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sábado, 10 de julho de 2021

"Do horizonte eu gosto da grandeza"

    

 

 

Eu gosto do caminho.

Do cheiro da terra
Da chuva
Da brisa que bate
E arrepia as manhãs.
No verão ver o dia nascer
No outono a lua apontar
laranja.

ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto do gosto.
Dos contrastes
Do limãoㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E do afeto.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhos que sorriem
De gente simples
De casa aberta.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De gente que fala o que sente
E senteㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Transparente.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de abraços que apertam
E mãos que soltam.
De melodias que embalam
E trilhas que expandem.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Do horizonte eu gosto da grandezaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De me reconhecer pequena
Apenas póㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Poeira.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhar o presente
Presente.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de gente que está
De gente que vaiㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Que caminhaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E quase como uma miragem
Cruza nosso caminho.
Eu gosto do caminho.


Yvye Prado






sábado, 13 de junho de 2020

Pó ética + gif poema

Ir go pra quem não sabe, além de um anagrama do meu nome, é um pleonasmo bilíngue, tipo "short curto", o que não quer dizer absolutamente nada.
Pra quem acha que trocadilho não é matéria pra poema, fique à vontade ou com vontade aí no seu vanguardismo marginal, sua alta filosofia ou seu super intelecto supracadêmico, querendo dizer absolutamente tudo.
Enquanto vocês se importam demais na lucidez da crítica. Eu me exporto mais na ludicidade da vida.
Como quem curte um som, fazendo malabarismos com vibrações acústicas, arte também chamada de música.
A vocês, todas as honrarias e profundidades da eternidade artística.
Eu fico de boa na efemeridade da superfície ávida e vívida.

Prefiro
ferir
rir
ir
i
!
Sempre
a palavra poderá ser quebrada
Pá e lavra
que brada
nas lavras do dia ah dia
Talvez eu encontre
um bruto diamante
ou quem sabe, a brutal:

p o e s i a

{ ir go }





diOli

terça-feira, 26 de maio de 2020

"Se doer coloque gelo"

Se doer coloque gelo
E um filtro no cabelo.
Sente-se ereta
Às 14.00 quando
O sol der as caras
Pela rede da janela
Mostre a barriga
Sintetize
Seja liquido
Passe o sol nas axilas
Deixe a virilha exposta
Não tem vizinho
Tome um taça de vinho
Ouça canções bregas
Ou o tipo que você gosta
O tempo está frio
O dia nunca esteve
Tão azul
Mistura as estações
Faça café
Molho de pimenta no pão
Frite o ovo
Lave o edredom
Use Vick
Use meias desiguais
Cuidado com o açúcar!
Isso marca sua cara
Envelhece; não de forma legal
Passe batom, ou cacau
Nívea creme
E sonrisal.
Desodorante corporal
Pouco sal.
Enfim.
She's going.



