimentos sociais em prol dum mundo melhor pra todos, e que morram os burgueses, passando pelo médicoengenheiroadvogado que só quer fazer a sua e dançar a dança da vez, com seu open bar e namorada bonita. E dá pra nadar no mar do consumir consumir consumir sumir ir. Que possivelmente é o mais fácil que tem por aí. E postar tudo no facebook, claro, que ninguém conversa por cima do muro mais.

É tanta coisa que cansa. É tanta coisa. É tanta. É.

O novo não nos choca mais. Nada de novo sob o sol. O que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo.

Ainda resta, claro, os antidepressivos, a bebida, a droga, o amor, o mundo pra conhecer e as grandes obras da humanidade. E uma ou outra pessoa legal pra gente se iludir.

Felizmente, no mar do mesmo de sempre, vez ou outra aparece algo que te faz olhar pra frente, algo diferente, algo consistente. Que te faz lembrar de quando você lê aquele grande livro da sua vida, ou quando você ainda tinha saco pra adorar algum artista, na falta de deus, ou adorar alguma namorada, na falta dum artista, ou adorar uma bebida, na falta de uma namorada. Tipo dar um tapa nas costas da vida.

Felizmente, tive o prazer de con viver, ouvir e assistir Os Fernandes, e sentir que aquela coisa, que faz a gente pensar que vale a pena, mesmo assim. Que isso não é masturbação. Não é feito com a cabeça, nem com o umbigo. É feito com riso, e calo na mão.

Apesar de todo o mito falido, taí de novo, o verbo e a criação.

Foi engraçado olhar, em cada apresentação deles, num coreto de praça em Campanha, depois da missa, chovendo, e ver chegar um bando de menininhas do grupo de jovens católicos berrando o “Baião do LSD”, ou a academia de letras de Caxambú olhando os malabares e o som circense na praça e pensando  sem pensar : “meu deus, por quê me abandonastes?”, ou numa baladinha universitária qualquer, com todo mundo bêbado e ouvindo que “não acredito num deus que não saiba dançar”.

No frio louco de Barbacena, entre as pedras de São João, berros buscam voz.
Algo como os mamonas querendo falar (assassinar a) poesia.

Contra expectativas, no meio da serrania uma lesma sobe as ladeiras de Ouro Preto.
Resta saber se o tempo e o esquecimento hão de esmagá-la antes do topo.
Ou se a sorte (e o braço) hão de criar caminhos, no meio do rodamoinho.

Boa sorte, amigos.


Ainda assim, cantem, como se fosse verdade – a esperança.




A poesia foi fotografada pelada!

Pelada!

2 comentários:

  1. critica de peso de uma galera de peso, vlw aí Igor!

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  2. Foda demais!! Bastou uma apresentação para constatar.. FO-DA!!! \o/

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