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domingo, 16 de julho de 2017

Formato de dissertação cria polêmica na internet e serve como mote para a desqualificação programada que as ciências humanas vêm sofrendo: fizemos o que nenhum blogueiro fez, conversar com o autor.

por Vinicius Tobias




Em tempos forte crescimento do ódio generalizado, de assassinatos de ativistas ambientais, de notícias falsas e relativização das leis na justificativa de operações políticas uma coisa choca profundamente certos blogueiros: uma dissertação que pensa o mundo a partir de sua forma.
A descoberta por parte do estudante de filosofia Alysson Augusto da dissertação de mestrado: "Uma educação esquizita. Uma formação bricoleur processo ético e estético e político e econômico", do ator, performer, mestre em educação e atualmente doutorando em Educação e Professor substituto do curso de Teatro da Universidade Federal de São João del-Rei, Tarcisio Moreira Mendes.
Alyson Augusto publicou uma primeira matéria no site Universo Racionalista onde fazia uma leitura pouco séria da dissertação. Além de não levar o referencial metodológico em conta nas suas considerações, mostra desentendimentos que possivelmente não houveram: como achar um absurdo páginas soltas escritas à mão no corpo do trabalho, deixando de lado o fato de que essas atividades feitas na escola eram justamente o objeto de pesquisa ao qual aplicaria a esquizoanálise, um método inspirado nos escritos do filósofo francês Gilles Deleuze e do psicanalista Félix Guattari.
Essa primeira postagem foi tomada como fonte para a publicação do blogueiro Rodrigo Constantino para que também encenasse, a partir do exemplo, a desqualificação das humanidades. E finalmente houve também outra postagem no mesmo Universo Racionalista, respondendo às pessoas que leram o trabalho e discordaram da opinião do site.
Somando-se essas matérias às disseminações em redes sociais imaginamos o estrago que está sendo feito: essa suposta "impostura" (acharam um acadêmico em quem se apoiar diante da grandeza do desconstrutivismo de Deleuze, Sokal, que é quem emprega esse termo) é utilizada de maneira rasa para alimentar o senso comum de "doutrinação marxista" e de "vale tudo". Ou seja, utilizam esse exemplo para a desqualificação e perseguição das humanidades, disciplinas que invariavelmente elevam o debate político pelas suas implicações sociais e não apenas de produção de tecnologia e saber sobre o mundo natural.
Essa entrevista é uma tentativa de "direito de resposta" paralelo que o blog Larvas Poesia tenta operar toda vez que vê coisa parecida rolando na internet. Confira abaixo com o autor da tão temida dissertação, aqui está Tarcisio Mendes:


Tarcisio, sua repetição da frase "You have to learn Portuguese" realmente chocou esses blogueiros. Mas acabam aí as inadequações de seu trabalho, no entanto, a apresentação do objeto de estudo foi tomada como uma séria impostura. Qual a razão da repetição no 'abstract' dessa frase, você não estava querendo sugerir nada né, nem certa realidade de colonização cultural americana que toma nossas mentalidades? Ou é só porque não sabe inglês ou não tinha cinguenta reais para pagar um colega para traduzir?


Bom, alguns pesquisadores defendem que o uso de um resumo em língua estrangeira ajudaria no compromisso com a internacionalização do trabalho. Porém, é ingênuo pensar que alguém leria um trabalho em outra língua, ou aprenderia uma língua latina a partir do interesse produzido por um abstract.
Neste trabalho, resumo e abstract são produzidos com o desejo de problematizar os constituintes de um trabalho acadêmico, assim como o resto das partes que chamamos pretextuais. Neste sentido, o que você põe como questão é inteiramente relevante para o âmbito de produção do trabalho. Embora não tenha sido o desejo primeiro. E isso é outra função do trabalho: produzir questões a partir de sua leitura e não apenas pelo desejo do autor ao escrever.
É curioso encontrar ainda casos nos quais um trabalho é julgado, diferente de produzir questões ou posto em questão, apenas por uma incompreensão dos elementos pretextuais. O clássico preconceito de 'julgar o livro pela capa'. Por isso, creio que esta entrevista mais que um direito de resposta, é um direito às questões que suscitam o trabalho. Pois a obra se sustenta e é capaz de responder a todas as perguntas até agora feitas pela crítica opinativa que vem recebendo. Fica o convite a leitura de toda a dissertação. No entanto, ao que parece, não foi apenas o resumo e o abstract que causaram incômodo.
Ao longo de toda a pesquisa fui financiado por agências de fomento, totalmente adequado aos processos meritocráticos de produção científica, apeser de ser a favor das políticas afirmativas na pós-gradução. Sou muito grato a todos os contribuintes adimplentes que não sonegaram seus impostos. Por isso teria sim 50 golpinhos para pagar a tradução do resumo, se não fosse capaz de fazê-lo. Cabe ressaltar que a dissertação cumpre também seu papel de ser coisa pública ao ter seus resultados disponibilizados a qualquer interessado gratuitamente.


Pois bem, caso sim, você usou uma fórmula consagrada na arte de dizer a partir de processos. E parece que essa é uma pegada recorrente no corpo de sua dissertação, afinal, você procura a interpenetração do ético, estético, político e econômico, não é? Qual é a importância de se pensar a forma não apenas teoricamente na academia? Qual é a importância de aplicar essas reflexões?


Mais que propor uma metodologia de interpenetração entre os aspectos éticos e estéticos e políticos e econômicos, o desejo do trabalho é afirmar que toda obra é produzida a partir desse coengendramento. Não é possível produzir uma forma que não esteja totalmente implicada com uma ética, uma política e uma economia, mesmo que este coengendramento seja negligenciado em algum momento. Não por acaso que muitas opiniões rapidamente relacionaram o trabalho a certos movimentos estéticos, partidos políticos e meios de produção. Embora ele não esteja atrelado a nenhum deles.


"Não é possível produzir uma forma que não esteja totalmente implicada com uma ética, uma política e uma economia, mesmo que este coengendramento seja negligenciado em algum momento."

 É certo que a dissertação problematiza uma produção acadêmica que por vezes é produzida numa moralidade limitante, por uma política fascista, fixada numa produção clientelista do saber. E isto nada tem a ver com partido político ou movimento ideológico organizado. Creio também que uma incompreensão do trabalho foi produzida por ter em suas linhas termos como "golpe direitista", "marxismo". Atento que no momento em que o texto da dissertação fora produzida, vivíamos um governo legítimo eleito pelo voto popular. É preciso estar atento, principalmente nos tempos em que vivemos, a serviço de qual ética e estética e política e economia nossas trabalhos estão atrelados ou podem ser relacionados.


