Encerramento do Fórum de Integração Universitária UFLA - LESMA - Lucas F. L.

Antes do começo, um trecho que acabei de acabar e veio a calhar:

I told the super once that if he kept the garbage out on the street, perhaps the building would be less a home for vermin.
'What's vermin?' he wanted to know.
'Vermin', I told him, 'is rats and roaches and huge black bettles scrabbling at the base of the toilet when you turn on the light at night. Vermin is all the noises at night, all the clicking and scratching and scurrying through the darkness.' - Beth Nugent - City of boys

Olá você que, assim como nós, vez ou outra orbita em torno do umbigo larvense, face a face com o chão.

Devagar, como de praxe, mas em frente, saudamos o pessoal do curso de Letras e Filosofia e do DCE da UFLA, que  nos convidaram para apresentar um recital antes da palestra de encerramento do Fórum de Integração Universitária da UFLA.
Apesar de acidentes de percurso e mil contratempos, rolou um recital/sarau de umas meia hora, protagonizado principalmente pelo grupo LESMA, com seu misto de musicalidade, percussão, bom humor, delicadeza e força, exaltando as diversíssimas regiões das Minas Generais, dos Beatles e do Coração.
Cada um maior que o outro.
O recital teve ainda participação minha (Igor) e do Lucas, que mostrou sua prosa afiada de Sísifo, através de uma leitura sutil e intimista de sua escrita fotográfica (mas sem flash, sem photoshop, vez ou outra preto e branco, desfocada, de muitos planos) num momento que quebrou o gelo do palco - platéia, e levou a poesia para mais perto das pessoas. Um livro de poesia na gaveta, não adianta nada, lugar de poesia é na calçada.
Fora da prisão dos versos dos livros dos filhos da letra. E foi o que rolou. E rolou bem.
Poesia se prova com os olhos, mas também com o corpo, ouvido, tato. língua na Língua.

                              Lucas, Osmir, Patrícia, Igor e Wagner (Salão de convenções - UFLA)


Amostra grátis pra quem quiser provar com os olhos os versos do Lucas, que traz um pouco do velho Buk. Um Piva com suas asas de arcanjo radioativo cortadas.
 Hemingway versejando o cotidiano urbano do cerrado?

Ecos

Minha escrita é qualquer coisa
menos poesia
é a pura conversa fiada
não tem verdades
nem medidas
o típico papo furado
feita para descarte imediato

Sua composição
é pura maravalha
restos de um marceneiro cansado
velho, quase surdo
Que toca a vida
com seu rádio empoeirado
cheio de gambiarras
fios desencapados
de precária sintonia

É sintomaticamente feia
retirada de corpos doentes
semelhante a
apendicites
hérnias
vesículas
verrugas
e pequenos cânceres benignos

Não embala amantes
não incita a juventude
não provoca o estado
não inspira

Até poderia comercializá-la
como veneno para ratos
ou como soda para desentupir pias

Meus versos
valsam com o mal gosto.

                   
                 Lucas FL.
I

Sua Profissão não presta mais
quinze anos de enfermagem
tomando café com amputações
almoçando com a classe média inflando os seios 
e no jantar, provincianos apodrecendo 
escaras diabetes gangrenas recém-nascidos  

Passa a maioria das noites fumando
e escrevendo artigos
"A Saúde Pública e suas Mazelas"

Tem um lote de lâminas de bisturi vencidas de 1975
consome depressores
sonega impostos
maltrata prostitutas
  ____________________________________________

II

Relâmpagos trincam o céu ensanguentado
O velho cavalo no lote baldio 
_é isso...
Ele veste sua jaqueta jeans surrada
calça sua bota
e sai a procura da pior bocada da cidade

Abafada garoa
mãos nos bolsos
vapor homicida esvaindo pelas narinas
ruas de pedras

Na calada da madrugada 
debaixo de um pontilhão
um negro cruza o seu caminho
_____________________________________________

III

_Ei, você... não vai dizer "boa noite"?... _Disse Vlado.
_Tá maluco meu irmão, tu sabe com quem tá falando?! _O negro o encara.
_Não. 
_Não como viados! _O negro cospe com desprezo.
_Certo. 
_Ei, antes que eu esqueça...
_Que isso meu irmão!... abaixa essa arma aí! 
_Não precisa me agradecer!... _Vlado faz dois disparos.
_Aaahh! _ dois tiros cravados no tórax.
_Infeliz...
O enfermeiro de UTI acende outro cigarro e pega o caminho de casa.


Lucas FL.
 
Macaia

O carro 1.0 acelera pouco
procura alguma cidade miúda
debilitada pelo simplório
onde homens e mulheres sobrevivem
da pesca ilegal, da fritura de pequenas traíras
vendendo cerveja a três e cinquenta
para turistas pobres como você

Na estrada, alguns fenômenos pingados
um caroneiro cozinhando no asfalto
um caminhão impedindo sua passagem 
um andarilho em sua rotina: andar.
O vento: albina vazão...

Chegando no pequeno lugarejo 
A abatida Igreja a beira d'água”
com as portas fechadas
infestada de pombos na torre do relógio

Na margem da represa barrenta
languidez... 
Um crioulo de meia idade encostado numa monumental caminhonete
E ao seu lado
uma ninfeta amarela
sentada
abraçada com os joelhos
usando um micro biquíni vermelho
esvaziando uma lata de cerveja
e baforando seu cigarro mole

Lucas.F.L.
 Quem quiser saber mais do cronista da Grande Macaia de nossos tempos, vide:     http://prosadesisifo.blogspot.com
                                 Ponte de Macaia, construída sobre o rio Grande de 1959 a 1964

2 comentários:

  1. Valeu de coração,
    Gratificante pra carálio.

    Grande Abraço!

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  2. que isso rapaz!
    nós que agradecemos a abertura e parceria!
    este blog é fórum pra poesia boa, e a tua é ótima.
    pirei no poema de macaia!!!
    vlw, abração!

    ResponderExcluir

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