"Quem vigia os vigilantes?" ou "Oprimir ou não a opressão, eis a questão"

Acabo de ver um vídeo imerso no calor da madrugada mexicana, entre livros copos d’água e uma curiosidade que não me deixou voltar aos estudos antes de terminar de assistir. Terminei. Puto.  
Não posso ir deitar com a minha pesada consciência inconsciente tranqüila sem cuspir algumas roucas palavras. Na verdade, ela não está e nem estará tranqüila.
NÃO VOU ficar reproduzindo um sensocomumclassemédiauniversitária de que a mídia é uma merda os hippies são legais vocês são todos alienados vamos xingar os policiais.
Esse texto NÃO É um julgamento de valor sobre como os hippies, ou artesãos de rua, ou maluco da BR, ou bichos grilos etc., se vestem, o que eles usam, se as músicas que eles ouvem são boas, se eles são bonitos, se eles usam "drogas", se eles tomam banho, se eles passam creme hidratante no cabelo, se os trabalhos deles são bons, se eles são educados para abordar as pessoas ou se eles deviam ou não ser quem eles são, fazer o que eles fazem.
Mas algumas coisas ficam bem claras quando vemos esse vídeo. Vivo:
 A maldita máscara social que encobre o fascismo velado das pessoas que passam e não fazem nada pelo que está acontecendo, dessas roupas lindas que dizem quem é quem o que é o que quem deve ser respeitado quem deve ser fiscalizado quem deve ser massacrado quem deve ser calado.
A maldita máscara midiática da gente que vê e lê e compra e dá seu consciente e inconsciente de mão beijada pra esses manipulados manipuladores que nos dizem o que comprar de quem gostar o que vestir a quem beijar a quem amar a quem odiar o que pensar.
A maldita máscara legalista que se dá o direito de fazer o que quiser pelo bem de todos pelo bem dos tolos pelo bem do senso comum forjado pela segurança dos que pagam seu salário e que não é o povo mas quem controla o dinheiro do povo que não quer sair do oco encolhido em sua confortável casacascadeovo.
A maldita máscara opressora que pode roubar em nome da lei que pode dizer o que é e o que não é o braço do estado que não dá o mínimo para tantos que não se enquadram no jogo dos contentes para tantos que não querem nadar até o fundo do poço pra pegar a moedinha e subir no topo escroto dessa ridícula pirâmide social.
Se eu rogo pela destruição dessas e de tantas outras máscaras?
Não. Mas que ao menos usemos algumas com buracos nos olhos, mesmo que pequenos, para tentar acender alguma faísca nesse breu informativo, ideológico, cultural. Humano?
Pra quem sabe um dia ascendermos a fogueira da ação coletiva.
Sairmos desse curtoodiscurso.
Difícil acordar e depois de abrir os olhos, abrir os dentes num sorriso que não seja amarelo. Triste se deslumbrar com tanta beleza feita pelas mãos do mundo e pelas mãos e mentes do homem.
E parar pra pensar, e não saber, se vale a pena. Se vale a tinta. Se vale o sangue.

Canta, Mario Benedetti:
¿De qué se ríe?
(Seré curioso)

En una exacta
foto del diario
señor ministro
del imposible

vi en pleno gozo
y en plena euforia
y en plena risa
su rostro simple

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

de su ventana
se ve la playa
pero se ignoran
los cantegriles

tienen sus hijos
ojos de mando
pero otros tienen
mirada triste

aquí en la calle
suceden cosas
que ni siquiera
pueden decirse

los estudiantes
y los obreros
ponen los puntos
sobre las íes

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

usté conoce
mejor que nadie
la ley amarga
de estos países

ustedes duros
con nuestra gente
por qué con otros
son tan serviles

cómo traicionan
el patrimonio
mientras el gringo
nos cobra el triple

cómo traicionan
usté y los otros
los adulones
y los seniles

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

aquí en la calle
sus guardias matan
y los que mueren
son gente humilde

y los que quedan
llorando de rabia
seguro piensan
en el desquite

allá en la celda
sus hombres hacen
sufrir al hombre
y eso no sirve

después de todo
usté es el palo
mayor de un barco
que se va a pique

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe.

*Mario Benedetti foi um poeta, escritor e ensaísta Uruguaio. Escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Foi deportado, preso, exilado. Soube o peso da luvadeferro da soberana constitucionalidade, do militarismo, da uniformidade de roupa e pensamento. Ele viveu até ano passado, e não acharia graça desse vídeo:

 "criminalização do artista - Como se fabricam marginais em nosso país"


Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como PENICO. (Oscar Niemayer)


Higienização pra quem, cara pálida?


(Obrigado Jéss e Val pelas indicações)

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