Outra coisa tomada como absurdo pelos blogueiros foi a performance encenada por você em ocasião da defesa. Ninguém se choca ao ver um nu artístico exibido no cinema ou no horário nobre da televisão, mas quando usado em uma peça performática na academia o terror toma conta dos liberais. Na performance você aparece encerrado em papéis e escritos e numa espécie de ritual de descarrego se liberta deles e fica nu ao final da performance. A performance tem ligação direta com o tema pesquisado, não? Você acha que a atitude estética tem sido desconsiderada como forma de conhecimento? Construir conhecimento também a partir do estético não seria uma forma de contemplar de forma mais integral as maneiras do saber, e não é exatamente o que esperamos de um ator?



Cabe aqui uma ressalva: a performance atacada pela crítica não foi produzida na defesa e sim no exame de qualificação, um ano antes da defesa. Sempre tem havido perseguição em relação ao corpo nu na academia, seja de arte ou não. Há pouco tempo, um aluno do Ceará denunciou perseguição sofrida dentro de sua faculdade de arte por usar em seus trabalhos como material de pesquisa o próprio corpo. Ou, há menos de um mês, o ataque que o curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Maringá sofreu pelo mesmo jornal Gazeta do Povo, que usou indevidamente imagens de uma performance de alunas do curso para tentar desqualificar mais uma vez a área das humanidades.
Neste trabalho, a performance não só tem ligação direta com o tema, como ela mesma é tema da dissertação. Inclusive, provocou a produção de um capítulo da dissertação intitulado "Nu questão de uma qualificação". Jorge Larrosa pergunta o que aconteceria se um professor vestisse um chapéu de guizos; a dissertação, a partir desta questão, questiona: e nu? Muitas opiniões produzidas nos comentários disseram que isto era aceitável para uma pesquisa na área de artes, mas na educação não. O trabalho não se pergunta apenas o que se espera de um ator nu, mas de um performer, de uma professora da educação, da arte. Que idealizações produzimos que impedem outros modos de vida? Que esperamos exatamente de uma pesquisa acadêmica, de uma pesquisa em educação? Forçar limites e pensar outros possíveis para além das moralidades é um exercício da obra.


Como foi sua avaliação pelos Professores Doutores da UFJF? A performance que apresentou fez parte da avaliação ou foi uma espécie de anexo? Você depois, ou antes, argumentou e foi questionado por eles, não? Como eles avaliaram seu trabalho?


O trabalho cumpriu com louvor todas as etapas avaliativas, composta por banca pública e especializada e aprovada pelo colegiado do Programa, como é de praxe. A performance, como dito anteriormente, fez parte do processo de dissertação, seja na qualificação, na provocação do texto ou na produção de imagens contidas no trabalho. O trabalho foi aprovado, inclusive, com destaque para a operação conceitual.
Porém, é sabido que dentro do meio acadêmico, pesquisas que não seguem os ideais das cientificidades das ditas Ciências Naturais ou da Natureza são sempre vítimas de ataques. Este trabalho não é o único. Mesmo dentro da UFJF, instituição na qual foi possível esta pesquisa, encontramos grupos que tentam desqualificar pesquisas como da área farmacêutica da homeopatia, dos estudos culturais de gênero e sexualidade, questionam trabalhos da área da Ciência da Religião, para citar alguns exemplos. Deste modo, esta dissertação não é, não foi e não será a única a sofrer ataques.


Pode explicar de maneira simplificada em que consiste a esquizoanálise, e em quais situações ela deva ser aplicada?


Qualquer coisa dita aqui que tente criar um entendimento acerca do que seria esquizoanálise corre o risco de limitar seu funcionamento, torná-la impotente. O que posso dizer é que se trata de uma prática que se põe a experimentar possíveis para a vida se fazer, que não propõe modelo, embora instigue a produzir múltiplas formas, como a dissertação que fora produzida. Propõe-se a combater os ideias a que estamos o tempo todo submetidos como a edipianização, o falocentrismo, o familismo, a neurotização das relações e a esquizofrenização da vida.
Esta empreitada de Deleuze e Guattari está disseminada nos dois tomos produzidos por eles intitulado "Capitalismo e Esquizofrenia 1 e 2". O tomo 1 é a obra "O anti-Édipo" e o tomo 2 é constituído pelo Mil Platôs, que fora traduzido para o Português em 5 volumes.


O Canadense e filósofo da comunicação McLuhan diz que "o meio é a mensagem". Isto é, que não há diferença entre forma e conteúdo, e que a forma é quase que a totalidade do discurso. Isso porque a escolha entre métodos e formas denota toda uma filosofia de mundo a ser considerada. Por exemplo, a linguagem escrita e linear se liga com a mentalidade moderna de "meios para fins" e um platonismo no sentido de uma concepção pura de "verdade". Nesse sentido a opressão também vem da forma e de nada adianta operar em argumentos se a forma continua a passar a mensagem de outra visão de mundo. Pode-se dizer que aí se encontra um viés de justificativa para suas operações na forma ao longo do trabalho?