Valéria Duarte

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O leão íntimo


Quando chegou, ainda era um filhote e podia facilmente ser confundido com um urso de pelúcia. Porém guardávamos certa distância dele e por mais que parecesse inofensivo, ninguém tentava tocá-lo. Admirávamo-lo de longe, dizendo “que leão mais bonitinho”, enquanto ele mordia um pneu velho ou rasgava pedaços de papelão com suas garras pequeninas. Tinha um pelo cinzento e felpudo e seus olhos eram sempre frios e num certo sentido calculistas. Durante os primeiros anos dificilmente o víamos rugir. Às vezes, quando tinha fome ou se sentia enfadado, abria a boca e rosnava de um jeito dócil e ameaçador ao mesmo tempo. Quando comia também rosnava, abraçado a grandes pedaços de carne com uma fúria contida.
Alojamo-lo no pátio interno da casa, onde podíamos sempre vê-lo. Quando não estava dormindo, passeava pelo pátio, forçando as grades e raspando o chão com os dentes. A cada dia
parecia estar mais forte. No segundo mês, seu pelo havia se tornado mais amarelado, já adquirindo a cor que viria a ter por toda a vida. Quando mais o tempo passava, mais a distância entre ele e nós crescia. O que a princípio julgávamos medo deu lugar a uma grande fúria de qualquer um que dele se aproximasse. Com três meses era já um leão maduro e assustador, com um juba imensa e dentes enormes.
Meu pai acreditava que podíamos domesticá-lo mudando sua alimentação e através de uma convivência mais próxima com seres humanos. Mas logo percebemos que havia algo nele que nós não conseguiríamos mudar. Certo dia em que andávamos a passear comeu o cachorro da minha mãe. Quando ela viu a calda do Lulu presa nos dentes do leão, criou um ódio mortal pela besta (como ela passou a chamar o leão) e gritou para meu pai que seria necessário sacrificá-lo imediatamente. Meu pai porém foi absolutamente contra, dizendo que isso seria um crime. Minha mãe argumentou que então o levasse de volta para a África ou o doasse para um zoológico ou que o mandasse para o inferno. Mas meu pai, sem aceitar qualquer argumento razoável, disse que isso estava fora de cogitação, e enfatizou que nunca mais voltaria à África.
Meu pai sabia que dentro de dois ou três anos ele estaria com um porte muito maior e que seria impossível domesticá-lo, com seus instintos de caça já praticamente formados. Qualquer descuido e um de nós poderia ser sua vítima. Seria necessário estar sempre reforçando as grades do pátio interno para que ele não entrasse em casa. Minha mãe sugeriu que instalássemos uma câmera no pátio e o monitorássemos ininterruptamente. Após o incidente com a poodle, meu pai resolveu construir um muro muito mais alto que cercasse o fundo do pátio interno, pois esta parte dava para a rua, e assim nenhum outro bicho poderia entrar lá e o leão ficaria completamente isolado.
O leão suportava a tudo com grande indiferença. Parecia mesmo que não se importava com o que fizessem dele e que nossa existência lhe era completamente indiferente. Quando às vezes nos olhava, era com um profundo desprezo, como se não passássemos de empregados responsáveis por alimentá-lo, o que de fato éramos. Não sei porque nesse instante comecei a pensar no leão como um ser diferente. Comecei a sentir por ele uma espécie de afeição e companheirismo. Senti toda sua dor em permanecer preso durante todo dia naquele minúsculo lugar, um caixa ridícula comparada às planícies das savanas africanas onde podia percorrer livremente, alcançar seu alimento e reinar impávido.
Quando atingiu a idade de 2 anos, o Leão estava completamente desenvolvido. Media quase um metro de altura e sua juba era digna de uma realeza. Os pneus que jogávamos para que se distraísse mordendo se amontoavam num canto do muro, onde às vezes ele ia se deitar. Minha mãe simplesmente ignorava-o completamente, e por causa disso nunca o deixávamos sozinho com ela, pois sabíamos que ele acabaria morrendo de fome. Ele lutava por seu espaço e estava disposto a matar ou morrer por ele, mal nos aproximávamos das grades bem reforçadas do pátio. A impressão que se tinha é que se alguém entrasse ali e saísse com  vida ia ter desejado pelo resto da vida nunca ter entrado.
Apesar de todos os alertas que já haviam sido feitos sobre a atenção que era necessário ter quanto a porta que separava o pátio da casa, certo dia alguém a deixou aberta. Apenas depois pensamos na possibilidade de o próprio leão haver forçado o portão. Assim que o vi passar pela porta, tive tempo para alertar a todos a saírem da casa, porém ele conseguiu me alcançar. Lambeu minha mão e não tive como deixar de acompanhá-lo ao pátio interno.


Felipe Fernandes

terça-feira, 19 de maio de 2020

Dias de Pentecostes

Chegando o dia de Pentecoste,

chega o dia hoje, chega o dia ontem, chega o dia amanhã, nas ruas chega o dia, nas praças chega o dia, no meio do boteco, chega os dias como chegam os dias de menstruação e da morte, chega os dias nas padarias e supermercados, chega o dia fora do mercado, chega o dia na sarjeta dos bolsos, chega o dia depois de alguns nojos, chega o dia na capital do Espírito Santo, chega o dia em jardim América, Cariacica e Vilha Velha, chegando o dia de tantos, chegando o dia de pentecoste

estavam todos reunidos num só lugar.

