terça-feira, 31 de dezembro de 2019
sábado, 14 de dezembro de 2019
Domingo
I
Frutas orgânicas
No rótulo:
Geleia abissal
de bicho escasso
II
Taquaras cantam
na igreja a ciranda
da zagaia sem ponta
III
Meninos azucrinam a Buraqueira
repartem uma fruta do lobo
hóstia pagã
fiéis do terreno baldio
III
Meninos azucrinam a Buraqueira
repartem uma fruta do lobo
hóstia pagã
fiéis do terreno baldio
Raisa Faetti
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3. Revelando o filme (autores ascendentes),
4. Poesia,
Raisa Faetti
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
quinta-feira, 25 de julho de 2019
UMA HORA E MAIS OUTRA - Carlos Drummond de Andrade
Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assiste ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicólor,
a falta de amor,
a falta de amor,
A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácida
após o desgaste
de corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas a olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carne,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra dispersa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n'água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assiste ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicólor,
a falta de amor,
a falta de amor,
A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácida
após o desgaste
de corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas a olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carne,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra dispersa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n'água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
Van Gogh
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Drummond
quarta-feira, 3 de julho de 2019
O JOGRAL E A PROSTITUTA NEGRA farsa trágica - Décio Pignatari
Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.
A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.
É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter (ataúde e espelho) morres.
Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:
Tudo passa neste rio menos o rio.
Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu componha, recompondo:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das persianas. Gilhotinas
de luz
lapidam o teu dorso em rosa: tens um punho decepado e um seio bebendo
na sombra.
Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas.)
Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
"Há uma estátua afogada..." (Em câmara lenta! - disse).
"Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz(ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos."
Choremos por todos - soluços e entoandum
litúrgico impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicéio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.
Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo de retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
"Erótica", de Di Cavalcante
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.
A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.
É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter (ataúde e espelho) morres.
Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:
Tudo passa neste rio menos o rio.
Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu componha, recompondo:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das persianas. Gilhotinas
de luz
lapidam o teu dorso em rosa: tens um punho decepado e um seio bebendo
na sombra.
Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas.)
Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
"Há uma estátua afogada..." (Em câmara lenta! - disse).
"Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz(ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos."
Choremos por todos - soluços e entoandum
litúrgico impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicéio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.
Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo de retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
"Erótica", de Di Cavalcante
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
O vizinho ao lado acha estranho - Valéria Duarte
O vizinho do lado acha estranho
eu ouvir Sampaio
eu ouvir Raul
eu ouvir Santa Esmeralda
eu ouvir.
O vizinho do lado
acha estranho
eu correr atrás do gato
fazer polichinelo
às 22:00
o vizinho do lado
não sabe meu nome
nem o nome do meu filho
o vizinho é polícia
autoridade
o vizinho acha estranho
o incenso na cozinha
e quando Samuca, ri
parece rio
o vizinho acha estranho
Don't Let Me Be Misunderstoo
ele não conhece Presley
nem Costello
ele fez implante de cabelo
mas finjo que não vejo
o vizinho do lado pensa
que às 05:55 é muito cedo
pra esbórnia
pra se levantar
pra ouvir Sampaio
pra ração do gato
pra roupa no varal
pra descer com o lixo
pra pagar as contas
o vizinho não sabe
que saracoteio
ao fazer o jantar
que choro, ao ligar o chuveiro
que rio, ao abrir a geladeira
que controlo, nada
e nem faço questão.
o vizinho do lado não sabe
que abro as janelas
de madrugada
que transmuto
que respiro
que engulo
o clorana
que meu dia
tem 24 horas. e 10 minutos.
Amém.
eu ouvir Sampaio
eu ouvir Raul
eu ouvir Santa Esmeralda
eu ouvir.
O vizinho do lado
acha estranho
eu correr atrás do gato
fazer polichinelo
às 22:00
o vizinho do lado
não sabe meu nome
nem o nome do meu filho
o vizinho é polícia
autoridade
o vizinho acha estranho
o incenso na cozinha
e quando Samuca, ri
parece rio
o vizinho acha estranho
Don't Let Me Be Misunderstoo
ele não conhece Presley
nem Costello
ele fez implante de cabelo
mas finjo que não vejo
o vizinho do lado pensa
que às 05:55 é muito cedo
pra esbórnia
pra se levantar
pra ouvir Sampaio
pra ração do gato
pra roupa no varal
pra descer com o lixo
pra pagar as contas
o vizinho não sabe
que saracoteio
ao fazer o jantar
que choro, ao ligar o chuveiro
que rio, ao abrir a geladeira
que controlo, nada
e nem faço questão.
o vizinho do lado não sabe
que abro as janelas
de madrugada
que transmuto
que respiro
que engulo
o clorana
que meu dia
tem 24 horas. e 10 minutos.