É certo que toda forma produzida é um exercício ético e estético e político e econômico. No entanto, mais que garantias acerca de uma forma ideal, o trabalho se constitui problematizando as relações de produção. Isso porque, a linguagem escrita nem sempre estará relacionada a uma linearidade. Ou uma forma não linear não dará garantias que não se produzam relações lineares com ela. Dito de outro modo, não há garantia em nenhuma produção. Por exemplo, a crítica fez confusão com informações que a priori seriam objetivas ao questionar e clamar por uma objetividade na escrita: erra o nome do autor, confunde dissertação com tese, qualificação com defesa de mestrado. Isto é absurdo? Não. Isto mostra apenas que não há objetividade alguma na escrita.
Neste sentido, sempre temos que estar atentos para impedir relações moralizantes, fascistas, ideais e produtivistas. Estar atentos aos pressupostos que podem envenenar nosso contato com as coisas do mundo. Isto não depende de um objeto fixo, mas das relações que são produzidas com ele. É preciso estar à altura do acontecimento, isto significa abandonar sempre que possível os pressupostos moralizantes, as medidas do senso comum e os preconceitos limitantes.
Hoje não é raro encontrar pesquisadores reclamando e até adoecendo por não conseguirem se adequar a padrões de escrita e pesquisa. Alguns não encontram saídas, se sentem aprisionados, adoecem. É desejado que este trabalho seja uma pista que potencialize outros modos na diferença na pesquisa acadêmica que possa acontecer. Não um novo modelo de trabalho. E ele não é o único, ele se junta a outros tantos que vêm sendo produzidos Brasil a fora, por grupos de pesquisa como Escrileituras da Faculdade de Educação da UFRGS; Grupo Imago, da UNESP de Rio Claro ou do Grupo Olho, da UNICAMP, para ficar em alguns exemplos.
Em 1978 foi conferido o título de doutor ao pesquisador Edras do Nascimento que apresentou, em seu doutoramento em Letras pela UFRJ, não um texto padrão que se esperava, mas um romance intitulado "Variante Gotemburgo". Em 2005, a tese de Clarissa de Carvalho Alcântara, intitulado "Corpoemprocesso - Teatro desessência", foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da UFSC; essa tese de arte da performance foi apresentada em quatro livros, junto a um texto impresso em tecido enrolado, dispostos num envelope de couro. Mais recetemente, exatamente em 2016, a tese defendida pelo professor Camilo Riani, docente da Faculdade de Comunicação da UNESP de Rio Claro, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESP de Rio Claro, foi apresentada por meio das artes Caricatas: arte-rosto-humor-experiência composta por composições visuais, telas, imagens e intervenções gráficas. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Cristian Poletti Mossi, doutorou-se pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria, produzindo a tese intitulada "Um corpo-sem-órgãos, sobrejustaposições - Quem a pesquisa [em educação] pensa que é?", na qual problematiza a pesquisa acadêmica criando uma escrita labiríntica com imagens.
Isso apenas para ficar em alguns exemplos. Não é só em Havard que aluno produz Rap como TCC. Tem muita coisa boa sendo produzida no Brasil que enche a academia de vida!


Esses blogueiros procuram perseguir trabalhos que não se encaixam no padrão, e argumentam que as humanidades são um ambiente bastante anárquico com seus participantes. Ao ler sua dissertação, entretanto, vemos que você trata de questões de cerceamento daqueles que pensam a forma dentro das instituições, também das questões midiáticas. Trata de corte de financiamentos a pesquisadores e todo o circo midiático que é formado quando alguém questiona as operações de legitimação da intelectualidade, usando, por exemplo, o caso do professor de filosofia que pergunta em prova sobre a 'pensadora' Valeska Popozuda. Há, segundo seu julgamento, uma perseguição àqueles que questionam questões centrais dos trabalhos na academia?


Problematizar é muito difícil. É muito sedutor combater um padrão impondo um outro padrão moralizante. O perigo do oprimido produzir como ressentimento ainda mais opressão. 



"Problematizar é muito difícil. É muito sedutor combater um padrão impondo um outro padrão moralizante. O perigo do oprimido produzir como ressentimento ainda mais opressão"

Uma pesquisa não deve ser constituída na produção de opinião ou na polêmica. Deleuze e Guattari ao produzirem o livro "O que é filosofia?" atentam que a filosofia tem horror às polêmicas, e que ela não é produzida através de opiniões. Um conceito não é produzido para se concordar ou não. E sim para fazer funcionar alguma coisa. Ele não serve para tudo. Às vezes ele passa ou não passa.
Este caso que problematizo na dissertação citado por você é bom para pensar estar relações. Pois defender que Valeska Popozuda é uma pensadora contemporânea é um falso problema. Ela é pensadora. A questão é como funciona isto que ela cria? Neste mesmo livro citado anteriormente, Deleuze e Guattari nos levam a pensar que não é privilégio da Filosofia produzir pensamento. O que diferencia Filosofia, Arte e Ciência seria seu modo de produção de pensamento. É um modo de combater esse pressuposto que pensar é privilégio dos filósofos. De modo simplificado, filosofia produziria pensamento através de conceitos; a ciência através de functions; e a arte através de perceptos e afectos. Assim a funkeira seria uma pensadora contemporânea que produz-se atrávez de perceptos e afectos, já que o campo que ela habita é o da arte da composição, da criação artística. A questão posta pela dupla é: o que é produzido ajuda a afirmar ou não outros modos de vida que não este imposto pela hegemonia? Por isso "My pussy é o poder" é muito mais revolucionário que apenas um "beijinho no ombro, tiro porrada e bomba".
E outra coisa que me incomodou muito e que está em outro texto da dissertação intitulado "Não somos científicos. Somos científicos. Que fazemos então!?", foi retaliação que um grupo de pesquisadores da USP sofreu ao serem acusados de não fazerem pesquisa científica ao propor o método histórico-dialético num edital de capitação de recursos da CAPES.
É preciso estar atento para que não nos tornemos fascistas ao combatermos certos fascismos.


E for fim, como foi passar por essa dramatização toda do seu trabalho na internet? Qual foi o lucro obtido?


Como disse, a polêmica e a disseminação de opiniões não ajuda muito a pensar. Pois senão ficamos apenas no "concordo ou discordo" e nada muda. Cada um fica no seu territoriozinho.
A internet como você muito bem pontuou no início da entrevista, é um ambiente muito propício para disseminação do ódio e dos fascismos contemporâneos. Desse modo, creio que o ambiente acadêmico, com todas as moralidades existentes, tem sido um território potente para problematizar e combater pressupostos, preconceitos e padrões limitantes de vida. A academia tem sido potente, em tempos tão difíceis, para produzir resistência e novos modos de vida. Bem diferente de alguns espaços da internet que, reproduzindo o jargão "liberdade de expressão", tem produzido mais clausura, violência, intolerância e ódio.
Como saldo fica os contatos com pessoas e pesquisadoras e pesquisadores que vêm produzindo ainda muita vida na academia, aliados de vida. Para citar um, a pesquisadora Fabiana Fabulosa (Fabiana Aparecida de Carvalho) que junto de seu orientando Madoxx (Claberson Diego Gonçalvez) produziram um texto belíssimo em defesa do trabalho, intitulado "Um dia a academia será deleuziana...". E não por acaso, a sua universidade sofreu recentemente um ataque do mesmo jornal por produzirem uma performance num evento acadêmico da Universidade Estadual de Maringá, que problematiza o corpo da mulher em nossa sociedade. Temos que nos mover como matilha, como um bando, para desarticular as opressões. Não estamos sozinhos.
Apesar de terem insinuado que perseguiriam a mim, inclusive no meu trabalho como professor, não ganhei ainda nenhum golpinho a mais em minha conta bancária.
A alegria é perceber que não estamos sozinhos. Sou muito grato a minha orientadora e ao Travessia Grupo de Pesquisa que só tem feito vida em mim. Agradeço ao PPGE e à UFJF pelo apoio à minha pesquisa nesse momento. Agradeço também a vocês pelo espaço dedicado às minhas questões.


pic: Está aqui a pessoa que dá uma chocalhadinha na forma e põe os liberais à beira de um ataque de nervos, Tarcísio Mendes













terça-feira, 28 de outubro de 2014

Essas eleições...