estavam todos atoas e sincer0s num só espírito, estavam todos trabalhando num mesmo espírito. estavam as mulheres, os estrangeiros, os pobres, os príncipes convidados e os cavalos dos príncipes, estavam as pedras dos montes e a sujeira dos pés dos viajantes, estavam os doentes, palestinos, israelitas, estavam os empresários, os empregados, os desempregados, estavam os forasteiros e os brasileiros, estavam os negros, os pobres, os brancos, os mestiços, os latinos e os americanos, estavam as crianças e as brincadeiras de crianças, estavam os ladrões gente de bem gente ladrões bem, estavam os crentes e os curiosos, os interesseiros e os famigerados políticos, estavam os ausentes e os preenchidos, as anônimos e os estranhos, estavam os discípulos de Jesus e as testemunhas de Jeová, estavam todos num só lugar

De repente veio do céu um som,

De repente veio do céu uma bomba, veio do céu uma guerra, veio do céu uma união e uma separação, veio do céu as aves migratórias, veio do céu uma canção divina, veio do céu um anjo em forma de demônio, veio do céu a expulsão, veio do céu um filho, veio do céu o sentimento do trovão, veio do céu uma agitação, veio do céu o apocalypse e a voz de Deus criando o mundo, veio do céu uma banda de instrumentos tocando funk, ópera e heavy metal, outros estilos, veio do céu uma afinação, veio do céu um som

como de um vento muito forte,


como de um sopro de vida, como de uma respiração boca-boca, comode um beijo virgem de Cristo, como de uma brisa forte para empinar pipa, como de um ciclone a quebrar as praias e as cidades, como uma mãe em maremoto, como um ventilador de parede ao extremo, como de vidas voadas, como de uma tempestade de verão, como de um secador de cabelos, como de uma balão estourando, como de um furação, como de um vento muito forte

e encheu toda a casa na qual estavam assentados.

no qual estavam descansados, no qual estavam dormindo, no qual estavam comodismo, no qual estavam em posição de agachados, no qual estavam intactos, no qual estavam inoperantes, no qual estavam budistas e islâmitando, no qual estavam prostados como pedras, no qual estavam abandonados sobre si mesmo, no qual estavam imóveis, no qual estavam estavam prespreocupados, e encheu toda a casa no qual estavam assentados

E viram o que parecia línguas de fogo,

o que parecia línguas de enxofre, o que parecia a boca de fogão acesa, o que parecia o idioma dos oprimidos e dos oprimentes, o que parecia setas queimando no ar, o que pareciam bambolês azuis e amarelos, o que parecia a íngua que dá nos humanos, o que parecia um pedaço de pano rasgando-se, o que parecia a visão dos varões nas assembléias de Deus, o que parecia o surrealismo de Dali e o inferno de Dante, o que parecia uma obra barroca derretendo-se, o que parecia a dominação do vermelho, e viram o que parecia línguas de fogo

que se separaram e pousaram sobre cada um deles.

Os pentecostes El Greco
e cada um deles. e pousaram como pássaros que encontram refugio, e pousaram como quem pula de para-quedas, e pousaram como quem não tem casa e descansa nas favelas, e pousaram como uma folha quando cai da arvore, e pousaram sobre cada cabeça abaixada e levantada, e pousaram sobre as costas dos que já não se levantam, e pousaram sobre os que não eram concursados, e pousaram sobre os que eram santos e pecadores, e pousaram sobre os viúvos e recém-casados e pousaram sobre os solteiros e os despreparados, e pousaram sobre os menos atraentes, gordos, estranhos, fora dos padrões de sansão, e pousaram sobre os que eram diversos e vários, sobre os que estavam distante de Deus e sobre os que deixaram de assistir o programa do Silas Malafaia, pousaram sobre os gringos, pousaram sobre cada um do gueto, da periferia, do medo, pousaram 

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava.

 And they were all filled with the Holy Ghost, and began to speak with other tongues, as the Spirit gave them utterance. 

Y fueron todos llenos del Espíritu Santo, y comenzaron a hablar en otras lenguas, como el Espíritu Santo les daba que hablasen.