Amém.
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Dois poemas de Amir Guilboa (Poeta Israelense)
tradução: Haroldo de Campos
Como se você andasse na neve. E você andou na neve.
E os ursos se ergueram contra você. Urso-Pai. Ursa-Mãe. Filhote
E você correu com todo o fôlego. Esteve a ponto de cair.
E a cada minuto o pavor de todo um milênio.
E agora você está aqui. Anos se passaram. Passaram.
Os belos ursos se foram. Se foram. Voltarão?
Esta noite no jardim truncaram-se ramos de pinheiro.
E as árvores verteram sangue e lágrimas.
As coisas são assim. Somos jovens.
E milhares de anos de memória.
Veja como as figuras - todas - se perfilam à janela
em fila. Nenhuma distante. Nenhuma próxima
(pic: desenho hiper-realista de Paul Lung)
nas trevas
se me apontam: pedra
e eu digo: pedra
eles dizem: pedra
se me apontam: árvore
e eu digo: árvore
eles dizem: árvore
mas se me apontam: sangue
e eu digo: sangue
eles dizem: tinta
se me apontam: sangue
e eu digo: sangue
eles dizem: t i n t a
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sábado, 31 de março de 2018
Conheça William Carlos Williams
*Tradução de José Paulo Paes
A uma velha pobre
mascando ameixas pela
rua um saco de papel
cheio delas na mão
Elas lhe parecem saborosas
Elas lhe parecem
saborosas. Elas
lhe parecem saborosas
A gente pode ver isso
pelo jeito dela
se concentrar na fruta
meio chupada
Satisfeita
um gosto de ameixas maduras
como que enchendo o ar
Elas lhe parecem saborosas
* * *
O lavrador
Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista
* * *
Nada ter feito
Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito
é feito de
nada
e o ditongo
eu
seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo
do verbo
auxiliar
ter
tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo
se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos
morais
físicos
e religiosos
pois tudo
e nada
são sinônimos
quando
a energia in vacuo
tem o poder
de confusão
que só
nada ter feito
pode fazer perfeito
A uma velha pobre
mascando ameixas pela
rua um saco de papel
cheio delas na mão
Elas lhe parecem saborosas
Elas lhe parecem
saborosas. Elas
lhe parecem saborosas
A gente pode ver isso
pelo jeito dela
se concentrar na fruta
meio chupada
Satisfeita
um gosto de ameixas maduras
como que enchendo o ar
Elas lhe parecem saborosas
* * *
O lavrador
Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista
* * *
Nada ter feito
Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito
é feito de
nada
e o ditongo
eu
seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo
do verbo
auxiliar
ter
tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo
se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos
morais
físicos
e religiosos
pois tudo
e nada
são sinônimos
quando
a energia in vacuo
tem o poder
de confusão
que só
nada ter feito
pode fazer perfeito
* cena de Paterson, filme de Jim Jarmusch
composto sob forte signo do poeta
William Carlos Williams
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domingo, 25 de março de 2018
Jandira - Murilo Mendes
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo.
(Às vezes o braço esquerdo desaraparecia no caos)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés.
Todas as partes do corpo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo de seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas
Não caía nem um fio.
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal da cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio dos tempos.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia da gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E, mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
Depois surgiram outras peças da criação
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo.
(Às vezes o braço esquerdo desaraparecia no caos)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés.
Todas as partes do corpo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo de seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas
Não caía nem um fio.
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal da cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio dos tempos.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia da gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E, mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Duração da poesia
Primeira idade
conversar com as plantas
sentir o cheiro do sol
comer a cor das centopeias com os olhos
ler conto de nada
Segunda idade
ver a matemática na calculadora
a alma penada no corpo
as pegadas de um semelhante
a escuridão do haver esgotado-se
Terceira idade
lanternas acessas solitárias
Asilo com velha jornada
a voz dos dicionários
o corte no ventre das palavras: parto
chorinho.
Clélio Souza
do Zine
A cara que eu dei pra porrada!
