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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Os Fernandes: como um deus despedaçado que renasce numa flor

Às vezes se vai dormir e um sino toca (ou o Gustavo Lima no vizinho), a imagem de um santo triste (ou o Jô na TV), a aridez da cruz, ou o escuro mesmo (e seus fantasmas) nos encara.
Para alguns, a (quase) convicção de que deus não existe, e que devemos levar isso até as últimas consequências. Nada. Nem aqueles bonitões da Grécia, nem os naturebas Célticos, nem os sedentos por sangue Astecas. Se bobear, nem o Lula, o Reuni e o Bolsa Família. Nem Marx. Se pá, nem a grana, meu camarada. Corre atrás não pra ver.

E é aí que tá uma grande questão pra você, desamparado até pela divina cultura de massa que de rodízio em rodízio já não desce no seu estômago. Não. Não quer nem se vestir de preto mais, berrar a sua revolta com o mundo, nem se adequar, nem entrar na fila e financiar uma imagem no banco?

Tudo bem: daí vem uma fila de clichês, desde o universiotário cult bacaninha que adora agitações culturais, até o comunista que almeja entre uma maconha e outra, lutar com os movimentos sociais em prol dum mundo melhor pra todos, e que morram os burgueses, passando pelo médicoengenheiroadvogado que só quer fazer a sua e dançar a dança da vez, com seu open bar e namorada bonita. E dá pra nadar no mar do consumir consumir consumir sumir ir. Que possivelmente é o mais fácil que tem por aí. E postar tudo no facebook, claro, que ninguém conversa por cima do muro mais.

É tanta coisa que cansa. É tanta coisa. É tanta. É.

O novo não nos choca mais. Nada de novo sob o sol. O que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo.

Ainda resta, claro, os antidepressivos, a bebida, a droga, o amor, o mundo pra conhecer e as grandes obras da humanidade. E uma ou outra pessoa legal pra gente se iludir.

Felizmente, no mar do mesmo de sempre, vez ou outra aparece algo que te faz olhar pra frente, algo diferente, algo consistente. Que te faz lembrar de quando você lê aquele grande livro da sua vida, ou quando você ainda tinha saco pra adorar algum artista, na falta de deus, ou adorar alguma namorada, na falta dum artista, ou adorar uma bebida, na falta de uma namorada. Tipo dar um tapa nas costas da vida.

Felizmente, tive o prazer de con viver, ouvir e assistir Os Fernandes, e sentir que aquela coisa, que faz a gente pensar que vale a pena, mesmo assim. Que isso não é masturbação. Não é feito com a cabeça, nem com o umbigo. É feito com riso, e calo na mão.

Apesar de todo o mito falido, taí de novo, o verbo e a criação.

Foi engraçado olhar, em cada apresentação deles, num coreto de praça em Campanha, depois da missa, chovendo, e ver chegar um bando de menininhas do grupo de jovens católicos berrando o “Baião do LSD”, ou a academia de letras de Caxambú olhando os malabares e o som circense na praça e pensando  sem pensar : “meu deus, por quê me abandonastes?”, ou numa baladinha universitária qualquer, com todo mundo bêbado e ouvindo que “não acredito num deus que não saiba dançar”.

No frio louco de Barbacena, entre as pedras de São João, berros buscam voz.
Algo como os mamonas querendo falar (assassinar a) poesia.

Contra expectativas, no meio da serrania uma lesma sobe as ladeiras de Ouro Preto.
Resta saber se o tempo e o esquecimento hão de esmagá-la antes do topo.
Ou se a sorte (e o braço) hão de criar caminhos, no meio do rodamoinho.

Boa sorte, amigos.


Ainda assim, cantem, como se fosse verdade – a esperança.




A poesia foi fotografada pelada!

Pelada!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Satélites do Kaos com K - Jorge Mautner

Antenas

O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Lider antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdadeira lista
De impotãncia
Na sociedade da suprema ãnsia
Da ganância e extravagãncia
E o terrivel já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassesz
Se vê, não vê?
E que de antevê
e te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler






Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)



*Super-Homem é um Cristo só que mais transcendental
(a lá jorge Mautner)


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Grupo LESMA lança seu segundo CD Árvore da Vida



Imagem da capa do CD com desenho de Carolina Nogueira


“E o Senhor colocou, ao oriente do jardim do Éden, querubins armados com uma espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida”.
(Gênesis 3:24)