...vão deixar saudades. Foi sem dúvida umas das eleições mais marcantes que já vivi. Seja pelo apelativo circo midiático, a morte súbita de um candidato e as viradas imprevisíveis por desconstrução da imagem pública.
    Também tiveram suas boas surpresas como era de se esperar nas primeiras eleições depois das históricas manifestações de junho. A primeira delas, a multiplicidade dos candidatos em todos os debates do primeiro turno que (para o bem ou para o mau) pela primeira vez refletiu a variedades de pensamentos e ideologias que compõe esse amalgama gigantesco que temos a audácia e a coragem de chamarmos unicamente de Brasil.
    Uma dobradinha interessante foi a Luciana Genro - Eduardo Jorge defendendo, cada um a seu modo e com suas teses, temas progressistas com um idealismo que marcou pontos para a discussão séria e racional sobre convenções que fazem milhões de pessoas sofrer e não podem avançar porque batem na barreira intransponível da opinião pública.
   Interessante também foi a distribuição de apoios desses dois candidatos que, salvo suas particularidades fundamentais, tinham muito em comum. Eduardo Jorge apoiou claramente Aécio e Luciana embora não apoiasse Dilma sugeriu que não se votasse no tucano.
     Não há dúvidas de que a manobra eleitoral de Luciana Genro tenha sido mais inteligente, e qualquer leitura apontaria que a maioria dos eleitores de Eduardo Jorge repudiaria o apoio do ambientalista. Mas por isso mesmo que podemos falar em sinceridade, autonomia e coragem por parte de Eduardo Jorge, deixando claro em seu enorme discurso quando anunciou o apoio ao tucano que não se identificava com o governo que ele propunha, mas indicava que a atividade política engloba, em seu jogo, muita coisa além do que identificação absoluta pela qual muitos saem se digladiando por aí.

                         "Posso afirmar que me diverti
                muito nessas eleições,
                   coisa que não aconteceria se eu
                perdesse meu tempo e meu humor
                  brigando com as pessoas por aí." 

     Posso afirmar que me diverti muito nessas eleições, coisa que não aconteceria se eu perdesse o meu tempo e meu humor brigando com as pessoas por aí. Aproveitei, ao contrário, para entender como as outras pessoas pensavam, fazendo com que as vezes eu conseguisse esclarecer alguma questão dentro mesmo das cadeias de pensamento da pessoa.
      Ora, convenci nove pessoas a votarem no Eduardo Jorge no primeiro turno, e, embora tendo votado na Dilma no segundo, minha opinião sobre meu candidato não estremeceu nem um pouco. Ainda mais por saber que a pluralidade nos debates foi garantida por ele ter sido o único a se negar a entrar num acordo com a globo para o qual foram chamados ele, Dilma, Aécio e Pastor Everaldo. A ideia da emissora era haver um consenso e contemplar a porcentagem que o TSE exige para não se fazer o debate com todos que representam partido com representante na câmara. Na outra ponta desse eixo se encontra o Pastor Everaldo, ele foi o único a fazer o ridículo papel de cabide de algum candidato, deixando até mesmo o tucano sem graça enquanto levantava para ele sacar no referido debate.
    Mas, além das pessoas com as quais falei e convenci, o entusiasmo estava presente na discussão, sempre cordial, com pessoas que pensavam radicalmente diferente de mim.
       Uma militante do PSDB mesmo ficou muito agradecida depois que ficou sabendo que eu votaria no PSOL (isso no começo das eleições) e mesmo assim eu fui educado com ela e falei sobre os motivos que eu não votaria no Aécio muito calmamente.

                              "E deus me livre de me 
                       transformar num fiscal
                           do bom comportamento"   

      Ao conversar com um antigo professor de história meu, partidário do Aécio, que soltava alguns comentários que podiam ser entendidos como preconceituosos à esquerda não me senti ofendido, afinal ele falava com a leveza de quem brinca. E deus me livre de me transformar num fiscal do bom comportamento rechaçando qualquer brincadeira bem intencionada com o lado político oposto, afinal, também na esquerda temos nossas piadas e taxações que podem não ser agressivas, só engraçadas.
  Ao invés de me entregar à tentação de taxá-lo e listar as idiossincrasias de seu lado político, que sempre estão na ponta da língua. Preferi levar na brincadeira que propunha e ressaltar que foram suas excelentes aulas de história é que fizeram de mim um anarquista.
    No mais acho que foi válido. Afinal, nem que seja nos debates do primeiro turno ouvimos diferentes teses sobre as direções políticas do nosso país e assim poderemos refletir melhor.
      O que eu percebi é que, sabendo conversar, tudo pode ser abordado, tudo pode ser discutido.
      Também Aécio não é um monstro, será tão difícil entendermos que não votamos no outro porque ele é o diabo encarnado, é apenas porque não queremos determinado projeto político para o país. Além de Aécio não ser um monstro tem muita habilidade política, sabendo ele que, caso eleito, deve moderar em medidas impopulares, senão não é reeleito nem elege sucessor. 
      Mas a principal vitória política, não se dá pela reeleição do PT. Se dá pelo fato de a presidente eleita pelo PT se comprometer claramente eu seu discurso de vitória com a urgente reforma política, apoio governista já temos, agora é só nos organizarmos em torno dos movimentos sociais e irmos para as ruas.

                 "Apoio governista [para a reforma
               política] já temos, agora é só nos
           organizarmos em torno dos movimentos
             sociais e irmos para as ruas." 

      E para aqueles que clamam que o nordeste seja declarado a "Nova Cuba" saibam que o Brasil não caminha para o comunismo, mas caminha, sim, para uma social-democracia, ou seja, uma democracia governada e pensada pelo e para o povo. Coisa que muito deveria agradar as pessoas que se identificam com o Partido da Social Democracia Brasileira, ou PSDB.
       Já podemos retomar as amizades e nos imbuir de boas vontades, a eleição já passou, e só valerá a pena se conseguirmos reverter o quadro de violência que se deu nas relações e nas redes sociais e usarmos da pluralidade não para alimentar nosso ódio, e sim para aumentar nosso universo de conhecimento político, coisa que, inclusive muito servirá ao advento do projeto político que acreditamos.
       Saber enfim, olhar o novo e os acontecimentos com distância e curiosidade, não sem paixão. Até porque sem ela nem o almoço de domingo com a família vale a pena. É pela paixão, e pelo aprendizado que ela vai gerar que essas eleições vão deixar saudade. 