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Clélio Sousa
A impossibilidade de um pretexto
Sempre fingem saber quem eu sou, ou fingem que eu não sei quem são. O personagem de Marlon Brando fala isso em O Último Tango em Paris, o espetacular filme de Bernardo Bertolucci, filme vituperado pelas feministas contemporâneas. Penso que se as feministas do passado soubessem que as feministas de hoje alvejam sabotar filmes dos anos 1970, filmes do Woody Allen e livros do Nabokov elas ficariam nauseadas. E o pior, o meio intransigente de protestar, sempre mostrando os seios, como se fosse algo redentor sair por aí com as tetas para fora, "olha como sou empoderada". É isso que eu penso após acordar, olhando pro teto, como um Descarte pós-moderno.
Dou uma olhada ao redor, vejo meu alvo em cima da escrivaninha: meu maço de Marlboro. Levanto de supetão, abro o maço, vazio, filho da puta, por que eu não joguei essa porra no lixo?
É manhã de domingo, decido ir à banca comparar outro. Pego a carteira, o isqueiro, esnobo o celular. Moro no centro de Juiz de Fora. A primeira coisa que eu vejo ao sair de casa é um mendigo, há mendigos em todos os lugares, cagando, mijando, outro dia mesmo vi um se masturbando. Ele estava se masturbando em plena tarde, meio escondido, encolhido em num canto, estava de olhos fechados, não me lembro da última vez que me masturbei sem estar assistindo a um filme pornô. Inequivocamente, o mendigo é mais criativo que eu.
Meus passos são inseguros, não ando rápido, nem devagar, observo timidamente as pessoas que passam por mim. São tantos rostos, tantas pessoas, tantas histórias, tantas angústias. Com efeito, por que a prepotência é um defeito? Somos um em mais de sete bilhões, ninguém significa mais do que ninguém em escala cósmica. Empatia é realmente fascinante, um sentimento austero, não obstante, creio que se alguém for empático com sete bilhões de pessoas ou essa pessoa enlouquece, ou comete suicídio.
Escrever é tão banal. Penso aleatoriamente. Nem concordo com o que penso, apenas penso e escrevo o que penso.
Estão ansiosos, não consigo ter ideias novas e originais, eu ainda sou jovem, talvez essa não seja a hora de eu começar a escrever, vi tão pouco, amei tão pouco, senti tão pouco. É por isso que não escrevo com frequência e quando escrevo é pouco, é raso, é trivial. Tanto tema pertinente para s escrever sobre: o povo brasileiro vive um péssimo momento, nosso presidente é o Michel Temer; cresci numa casa de negros trabalhadores e nunca escrevi sobre eles; casos de feminicídio todos os dias no jornal. Tantas iniquidades, tanto sofrimento, tanta pobreza, tanta violência, eu deveria escrever sobre coisas importantes, histórias devastadoras sobre miséria, exploração do proletariado, sobre a infância de minha mãe. Mas eu escrevo sobre mim, sobre o patético, desinteressante e limitado eu indo comprar a porra de um maço de cigarros num domingo sem graça.
Enfim, chego à banca. Bom dia. Um Marlboro. Vermelho. Antes de sair dou uma olhada nos quadrinhos, antigamente eu gostava de quadrinhos. Mas meu senso crítico os transcendeu. Leio Hilda Hilst, leio Dostoiévski, leio Mishima, leio Duras, assisto Angelopoulos, assisto Tarkovsky, assisto Hong Sang-Soo, assisto Apichatpong Weerasethakul, histórias em quadrinhos são uma ofensa ao meu intelecto. Me reconheço, sou um merdinha arrogante, ligeiramente intelectual, um pouquinho culto. Critico quadrinhos, mas li Daytripper há praticamente um ano e achei absurdamente bom, foi a primeira vez que reconheci quadrinho como arte. Já tinha lido Alan Moore e Art Spiegelman, porém nada comparado à Daytripper.
Eu, particulamente, não compraria um livro de um escritor - muito menos poeta - que nasceu em 1997, porque já existem tantos livros e tão pouco tempo para lê-los. Essa é apenas uma das minhas hipocrisias: nasci em 1997, quero publicar livros, mas é provável que eu jamais compre um livro de um escritor - muito menos poeta - que nasceu em 1997.
Saio da banca, rasgo o plástico do maço, pego um cigarro, tento acender, mas meu isqueiro falha. Toma aqui. Um hippie no parque Halfeld me oferece um isqueiro. Aceito. Acendo. Amigo, me dá um cigarro. Claro.
Pedro Henrique
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