Depois de 5 anos o Grupo Lesma lança seu segundo CD. Intitulado “Árvore da Vida”, a obra tem enfoque ambiental e reúne poemas e músicas autorais. O CD foi gravado no estúdio SELF, em Lafaiete, entre os meses de julho e setembro e o lançamento está marcado para o dia 30 deste mês no Sallum, em Lafaiete, dentro da programação do Setembro Verde, realizado pela Lesma.
Vários artistas convergiram energia e criatividade em torno da proposta. A direção musical é do competente compositor Wilson Ribeiro, o “Ziquinha”. Leo Fernandes assina a direção de áudio. Os poetas participantes são Osmir Camilo, Patrícia Fonseca e Wagner Vieira. O músico Gastão Mandredinni, da banda Lord Zéfiro, de Queluzito, também participa do projeto. Os músicos convidados são Julinho do Sax, Márcio Zaum e Sandro Leyloy.
Um livro contendo as letras e os poemas, acompanha o CD, que conta com desenhos da artista plástica Carolina Nogueira e fotos de Jonathan Manassés. Marco Aurélio Lopes Correia assina a diagramação.
Conselheiro
Em 2006 o Lesma lançou seu primeiro trabalho sonoro, o CD “Conselheiro”. De lá para cá a produção editorial da entidade chega a 11 títulos, com destaque para os livros “O Amor Visto da Ponte”, de Wagner Vieira, Patrícia Fonseca e Osmir Camilo; “Lafayette Rodrigues Pereira, um ilustre queluzense”, de Allex Milagre (1971-2009) e “De Villa Real de Queluz a Conselheiro Lafaiete”, do museólogo Antônio Perdigão (1918-2010).
Serviço



O que: CD Árvore da Vida
Quando: 30 de setembro de 2011
Onde: Bar Sallum (r. Coronel Arthur Nascimento, nº 105, Centro, Conselheiro Lafaiete)

Contatos: (31) 8584-5056 / 8591-1622

E-mail: abrilpoetico@yahoo.com.br

Leonardo, Osmir e Wilson (em pé); Gastão, Wagner e Patrícia (sentados)




UM POEMA DO CD

Árvore da vida

1
Árvores da vida são aquelas cujos
galhos são capazes de ampliar (bem)
fronteiras em searas reluzentes
e gongóricas.
Árvore da vida. Única.
vocação solitária pelo consorte do eixo oriental
Tu és mater (mãe). Athos flexível.

2
Ó árvore flexível, seminal das horas
Pantera postergada no embrião das almas
Conduz pela ardência dos corpos indefesos
A côrte ostensiva aos pêlos agrupados.

Purificai! Purificai! Purificai!

Conselheiro Queliname: iara
Queliname Conselheiro: jaguara
Trazendo luz pacífica ao parque dos sinais
fazendo diapasão com foros ancestrais.

3
Árvore da vida. Árvore da vida.
Árvore dá vida. Árvore dá vida.
Inteiramente grátis.

vendo-me vendo-me vendo-me

Escuto teu nome em voz
escuta a minha
Escuta meu pedido em off
Vontade sua. desejo meu. bondade sua.

4
São pomares, hortas silvestres,
animais domésticos.

Um pomar. Único.
Saibamos antes que o pomar dos sonhos
ainda está verde, verdejante.
Caindo de maduro no céu com diamantes.
Trançando estrelas no véu das ilusões.
As ilusões.

Poema: Osmir Camilo

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

¿Qué pasaría si la noche impone su gobierno de oscuridad a las estrellas?

Recusa

Agrada-me bem mais
olhar estrelas
do que assinar sentenças
de morte.
Agrada-me bem mais
ouvir a voz das flores
que, murmurando é ele,
meneiam as corolas
quando eu cruzo o jardim
do que ver os escuros
fuzis da guarda
matarem quantos querem
matar-me –
por isso eu não serei
– jamais – um governante.

Velimir Khliebnikov


Hoy haz despertado del sueño de la pacividad
Esto no te gusta y lo tienes ke kambiar
La miseria del sistema
La injusticia del sistema

Seremos ingobernables , seremos ingobernables

Cuelga sabotaje manifestacion
Las palabras son importantes pero lo es tambien la accion
Estudiar y lucha siempre apartes por igual
Piensa friamente kuando tengas que actuar

Seremos ingobernables , seremos ingobernables

Tu inteligencia es el arma mas valiosa
Tu energia kontra el estado de las kosas

Seremos ingobernables , seremos ingobernables

Sin Dios

Pelo direito à educação pública de qualidade

Contra a falsa democracia fascista, controlada e corrupta

Caminhamos

de

olho
e
mãos
na
estrela
do

amanhã

Link para o brilhante texto "Os professores não usam black tie" de Luiz Felipe Martins Candido, sobre o movimento grevista em prol da valorização da educação em Minas Gerais.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Saltos do Samurai Malandro ou Chuvas do Cachorro Louco ou o Bandido que Sabia Latim

O Brasil tem muitas coisas, apesar de tudo. Tem um extenso território, apesar de tudo. Fala só uma língua, apesar de tudo. Tem uma grande diversidade cultural, apesar de tudo. Tem muitas riquezas, apesar de tudo. Tem grandes artistas, apesar de tudo. Se diz até que é um país feliz, apesar de tudo.