Vinicius Tobias

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Editorial: sobre o controle da informação na questão dos transportes

No jardim da política de bates e rebates ficam sempre questões como:
- até que ponto o que é falado é apurado?
- até que ponto fala-se o que é agradável à posição do autor?


Claro, não existe imparcialidade.
Mas onde está o véu que separa opinião e crítica de manipulação e má vontade?

O gestor do blog O observatório insiste em falar que as discussões e manifestações de um grupo de jovens que se articula principalmente pela internet (em convergência do que tem acontecido no mundo todo nos mais diversos contextos) sobre o aumento da tarifa de ônibus em Lavras, são ligadas à grupos políticos de "oposição" e que tem como finalidade denegrir um político e valorizar outro.
.
Esse tipo de acusação é compreensível quando, possivelmente, se vive uma vida fazendo política em cidades como Lavras, que é uma aldeia que representa bem o mundo chamado Brasil. Não existe, nessa ótica, fazer política no sentido de construir, democraticamente, uma sociedade melhor. Se faz a política de partidos, onde, sob uma máscara de distintas "ideologias", pessoas se organizam para disputar poder. Sim, existem pouquíssimas pessoas que se enveredam por esses caminhos porque tem vocação, porque querem, porque tem paixão, na mesma lógica que o vestibular de medicina tem 100 por vaga e o de música menos de um, às vezes.


As ovelhas, acostumadas que são aos pastores, escolhem o que fizer a melhor propaganda e deixam eles tomarem conta.


Assim, mesmo com o pão e circo de cada dia, alguém pode resolver buscar outros que aspirem coisas semelhantes para conversar e tentar fazer algo.
Nessa lógica é difícil pensar que esse grupo pode não ter um líder, e menos ainda que não esteja sob o comando de algum outro grupo desses que disputam o poder.


No entanto, há pessoas que sabem que a política é algo que se faz no cotidiano, que conseguem respeitar na medida do possível o cassino, não participar dele, e pensar em formar diferentes de jogar.


Voltando ao contexto em questão, ressaltamos que não queremos polemizar isso mais, pois não temos intenção de entrar em um jogo de intrigas, acusações, exaltações e difamações que tanto se vê por aí e dos quais não vamos fazer parte. Inclusive alguns chamam isso de fazer política.


Ressaltamos ainda que tentamos entrar em contato com os principais protagonistas da história, o blogueiro, que ainda não nos respondeu o email, e alguns organizadores do movimento, que disseram que ainda não tem condições de dar nenhuma declaração. Todavia, abrimos o direito de resposta a qualquer um que se sentir afetado.


Segundo nos informaram, haverá uma Assembléia - pública e independente - sobre o transporte público em Lavras dia 24/02, Sexta Feira às 18h na Selt.


Com consideração à todos envolvidos e aos leitores,


Larvas Poesia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Estudante é acusado de corrupto ao debater política. Questionamos a Raphael Chaves: é memo?

O princípio citado no blog O observatório é muito nobre: "Um excelente modo de fazer o bem é a firme decisão de combater o mal." E é isso que o dono do blog César Mori Júnior faz. Ele têm todos nossos parabéns por identificar o mal e o expor à sociedade lavrense. Afinal, um universitário filhinho de mamãe que nem estuda em lavras só poderia estar culiado com o mal se tentasse, junto com outros coleguinhas, propor a discussão dos direitos dos cidadãos da Terra dos Ipês de não serem explorados por uma empresa que cumpre horrivelmente (segundo alguns) a sua função.


Os puros devem tentar se manter afastados do mal, e conspiradores que se reúnem em plena praça pública (isso não era proibido na ditadura? “Socorro, a censura acabou!”) para discutir política devem ser duramente combatidos. César Mori não entrou em contato com o atacado em questão, e postou diversas percepções distantes e disformes sobre corrupção, favoritismo, politicagem (compreensível pelo que se sabe do modus operandi de todos os lados da política da província em questão). No entanto, acreditamos que o famigerado líder da revolução proletária lavrense merece um estudo um pouco mais detalhado. Segue a entrevista que o grupo Larvas Poesia fez com o semeador da discórdia.


(na ótica do inquisitor):


Comecemos com pedrada! Qual é o grupo de oposição que paga a você para que se indigne? Eles pagam bem ou é só um hambúrguer no mau-mau?
Grupo de oposição?? Existe isso aqui em Lavras?? Até onde eu sei, temos onze vereadores na câmara e apenas um que se coloca como oposição. Bom, temos também um jornal de oposição. Acho que poderão verificar que não recebi nenhuma assinatura gratuita da dita folha ou algo do tipo. (rs)
O blogueiro diz que essa mobilização é uma bandeira política. Até aqui concordamos. Penso que consciência política é um dever do cidadão. Penso que temos dever de contestar e criticar o poder público sempre que achar que devamos e quando nos sentirmos afetados por uma medida, temos a obrigação de nos organizarmos e nos colocarmos diante do mesmo poder público que nos representa (ou deveria) pra exigir nossos direitos. Mesmo que você more em São João del-Rei ou em qualquer outro lugar, isso não desqualifica a sua luta. Pois foi esse um dos argumentos geniais do blogueiro na tentativa de me desqualificar. Disse que eu não moro em Lavras, não freqüento regularmente a cidade e não fui afetado por esse aumento da tarifa. Bom, realmente não moro em Lavras. Desde 2008 moro em São João del Rei, onde acabo de concluir minha graduação em História e onde iniciarei minhas atividades como aluno do mestrado esse ano. Apesar disso, não sei de onde o blogueiro tirou essas informações. Dizer que não frequento a cidade com regularidade? Estou em Lavras TODOS os fins de semana... e são muitas as testemunhas que podem atestar isso. Não fui afetado por esse aumento? Mas eu sou usuário do serviço. Colocadas essas calúnias de lado, o argumento do blogueiro é tão ridículo quanto dizer "Não nos importamos com as vítimas do terremoto no Haiti. Somos brasileiros, afinal de contas." Essa visão provincialista é típica das mentalidades autoritárias que, confortavelmente atreladas às oligarquias, sempre que se levantam vozes em protesto, sentem-se ameaçadas e tomam as bandeiras políticas como heresia. Entretanto, o blogueiro disse que essa mobilização está sendo patrocinada pela oposição. Eu não tenho conhecimento disso. Mas imagino que cada pessoa que postou uma mensagem ou uma tirinha demonstrando sua indignação com o aumento da tarifa (e foram muitas pessoas), deva estar sendo manipulada por alguma força invisível então.
Penso que engajamento político e social transcendem o interesse particular. Não falo dos crápulas que se ligam ao poder pra conseguir arranjos interessantes aos seus negócios. Estou falando em verdadeira preocupação com os problemas sociais. Mesmo que eu não utilizasse o serviço da Turilessa/Autotrans, ainda assim levaria minha indignação à frente, ao ver o povo sendo lesado por uma empresa que apresenta um serviço ruim em vários sentidos e que, atrelada ao poder público, conseguiu garantir o seu monopólio até 2017, contrato esse que vem da gestão anterior, mas que foi renovado sob mandato da atual prefeita em março de 2007. E não preciso receber hambúrgueres ou qualquer coisa pra defender o que acho certo.

