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quarta-feira, 28 de abril de 2021

Relato Selvagem

 

Lá estava o Bar do Wilson me chamando cada vez mais. O Wilson, camarada de tantos goles. Com a pandemia, no entanto, ele pôs duas mesas de plástico na porta de entrada e servia dali as doses de pinga ou qualquer coisa que as pessoas iam comprar lá. Doces para crianças, créditos para celular, até jogo do bicho ele fazia. Wilson era um cara bom. Eu já estava há algum tempo sem beber. Estava dando um tempo com esse fluxo de álcool nas veias que me torcia os miolos até ver tudo rodando.  

Atravessei a rua e comprei um latão de Itaipava. Apesar do calor e da sede, a cerveja não desceu muito bem. Mesmo assim comprei mais uma logo em seguida, após tomar a primeira em duas goladas ali mesmo nas mesas de plástico que protegiam a entrada. A segunda já desceu melhor e uma certa calma foi me paralisando aos poucos ali no bar do Wilson. Não demorou muito pra eu pedir uma pinga, um tira gosto e me irmanar despreocupadamente na alegria benfazeja do Wilson.

Dali a pouco acabei reencontrando os velhos amigos, todos frequentadores assíduos do bar do Wilson. O Pastor chegava falando alto, gesticulando, gargalhando e contando histórias que poucos entendiam, mas de que todos riam, menos o Reinaldo, sempre bêbado demais para entender qualquer coisa. Ficava balançando o tempo todo e com um sorriso de retardado na cara que só tirava para tomar os copos de pinga que ele emborcava de uma só vez, estalando os lábios em seguida. 

Depois da décima cerveja, entornada na mesa, Wilson já tinha entendido que novamente eu só sairia dali carregado e com uma conta tão alta como meu grau alcoólico, pagando bebida e petiscos para todos. Porém, para alegria ou tristeza do Wilson, nada disso aconteceu. Assim que decidi voltar para casa, ao atravessar a pista, um caminhão com os faróis ligados me acertou e me arremessou à metros dali. Senti então aquela  angústia sufocante e derradeira, fechei os olhos e tudo finalmente parou de rodar. 


Felipe Fernandes





quarta-feira, 20 de maio de 2020

O leão íntimo


Quando chegou, ainda era um filhote e podia facilmente ser confundido com um urso de pelúcia. Porém guardávamos certa distância dele e por mais que parecesse inofensivo, ninguém tentava tocá-lo. Admirávamo-lo de longe, dizendo “que leão mais bonitinho”, enquanto ele mordia um pneu velho ou rasgava pedaços de papelão com suas garras pequeninas. Tinha um pelo cinzento e felpudo e seus olhos eram sempre frios e num certo sentido calculistas. Durante os primeiros anos dificilmente o víamos rugir. Às vezes, quando tinha fome ou se sentia enfadado, abria a boca e rosnava de um jeito dócil e ameaçador ao mesmo tempo. Quando comia também rosnava, abraçado a grandes pedaços de carne com uma fúria contida.
Alojamo-lo no pátio interno da casa, onde podíamos sempre vê-lo. Quando não estava dormindo, passeava pelo pátio, forçando as grades e raspando o chão com os dentes. A cada dia
parecia estar mais forte. No segundo mês, seu pelo havia se tornado mais amarelado, já adquirindo a cor que viria a ter por toda a vida. Quando mais o tempo passava, mais a distância entre ele e nós crescia. O que a princípio julgávamos medo deu lugar a uma grande fúria de qualquer um que dele se aproximasse. Com três meses era já um leão maduro e assustador, com um juba imensa e dentes enormes.
Meu pai acreditava que podíamos domesticá-lo mudando sua alimentação e através de uma convivência mais próxima com seres humanos. Mas logo percebemos que havia algo nele que nós não conseguiríamos mudar. Certo dia em que andávamos a passear comeu o cachorro da minha mãe. Quando ela viu a calda do Lulu presa nos dentes do leão, criou um ódio mortal pela besta (como ela passou a chamar o leão) e gritou para meu pai que seria necessário sacrificá-lo imediatamente. Meu pai porém foi absolutamente contra, dizendo que isso seria um crime. Minha mãe argumentou que então o levasse de volta para a África ou o doasse para um zoológico ou que o mandasse para o inferno. Mas meu pai, sem aceitar qualquer argumento razoável, disse que isso estava fora de cogitação, e enfatizou que nunca mais voltaria à África.
Meu pai sabia que dentro de dois ou três anos ele estaria com um porte muito maior e que seria impossível domesticá-lo, com seus instintos de caça já praticamente formados. Qualquer descuido e um de nós poderia ser sua vítima. Seria necessário estar sempre reforçando as grades do pátio interno para que ele não entrasse em casa. Minha mãe sugeriu que instalássemos uma câmera no pátio e o monitorássemos ininterruptamente. Após o incidente com a poodle, meu pai resolveu construir um muro muito mais alto que cercasse o fundo do pátio interno, pois esta parte dava para a rua, e assim nenhum outro bicho poderia entrar lá e o leão ficaria completamente isolado.
O leão suportava a tudo com grande indiferença. Parecia mesmo que não se importava com o que fizessem dele e que nossa existência lhe era completamente indiferente. Quando às vezes nos olhava, era com um profundo desprezo, como se não passássemos de empregados responsáveis por alimentá-lo, o que de fato éramos. Não sei porque nesse instante comecei a pensar no leão como um ser diferente. Comecei a sentir por ele uma espécie de afeição e companheirismo. Senti toda sua dor em permanecer preso durante todo dia naquele minúsculo lugar, um caixa ridícula comparada às planícies das savanas africanas onde podia percorrer livremente, alcançar seu alimento e reinar impávido.
Quando atingiu a idade de 2 anos, o Leão estava completamente desenvolvido. Media quase um metro de altura e sua juba era digna de uma realeza. Os pneus que jogávamos para que se distraísse mordendo se amontoavam num canto do muro, onde às vezes ele ia se deitar. Minha mãe simplesmente ignorava-o completamente, e por causa disso nunca o deixávamos sozinho com ela, pois sabíamos que ele acabaria morrendo de fome. Ele lutava por seu espaço e estava disposto a matar ou morrer por ele, mal nos aproximávamos das grades bem reforçadas do pátio. A impressão que se tinha é que se alguém entrasse ali e saísse com  vida ia ter desejado pelo resto da vida nunca ter entrado.
Apesar de todos os alertas que já haviam sido feitos sobre a atenção que era necessário ter quanto a porta que separava o pátio da casa, certo dia alguém a deixou aberta. Apenas depois pensamos na possibilidade de o próprio leão haver forçado o portão. Assim que o vi passar pela porta, tive tempo para alertar a todos a saírem da casa, porém ele conseguiu me alcançar. Lambeu minha mão e não tive como deixar de acompanhá-lo ao pátio interno.


Felipe Fernandes

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O famigerado terceto - Felipe Fernandes




Preto e branco

Quem pintaria sua vida num quadro?
Ou se alongaria numa frase obscura
Que se apaga no muro da cidade?



Céu Espelhado

Num céu sem fim,
Urubus descrevem círculos sobre mim
Acho que morri



Dias

Ontems no plural não faz sentido.
Mas será apenas um
Todos os dias vividos?



Quarteto

Ela disse pra eu tentar o quarteto,
Ou talvez o quinteto.
Mas o próximo verso me dá tanto medo.

   



*Imagens e colagens tirados do fanzine In(verso) de Felipe Fernandes e Dani da Gama, lançado no 27º Inverno Cultural


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