(Atos 2: 1-4)

Clélio Souza



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Sou um com o mundo

Sou um com o mundo,
Isto é, também jazo
em leitos ignorantes
tal e qual os pensamentos
ao meu redor
Jazem de ignorância.

Quero morrer na noite
Quando tudo virar pizza,
Ou picanha na brasa.
Essa eu quero mal passada,
sempre.

E agora o aguardado momento:
De ver o pau cair as folhas,
tudo em questão de segundos.
amargo sorriso de língua

Pode ser C.P.I
Churrasqueira acesa 
Pipoca no microondas
Na manteiga tudo desliza
Fácil até demais.

Não me importam 
Esses engravatados
Desde que me sirvam, tudo bem.

Eduardo Guimarães


                                                      Foto: Vinicius Tobias

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

de tempos em tempos as mulheres perdem as mãos

de tempos em tempos as mulheres perdem as mãos
o que não quer dizer que elas não continuam escavando até que as mãos
voltem
rodando um mundo e meio pra trocar a pele do corpo todo
nos dias em que você acorda de madrugada são os mesmos dias em que as
ondas desdobram sua força expulsando as cabeças pra fora
até mesmo o mar fica a sós com suas criaturas
todos já fazem suas apostas para a nova década
veja só, já se passara mais uma e sabe-se lá o quanto as pessoas entenderam 
o significado de...
você por acaso percebe que o amor se derrama como os oceanos sobre o mundo
a menina Ana canta sobre ele desde que canta nas minhas caixas de som
é janeiro e agora já chove todos os dias com hora marcada na cidade
o homem com testa marcada de teorias diria que isso é só o começo
as crianças que agora margeiam a orla da terra crescem com os olhos do avesso
desvendando o silêncio das árvores
o pequeno grande Artur com as mãos cintilantes de esperança e genialidade
sustentando-se sobre um par de inquietos
eu ainda surpresa com o desdobramento das coisas
parece que passou meia dúzia de anos desde que cheguei aqui
de você sentado a pouco mais de três palmos de distância de mim
e agora te vejo com intervalos menores que doze horas
do outro lado do oceano a Austrália também ardendo em chamas
eles lançando mísseis com a mesma facilidade que um garoto atira pedras
com um estilingue ao vento
enquanto isso ora o tempo amacia ora chicoteia as palavras cravadas nas 
línguas de toda a gente
isso diz mais de silêncio do que qualquer outra coisa que pareça
do tempo que passamos submersas na solitude
mergulhando, ruindo pra só depois retornar ás ondas rasas na superfície
até o dia de voltar ao fundo de novo
roer as unhas não tem a mesma função que entrar nas próprias águas
é preciso mais que o fôlego de uma foca
pra passar tanto tempo debaixo d'agua
e voltar viva

MARCELA MELO


(Foto do Luciano Candisani de uma das
mergulhadas do mar de Jeju (Coreia do Sul)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

descascar as asas dos besouros, descascar cebolas, descascar sua coluna vértebra por vértebra

porque descascar as asas dos besouros
& depois andar de bicicleta
quando os dias são tão longos e cansados?
para quê morrer afinal?
há um bar aberto
ao lado dos vendedores ambulantes
onde tião vende legumes
& sorri sem dentes


***


estou cansado de descascar cebolas

pagar contas
& usar camisinha para vaginas frágeis.
a civilidade é epidêmica.
tenho é gosto pelo pézinho torto,
por suas espinhas
& pele temperada de suor


***


quero remediar essa tristeza

descascar sua coluna vértebra por
vértebra & passar pomada
lixar seus pés
polir suas retinas
e desentupir seu intestino a base de algodão


Poemas de Guilherme Paiffer Pelodan




Di Cavalcanti

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

"Na solidão daquela praça de periferia"

Ela olhou pra ele
Na solidão daquela praça de periferia.
Reparou nas lentes grossas do óculos, fora de moda.
Na gola da camisa, no pomo de Adão.
Nas mãos.
Os paralelepípedos como um quebra-cabeça.
Não sabia mais das regras de concordância.
Se as palavras agora eram definidas pela falta de hífen. Ou hímem.
Palavras continuam virgens, por mais que você as penetre, as masturbe, as mastigue.
Na fluidez do momento, queria que ele contasse suas sardas, como se fosse uma história, de ontem.
Mas, continuava quieta.
Faltava um botão na camisa de cambraia.
As coisas que desviam nossa atenção.
Levantou os cabelos pro beijo do vento; um convite, um mundo de sugestões.
Palato, céu da boca, cometas.
Baixo ventre, Baixo Guandu, Baixo Leblon.
E toda Mata Atlântica.
Em sua mente, já não havia poesia.
Periférica, sua visão.
E o barulho do mar.