Qual é a sua opinião sobre a oposição Lavrense?

Bom, como disse, a câmara dos vereadores em Lavras tem apenas um vereador que se apresenta como oposição. Seria ele o mecenas que o blogueiro aponta como patrocinador da indignação contra o aumento da tarifa de ônibus? Seria ele a mente que nos manipula das sombras para que não queiramos pagar preço abusivo por um serviço ruim? Não conheço o vereador, nunca conversei com ele e também nunca votei nele. Sei que ele questionou o aumento da tarifa por ter lido na Tribuna de Lavras, o jornal de oposição ao qual me reportei (será que com isso eu derrubo a acusação do blogueiro, que afirma que não lemos os jornais da cidade), em reportagem publicada no dia 28 de janeiro. Mas não sei se ele está tomando outras medidas a respeito. 
Você é misericordioso com o seu rebanho?

Isso é outra coisa risível no texto do blogueiro. O tom que ele dá ao texto faz parecer que somos uma quadrilha, ao utilizar os termos "líder" e "cúmplice" associados. É mais um indício de como as oligarquias lavrenses e seus lacaios estão desacostumados à contestação. Ele me coloca como líder dessa mobilização. Não me reconheço como líder. Simplesmente levantei a questão do aumento da tarifa numa comunidade da UFLA, expondo minha indignação, e disposto a fazer algo a respeito. A partir disso, pude travar contato com outros conterrâneos indignados, sendo que estamos conjuntamente buscando mobilizar os lavrenses contra a exploração.
Um outro ponto que gostaria de comentar é que o blogueiro afirma que realizaríamos um protesto na última sexta-feira, dia 03 de fevereiro. Isso não aconteceu (ainda). Simplesmente nos reunimos e debatemos questões referentes ao transporte público e começamos a nos organizar pra dar uma resposta, pra demonstrar o descontentamento da população lavrense. Eu me pergunto quem afinal de contas está promovendo a desinformação.
O que me incomodou sobremaneira foi o abuso do blogueiro, que postou informações minhas e de outra estudante em sua página sem autorização, sendo que na imagem do meu perfil outros amigos acabaram sendo também expostos. Quem lhe deu o direito de expor minhas informações na sua página? Eu enviei dois e-mails ao blogueiro solicitando a retirada dessas imagens e não obtive respostas. Recebi dezenas de mensagens - muitas de pessoas que ainda não conheço - indignadas com a atitude do blogueiro, garantindo seu apoio e sugerindo que eu o processasse. Estou avaliando que medidas tomar.
Você é ligado à algum grupo politico? Qual? Ele pega em armas?
Não sou ligado a nenhum grupo ou partido político. Minha atuação junto ao movimento estudantil em São João del-Rei foi tímida ao longo de toda a graduação, tendo participado diretamente apenas em alguns poucos processos. Nos últimos semestres da graduação tive uma relação um pouco mais próxima com o Centro Acadêmico de História. Pra quem não sabe, o DCE-UFSJ é uma organização suprapartidária, composta pelos centros acadêmicos organicamente articulados, que elegem seus delegados para o Conselho de Entidades de Base, onde se delibera a respeito das pautas estudantis. Respeito muito o DCE-UFSJ, que me fez ver a força que o movimento estudantil pode ter, conseguindo importantes vitórias para a comunidade estudantil. Ah... e sem pegar em armas. (rs)
Qual foi a sua dificuldade em entender a matéria do Jornal de Lavras que dizia que 2,60 é abusivo e 2,35 é caridade? Tinha erro de português ou você saltou alguma vírgula?
Tendo a desconfiar de discursos oficiais. O Jornal de Lavras é afinado demais à atual gestão para meu gosto. Como exemplo, temos o caso da denúncia do Ministério Público quanto ao mau uso de dinheiro público, em que foram acusados a prefeita, o vice e todos os vereadores da cidade, que teriam gasto em torno de 500 mil reais irregularmente em despesas pessoais. O caso repercutiu na grade imprensa, tendo sido reportagem no G1 e no Estadão. Na denúncia em questão, os senhores vereadores teriam gasto 20.000 reais com combustível, sendo que muitos moram nas proximidades da câmara e na prefeitura, teríamos 28 mil reais gastos com viagens, estadia e até mesmo bebidas alcoólicas. Mas o Jornal de Lavras não publicou. Publicou apenas uma nota de esclarecimento da prefeita, que trazia um texto cifrado, inacessível à maior parte da população - parcela na qual me incluo - escondendo-se atrás de linguagem jurídica.
É dito na reportagem do Jornal de Lavras que a Autotrans teria enviado nova planilha de custos à prefeita, solicitando o aumento da tarifa, levando em conta "
o custo de insumos como combustível e pneus e outros itens constante em planilha de custo" (trecho retirado da reportagem do Jornal de Lavras, de 24 de janeiro). O jornal diz ainda que receberam outra informação, embora NÃO conste na planilha, que colocaria uma suposta diminuição do número de usuários, medida pelo IPK (Índice de Passageiros por Quilômetro). Onde estão esses números? Por que a prefeitura não divulgou a planilha de custos da Autotrans? Por que não divulgaram a forma como foi feita o cálculo. O blogueiro me acusa de desinformação. Mas acho que esse é um problema geral da população lavrense diante da ausência de transparência da atual gestão.

Você lê os jornais lavrenses? Qual deles tem as figuras mais bonitas?