E apesar de tudo, e esse tudo tem tanta coisa nele, o Brasil tem grandes poetas, e não só aquela grandeza nobre, de coroa e cadeira, de academia, de letras.

Eu digo de poesia, essa que tem de se deixar debaixo da língua até dissolver na vida.
Essa, a linguadem da paixão, ou a paixão da linguagem, como num ensaio de Leminski.
Desses sujeitos que se bobear, fazem chover no nosso pequenique.

Que querem ser exatamente aquilo que são: o além.



Foi seu aniversário semana passada, e aniversário é isso: desculpa. Chegamos atrasados, como se andássemos mais adiante. E já que o porraloca nos fez o desfavor de dar a moeda pro barqueiro antes do tempo, e sempre seria antes, nós vamos por aqui, por aí, sentindo o gosto da sua língua do tamanho do caminho de curitiba até o japão e do japão até o seu céu o lá o léu o vil véu que nos separa de todo esse nada:

INVERNÁCULO

    Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
    Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
    Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
    Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
    uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
    O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
    eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

...


   nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
    ou um homem de fé

    certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé

...


leite, leitura,
letras, literatura,
    tudo o que passa,
tudo o que dura
    tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
    tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
    de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

...

desastre de uma idéia
só o durante dura
    aquilo que o dia adiante adia

    estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
    e coisa alguma me sacia

    formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem
    e meu sonho dorme

    fome da china   fome da índia
fome que ainda não tomou cor
    essa fúria que quer
                            seja lá o que for

...


 ERRA UMA VEZ


           nunca cometo o mesmo erro
        duas vezes
           já cometo duas três
        quatro cinco seis
           até esse erro aprender
        que só o erro tem vez

...


 °

     eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
     não lhe dei ouvidos

     quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
     eu cuido dos meus
...


ICEBERG


    Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
    Uma prática pálida,
três versos de gelo.
    Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
    não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
    Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
    um piscar do espírito,
a única coisa única.
    Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
    (ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.
...


III


Esse estranho hábito
escrever obras-primas,
não me veio rápido.
Custou-me rimas.
Umas paguei caro,
liras, vidas, preços máximos.
Umas, foi fácil.
Outras, nem falo.
Me lembro duma
que desfiz a socos.
Duas, em suma.
Bati mais um pouco.
Esse estranho abuso,
adquiri faz séculos.
Aos outros, as músicas.
Eu, senhor, sou todo ecos.

...



Não, não cansa. Des cansa. A vista o ouvido a mente o coração.
E não vai ser eu quem vai dizer esse sim, esse não, deixa Àlice, que sabe o que diz:

Esses poemas, mais que quaisquer outros,
estão cheios de noites e madrugadas adentro.
Cheios de uma dor tão elevada
que é capaz de nos fazer rir, apesador de tudo.
Cheios de dias na vida de uma luz.
São poemas de vitalidade, apesar do adeus...

Ruiz

No começo do ano em plena mostra de cinema em tiradentes, entre um filme um vinho e um paralelepípedo, deparei-me com o Ex-isto, que eu recomendo para todos que queiram apagar-se diluir-se desmanchar-se até que de mim de nós de tudo não reste mais que o charme:

 

E é o mesmo pessoal que fez o tão esperado documentário sobre o itamar assumpção.
Falo mais nada, falaí:

Moinho de versos
Movido a vento
Em noites de boemia

Vai vir o dia
Quando tudo que eu diga
Seja poesia

Pra terminar, um presente pra gente: o Bandido que Sabia Latim , com músicas feitas pelo cara que tem o bigode mais style que o nietzche. Fica aqui um convite pra quem quiser se debruçar, como catatau, nas águas da desrazão.

Vai me olhar com outros olhos ou com os olhos dos outros?

vida e morte
amor e dúvida
      dor e sorte

      quem for louco
que volte

    Ainda em tempo, um documentário pequeno sobre ele, bom demais, ótimos depoimentos.
    De quem sabe o que está fazendo, vivendo, inscrevendo. 
    Paulo Leminski - Ervilha da Fantasia (1985):
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