Barulhos de Agosto.


Valéria Duarte

sábado, 14 de dezembro de 2019

Domingo





I

Frutas orgânicas
No rótulo:
Geleia abissal
de bicho escasso
II

Taquaras cantam
na igreja a ciranda
da zagaia sem ponta

III

Meninos azucrinam a Buraqueira
repartem uma fruta do lobo
hóstia pagã
fiéis do terreno baldio


Raisa Faetti                                       



sábado, 14 de novembro de 2015

O fluxo gaudinesco de Lucas Alvim

lagarto - Gaudí

Uma chuva de penas
coçam orlas de cimento.
Seu frio brilha confortável.
Iluminação nublada
que imunda

sentada gárgula
com olhos de baga.



O abismo não a assusta
grinalda decaída e branca.

A química está envelhecida.

Os ventos não a removem
as cúpulas estão abençoadas
verduras que nada significam.
E não fazendo sentido
ela o cose
enquanto desconversa.

A olho sobre a madeira
de minhas orelhas.
Imaginado o humor das formas
trespassado de sua presença.
De como eram jovens.
De como as noites se desnumeravam.

E ela não se vá.
Entorpecida de sobriedade,
não há nada para o que sentir hoje.
A parafina de minha razão
não se derrete 
se reconstitui bordado
por uma manhã fria.
Uma manhã que não é minha.

lagarto - Gaudí
Químicas musculares
molham relâmpagos
nos sérreos ombros

em que repousam
queixos sentinelas.



Aqui olho gatilho,
quilômetros linguístico

sexo que percorri

na sola estrada
de terra acordada.

Procuro serrado
meus ossos expostos.
Na claridade de não saber,
não sou capaz
de me lembrar da necessidade 
da queda de sombras.

Estou solto do bolso
em animais verdes
nas manchas de nuvens solares.
Ficarei sentado
entre cemiteriais
árvores férreas
e sua pedras vivas
em ornamentos.

Como lagarto humano,
enterro deserto
o dia que se decanta
e primavero
a noite
que se redemoinha
broto branco.

Inseto, guarda-chuvo
minhas pernas cruzadas
na dança relógia
de quinas sem ângulos
e esferas friáveis.

lagarto - Gaudí
Galhos olhos perfuram o doce ventre ar.
Poupo sua essência em ombros ramos.
Pousam em mim pássaras luzes.
Lacrimejantes estrelas da cidade.
Afundo até as costas

Recife de quadrados lógicos.
Longe dos rebanhos do sol.

Não conheço o cansaço.
me foi vendido somente o soterramento
de nossos lazeres.
Entre pinturas de nossos tijolos
a centésima luxuria de meu coração negro
morre em sais expostos ao sol.
De minha felicidade
só tenho sua inorgânica arcaria dentária.
E por um minuto
destruiria todos para brincar com seus cadáveres.
Crente de que nada me faltará.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

ATenda - Clélio Souza


"Rumino fino. Lã de gravidez das aves. Corpo maciço das metáforas. Linha na
 Retina do Poema de Segunda. Prosa dos Monstros Alados com Sísifo.
Mediações de Vinícius: entre Tombos e Tobias. Na carcaça Teodoro: o comício* 
de outro tudo e por fim, Ir go."

(A primeira impressão é a que finca.)

Maços de poesia por todos os lados,
quem foi que tirou a vergonha sintática
desses bichos palavreais alados?

Bambus estendidos ao tronco da noite apanham pessoas,
são palavras que alcançam o buraco do raso.
Um modo de brincar no fundo do poço.