Leio com freqüência pelo menos a Tribuna de Lavras e o Jornal de Lavras, que poderíamos classificar respectivamente como oposição e situação. Não há isenção política nesses jornais e nem cobro isso. Acho que o discurso da "imparcialidade" da imprensa é uma grande hipocrisia, embora nos casos em questão essa vinculação política seja bastante escancarada. Penso que isso é visível pra toda a população. Mas acredito em honestidade intelectual, apesar das vinculações políticas. O papel da imprensa é informar e não justificar fulano ou siclano que fazem parte de uma ou outra facção. Em todo o caso, leio ambas as folhas e construo dialeticamente meu próprio juízo a respeito das questões colocadas por uma e outra.
Por que você não se informou antes de incitar uma população inteira, menino?

O blogueiro diz que não nos informamos. Ele não deve saber disso (ou talvez saiba, já que ele demonstrou saber tanto a meu respeito), mas procuramos informações até junto ao Ministério Público. Com os dados que tínhamos, discutimos o problema na praça dr. Augusto Silva no último dia 3. E como disse e volto a afirmar: o problema de desinformação é geral, diante da ausência de transparência da atual gestão. A população foi incitada não por mim, mas pelas condições do transporte público em Lavras hoje, ante esse monopólio que, com a anuência da prefeita, aumenta a tarifa sempre que lhe apraz. A população não pode ser refém desse conluio.
Queria dizer ainda aos funcionários da Autotrans que a nossa luta também é por vocês, por melhores condições de trabalho. Porque pelo que me parece, a empresa reduziu os seus quadros. Vejo muitos (muitos mesmo) ônibus em que o motorista é constrangido a fazer também o papel de trocador. Como se lhes exige cumprimento de horário, freqüentemente os vemos dando troco com o veículo em movimento, o que coloca em risco passageiros, pedestres, demais condutores e eles próprios.

Você visava se destacar com as gatinhas com a proposta de discutir o tema ou isso foi só uma dádiva do César Mori?

O blogueiro tem muita imaginação mesmo. (rs) Acho que há maneiras mais viáveis de "se destacar com as gatinhas" do que buscar uma mobilização por uma causa justa. Tem gente que prefere investir no futebol ou no violão. Como eu digo, quando faltam os argumentos, frequentemente a calúnia e a desonestidade intelectual são os caminhos tomados, como pudemos ver no blog em questão: o Observador. Talvez caiba uma sugestão para o referido blogueiro. Que tal "o Observador Míope"? Ah... acho melhor não. Miopia é uma limitação física e não uma deficiência de caráter.
 
O que foi aquela palhaçada na praça? Você e seus capangas planejam continuar com isso? Tem planos futuros?
Tivemos uma primeira reunião pra discutir pautas. Compareceram 16 pessoas. Chegamos à conclusão que precisamos de maiores informações e de buscar articulação com alguns grupos já consolidados dentro do movimento estudantil, sindicatos, associações de bairros etc. Já nos organizamos pra contatar esses grupos. Podem ter certeza que não vamos parar por aqui, enquanto não capitalizarmos todo o descontentamento da sociedade lavrense contra os desmandos desse conluio Autotrans (Turilessa) / Prefeitura. Estamos buscando articulação com esses grupos e com a comunidade descontente como um todo. Teremos nova reunião após o Carnaval em que, se tudo correr bem, conseguiremos constituir verdadeira assembléia popular, onde discutiremos que medidas tomar. Devemos divulgar data, horário e local o mais breve possível.
Por que você acha que qualquer tentativa de se tentar discutir política em Lavras é completamente rechaçada? Bons governantes não conversariam com o povo ao invés de ficarem expondo seus profiles como se fossem bandidos?

Com toda a certeza. E o problema é essa mentalidade provincialista autoritária, desacostumada à 
contestação. As oligarquias lavrenses estão acostumadas a esse status quo. E quando uma voz se ergue para criticar e contestar as medidas que toma, é logo vista como herética e submetida a retaliações e coações as mais diversas. Não é crime contestar as ações das pessoas que nós elegemos. Não é crime levantar demandas sociais. É exercício de cidadania.
Não somos uma quadrilha baseada em "líderes" e "cúmplices", como quer o blogueiro. Quadrilha poderemos chamar nossos representantes, caso seja provado que gastaram ilegalmente 500 mil reais do nosso dinheiro em despesas pessoais, conforme acusação do ministério público. Somos lavrenses! Somos universitários, secundaristas, trabalhadores, eleitores, cidadãos, movidos por um interesse comum: transporte público de qualidade com preço justo!  

A là Skylab: Qual foi o lucro obtido?


Até agora, de sopetão, eu diria um texto de um blogueiro, em que me calunia e me difama, além de 
expor sem autorização informações de meu perfil em uma rede social. (rs)
Falando sério... o lucro foi conhecer pessoas realmente interessadas no bem comum, dispostas a criticar, questionar e lutar por seus direitos. Pessoas, que em sua honestidade, julgam abusivo o aumento da passagem e ruim o serviço que recebem. Nosso objetivo é envolver mais e mais pessoas nessa causa. Não podemos sempre esperar dos outros. Quando afrontados por injustiças, não podemos nos limitar a resmungos. Vamos à luta!







*pic: Raphael Chaves, cidadão de Lavras, mestrando do curso de História da Universidade Federal de São João del-Rei, teve a sua imagem exposta por tentar discutir problemas do transporte lavrense, numa clara tentativa de transformar o direito de contestação das pessoas em crime.



*Vinicius Tobias

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ação de despejo contra 300 famílias em Itabira (MG)

Chegou ao Grupo Larvas uma atrocidade que está acontecendo em Itabira. Ao ler o texto a seguir vão perceber o quanto os valores em nossa sociedade estão invertidos. Não há como não se indignar com o acontecido. O texto foi enviado por Rafaella Dotta colega de luta, de idéia e de militancia dos Larvenses, preparem o estômago pois o que está por vir não é das mais tranquilas:

Como prediziam textos publicados em diversos sítios da internet, no dia primeiro de Agosto de 2011 concretizou-se o despejo de 296 famílias de uma comunidade na cidade de Itabira, Minas Gerais. Um ofício enviado pelo Ministério Público Federal ao Governo do estado exemplifica a irregularidade da ação: um processo de despejo não pode resultar em pessoas e famílias desabrigadas.



Despejo da comunidade Carlos Drummond em Itabira

Há 72 dias manifestantes estão acampados em frente à prefeitura de Itabira, Minas Gerais, reivindicam maior atenção à comunidade de Carlos Drummond. O bairro passa por um processo de despejo anunciado oficialmente no dia 24 de Maio e que tinha como prazo máximo o primeiro dia de Agosto. O acampamento em frente ao prédio público intencionava pressionar o governo municipal por uma renegociação em que fosse garantido o direito à moradia para a população de Drummond. Propostas iniciais rejeitadas, restou a preocupação com a situação do pós-despejo, que começa com sérios problemas.
Desde o ano 2000 o bairro Carlos Drummond foi sendo ocupado por famílias que, de acordo com cadastro da Assistência Social, em 15 de Julho de 2011 totalizavam 296 com renda de zero a três salários mínimos. O terreno, que há quatro décadas se encontrava em desuso, é de propriedade da família Rosa e sua reintegração foi requisitada pela primeira vez no mesmo ano do início da ocupação. Porém, através de um requerimento o advogado dos proprietários apresentou desistência de continuidade do processo. Novamente aberto em 2007, tramitou até Março deste ano, quando foram extintas todas as formas possíveis de protelação e a ordem de despejo foi dada.
Diversos movimentos sociais, líderes religiosos e associações profissionais ofereceram ajuda aos moradores de Drummond, tanto em textos de apoio, como por meio de ações. Destaca-se a atitude de Padre José Geraldo que manteve um jejum de 13 dias pedindo maior atenção do poder público. “Iniciei o jejum para sensibilizar as autoridades locais a fim de que façam alguma coisa no sentido de dar segurança a essas famílias, garantindo, ao menos, uma área em que elas possam reconstruir suas casas.” [1]
O Brigadas Populares e Dandara (ocupação urbana de Belo Horizonte), também se disponibilizaram, tanto para uma possível organização de resistência quanto para garantir que a desocupação fosse realizada de forma pacífica e justa. A população, recebendo dos meios de comunicação da cidade instruções de deixarem suas casas antes que a polícia colocasse em prática o despejo compulsório [2], que poderia e provavelmente culminaria em violência, não optou pela resistência coletiva. A ação de despejo estava marcada para o dia 1º de Agosto. No entanto, no dia 28 de Julho, quinta-feira, as famílias começaram a deixar suas casas voluntariamente.
Ainda assim a presença da polícia foi massiva no dia 2 de Agosto, terça-feira, data máxima para os moradores se retirarem do local. Foi planejada a utilização de 400 homens para a ação. Estavam presentes a Polícia Militar com batalhões especializados de Ipatinga e Belo Horizonte, o Choque da Polícia Militar, o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e um helicóptero para reforço aéreo. À essa altura apenas cinco famílias permaneciam em suas casas à espera da liberação do caminhão para a mudança. Nenhuma delas ofereceu resistência.
De acordo com ofício enviado pelo Ministério Público Federal à Prefeitura de Itabira e ao Governo do Estado [3], o despejo infringia vários acordos internacionais que priorizam o cumprimento de direitos humanos universais. Na ação policial, foram também desrespeitados tratados como o bloqueio de alguns observadores que pretendiam garantir a não utilização de violência contra os moradores, assim como auxiliar no carregamento dos caminhões.
Depois do despejo, os problemas caem onde era planejado
 
O bairro se transformou em uma cena literalmente arruinada, com as construções já sem telhas, janelas e mobília. A única movimentação restante era dos grupos policiais que passarão a fazer a segurança do terreno, para que não possa ser alvo de uma nova ocupação. Assim como permaneciam policiais também na avenida Mauro Ribeiro, na porta de um prédio recém construído, de propriedade do atual prefeito João Izael.
Alguns moradores foram para casas de parentes, outros para a rua e parte deles seguiram para abrigos organizados pela prefeitura. A seleção de quais famílias seriam alojadas foi feita através do cadastro no programa Minha Casa Minha Vida. A estas, que precisaram comprovar uma renda mínima, foi garantido o abrigo. As demais não foram enquadradas como responsabilidade do governo municipal. Houve também a tentativa de distribuição de “bolsa-aluguel”, que se mostrou ineficiente pela falta de disponibilização repentina de tamanha quantidade de imóveis para locação.
No primeiro dos abrigos, o galpão Fio de Ouro, foi construído uma espécie de labirinto de madeirite, onde cada cubículo corresponde a um ‘apartamento’ de cozinha e dois ou três quartos. O galpão tem 10 banheiros, 40 famílias e um sistema de vigilância fabril, onde o coordenador tem ampla visão superior de todos os ‘boxes’ e pessoas.
O mesmo não acontece no ginásio do Gabiroba. Lá, as famílias foram alojadas em uma quadra sem nenhum tipo de divisão e possuem dois banheiros para 50 famílias. Pretende ser uma situação de uma semana até que no Ginásio Brazuca seja instalado a mesma estrutura do Fio de Ouro e o abrigo se transfira.
O intuito é de que essa situação permaneça por aproximadamente um ano, até que o Governo Federal tenha condição de englobar no programa Minha Casa Minha Vida as 90 famílias. O acampamento em frente à prefeitura segue firme, embora possa ser também “despejado” a qualquer momento. A administração municipal já havia requisitado a retirada dos manifestantes, mas perdeu na justiça e foi permitida a ocupação da praça enquanto o despejo da comunidade não acontecia.

À firmeza dos militantes que lutam agora por alojamentos dignos e pela obrigatoriedade do poder público conceder, como prometido, terreno e material para a construção de moradias para os que acaba de desabrigar.
Rafaella Dotta
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal de São João Del Rei

[1] Parte de entrevista do Padre José Geraldo de Melo, vigário episcopal da Região Pastoral I da Diocese de Cel. Fabriciano e Itabira-MG, concedida a IHU On-Line (Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS), publicada no dia 21/06/2011.

[2] Como prova uma declaração dada à imprensa pelo comandante do 26º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Edvânio Rosa Carneiro, que comanda a região de Itabira: “Estamos com todo o planejamento pronto”. E ainda, "espera que os moradores saiam por livre e espontânea vontade. Se as famílias não saírem, a PM vai agir imediatamente após o fim do prazo", publicado em 01/06/2011.

[3] As remoções e os despejos forçados são considerados ilegais quando realizados com o uso de força física ou violência (…) Nenhuma remoção deve ser realizada sem o acompanhamento de funcionários públicos devidamente identificados, que devem efetivamente zelar pela segurança da população que está sendo removida; Observadores independentes devidamente identificados devem estar presentes para garantir que não sejam utilizadas força, violência ou intimidação; (...) A remoção não pode: fazer uso da violência e da intimidação, em nenhuma circunstância; Ser realizada de forma discriminatória ou replicar padrões discriminatórios; Resultar em pessoas e famílias desabrigadas; Destruir os bens das famílias afetadas; Ignorar a situação específica de mulheres e grupos em condição de vulnerabilidade (idosos e crianças, assim como outros). (grifo nosso)
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