O preço é de pirata que afunda o mar dentro de um barco.
por 3 você leva, por 2 você trás. 10 ou 5 tô tais.
____________________________ Há zines pra todos os Pratos.



(I Virada Cultural de Lavras)
Dias 27 e 28 de Junho de 2015.
Mais Informações:
https://www.facebook.com/viradaculturallavras?ref=ts&fref=ts

terça-feira, 27 de maio de 2014

Cancioneiro de Ijaci - Vinicius Tobias

dá-te o destro se canhoto for
mantém a faixa dos 60
"essa estrada está mal sinalizada"
"Quer saber, respondi,
                toma meu egoísmo
                minha inveja
              doma meus monstros
vou vomitá-los todos aqui
                                   [no tapete do seu carro

Comi um belo mexido


meus pais (graciosos) foram ao teatro essa noite

depois de rir do stand-up na TV papai ficou sério e disse:

-Lembra daquela noite que quando foste dormir

acordei eu para insônia?
               Ouvi trovões a noite inteira
               mas não eram trovões
               um geólogo veio
               deu um nome
                           "A grande racha de Ijaci"

                                           talvez


Muitos trovões e arrepios.


Li uns capítulos

Totens legendários cantaram toda a Austrália  
e lhe concederam existência na época do sonho
estremeço, caminho muito nos sonhos, vou aos mesmos lugares
                                                              [e os refaço
"Será que vim pra ver todo esse falso caminho ruir?
                                                              -pra cantar isso?"

Mais trovões


"E se tudo desaparecer junto com meu corpo

                                                                          [nos destroços?'

Às 03h começou a chover.





*pic: Pintura  Aborígene
Tela "Ngalyipi Jukurrpa" de Liddy Napanangka Walker



Raio de Sol

Tem de amarrar as pernas e os braços
Suplicar aos tecidos e aos escarros
O dia mata qualquer resquício de poema
A questão de fato é, se dentro,
                                    [há problema

Disto não se distingue a diminuta
Doutrina de sempre reforçar as próprias leis
Por mais que saiba o motivo dessas eras concretas
Não quero mais o peso de conservar qualquer inimigo

Tenho de pensar melhor antes de dizer que
        não há ninguém que não tenha perdoado
Mas se não fiz isso garanto que sigo errado
Só quero me livrar do que agita o coração

Sonhos e projetos pegajosos
    -As maneiras mais distintas e necessárias ao próximo gozo
O vício de dizer convincente que quem ofende está errado

Veja qual é a situação
Num jardim, a flor
Só vejo meus fantasmas obcecados

Mas hoje não há a possibilidade do errado.
Não quero nada que não seja pré-determinado
Pego o carro, vou comprar água e vassoura piaçava

Solzinho bom nessa Ijaci em outono muito cinzento
A alegria cresce em alento
Não por estar tudo como pretendia
Mas por não me importar com isso na primeira hora do meu dia

Ijaci é bela e não é bela também
Há um ranço que dói, uma desconfiança, um rancor
                                                [expressa enquanto se pesa o Acém
Que se agarra (moída) com tentáculos na canela

No desvio do olhar que é uma oração:
 "Senhor, permite
                                 que ele não sabe
                                                               que sei
                                                                            que ele existe"

Eu lembro de minha avó sorrindo
de cima da sua sabedoria
louvando a Jesus.

Lembro do sermão reconfortador do pastor
em seu velório.
Lembro de qualquer sorriso sem contextualização
Vejo aquele rapaz, antes agressivo, agora gentil
Seu irmão, antes amargurado
Agora com amor no coração ensinado a outros
                                                                   [o caminho da salvação

Pago e esqueço de pegar o que fui pegar no super-mercado
       (fiquei um pouco melhor quando os afogados boiaram
         pude subir um pouco, para uma densidade
         que dá pra um sol bater de vez em quando)
Agradeço, digo bom dia, sorrio
forçado?
Recebo um grunhido como retribuição
Ele serve de mote para essa canção:

"Nem o mais hostil e agressivo ódio
dentro de cada ser que se debate
pode ofuscar no individuo
Aquilo que jamais se dividiu
; nem a veemência expressa neles da Verdade"
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