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sábado, 10 de julho de 2021

"Do horizonte eu gosto da grandeza"

    

 

 

Eu gosto do caminho.

Do cheiro da terra
Da chuva
Da brisa que bate
E arrepia as manhãs.
No verão ver o dia nascer
No outono a lua apontar
laranja.

ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto do gosto.
Dos contrastes
Do limãoㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E do afeto.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhos que sorriem
De gente simples
De casa aberta.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De gente que fala o que sente
E senteㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Transparente.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de abraços que apertam
E mãos que soltam.
De melodias que embalam
E trilhas que expandem.
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Do horizonte eu gosto da grandezaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
De me reconhecer pequena
Apenas póㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Poeira.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de olhar o presente
Presente.ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Gosto de gente que está
De gente que vaiㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Que caminhaㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
E quase como uma miragem
Cruza nosso caminho.
Eu gosto do caminho.


Yvye Prado






quinta-feira, 1 de julho de 2021

Versus

 







De saída encantou-me o xadrez:


Cavalo a galopar a inicial de meu nome


A mobilidade mágica da torre


avançando em highway bicolor


E a rainha dançando a rosa dos rumos


como quem vê no mundo o quintal


Mas desaprendi tudo em nome das damas


Guerra entre infantarias de rua


sem mantos nem medalhas


Time com camisa, time sem. E só


Tudo mais nobre que as obscenas


estratégias de generais sacrificando peões


em benefício de reis que jamais


hão de estapear-se entre si




Luís Mingau






segunda-feira, 3 de maio de 2021

Odisséia 2021

 Ninguém consegue nada

Sem um pouco de fracasso

Em breve: 

Condomínios no espaço

Que caso!


Na nuvem tem mais que chumbo azul,

Há todo mundo prestes

A desabafar

Filmes e perfis sem passar

De verdade.


Fotos e filtros, tudo fake.

News pela metades.

Seis semanas,

Seis dias,

Seis horas, okey.

Números humanos


Tudo bem.

A vida ainda passa 

Se repete.

Mas a TV reprisa

Uma história mal passada..


Kubrick acorda depois

De trinta anos de ressaca.

E lança:

"2021 Uma Odisseia Sem  Espaço"

Pouco espaço de memória

 Menores espaços  de fala

Gigabytes de histórias,

Uma a uma mal contadas.

Pesadelos que pesam toneladas.

O universo se expande

Na base dos gritos

E silêncios conectados.



Eduardo Guimarães

19/07/2019




quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mãe dos Budas, Rainha do céu, mãe do sol; Marici, Deusa do amanhecer

Ao monge Ghosananda


 porca velha na lama

negros pêlos endurecidos

abaixo do pescoço poderoso


patinhas remexendo

corpo agachado escorregando

fundo na lavagem


sua morna imundície,

fuçando tudo,

tetas arrastando


os que a criam

ou a comem

são proscritos


ela levanta o olhinho

da terra pra

me encarar.


Gary Snider

Nalanda, Bihar

Retirado do Livro Re-habitar

Azougue Editorial, 2005




sexta-feira, 18 de setembro de 2020

(-)

 (-) o cheiro úmido das coisas que falam em silêncio


o orvalho sorve o concreto das paredes &

mais de quarenta anos

& os sonhos seguem inalcançáveis

a casa não deu,

namorado, emprego, beleza se vai,

as dúvidas sem boca

o gosto agridoce do sexo

as soluções sem conteúdo (das informações reproduzidas)

a cartilagem débil de sentir

& a luta entre ter ou ser dos moluscos no óleo

& o orvalho 

sorvendo o concreto das paredes




(-) reencontro


antigamente era simples

todo mundo se comia depois ia embora

hoje

você aqui na minha cara (neste apartamento)

eu viro mosca

& procuro uma fruta podre onde me esconder




(-) reencontro II


a nossa poesia sucumbiu

ficou

miúda de tesão



(-) os revolucionários também sabem ser caretas


esfaqueamos o rei & nas mãos ficou sangue

traímos 

tudo o que podíamos

até que o mofo cresceu nas cicatrizes

& a vida virou a bunda murcha no cabaret da travesti cansada



(-) memórias do nosso apartamento que resolvi esquecer debaixo da cama porque o banal do cotidiano é o maior continente da alma &depois da casca das feridas há névoa


o gato roçando a geladeira

(& você lavando louça)




(-) a beleza inaudível das coisas é arte


parece uma égua

abaixando-se para a água no bebedouro público

roupas coladas de suor

& os cabelos azucrinados do sol em seus olhos


Guilherme Paiffer Pelodan



                                        Kouřící žena




quinta-feira, 3 de setembro de 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Solidão-liberdade

 

A solidão me assola

Não me demoras, faço dela um prazer na minha solitude que esboça

Teu gosto é de pedra doce e saudade

Bebo vinho dez pras dez da noite

E toco piano por pura vaidade

Conto os dias, conto as horas, nessa solidão cheia de liberdade

Os ponteiros do relógio mentem às quintas

Meus livros estão cheios de tinta

Coisa velha faz borrão na parede

A lua invade a casa solitária e caminha entre as emoções cheia de sede

Bebe de mim o sonho de ontem

A solidão é libertária, nela me desprendo, sanidade, vôo com par de asas em total solitude, cheio de saudade

Agora sou mariposa, Maria que pousa corujeando o azul

Na melancolia, que é menina bonita

Aflita, chora e chove entre as couves do jardim

Seja solidão, seja liberdade, seja par de asas, que nessa alma exala

Seja o relógio, a tinta, a parede, a mariposa, a sede, tudo sou eu, gritando para outros eus.


Poema de Brunno Vianna e Débora Zambi





Débora, que é integrante da Academia de Letras e Arte de São João de Meriti, lançou em 2019 o livro Metamorfose Poética, que pode ser encontrado no site da Editora Metanoia: https://loja.metanoiaeditora.com/deborazambi. Enquanto Brunno Vianna lançou em 2020 Cartas Para a Cidade, livro de contos e crônicas disponível no site do Clube de Autores: https://clubedeautores.com.br/books/search?where=books&what=Cartas+para=a=cidade. O autor também disponibiliza o e-book do livro a todos que entram em contato pelo Instagram @brunnoviannarj. Além de fazer lives sobre Literatura ele mantém o Instagram @espelhodeleituras à disposição de todos os autores que quiserem divulgar seus livros e textos.

Esse poema foi criado em uma delas.



segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Dois poemas de Tassio Ribeiro

 


Raro, seu olhar castanho escuro

Sobre o muro que corta a cidade.

Cinza, cor do tempo, neste lugar

vazio de poesia, flores, árvores.

Tudo mudo, e você aqui observando

O silêncio contínuo

Que insiste em mostrar 

Nada além do tempo

Que passa sem nada

No seu devido lugar


* * * 


Meu pai engraxou os sapatos.

Um hábito antigo que aprendeu

No passado. Pegou seu casaco

E foi para o trabalho, onde era

Um operário. Trabalhava

O dia todo; levava a marmita,

E o café. Minha mãe cuidava

Da casa, e dos meus irmãos.

O seu salário quase não supria

As necessidades da casa.

Mas fazia o que podia, para

Garantir o sustento. E a sua maior

Virtude era a poesia, que fazia

Nas raras horas vagas. Dizia que

Tudo é uma questão de tempo e 

Paciência. E o sorriso já amarelo,

Acalentava a todos, que via sua

Fibra, no corpo franzino, boca de menino, e a coragem de um leão.




Tassio Ribeiro





sábado, 13 de junho de 2020

Pó ética + gif poema

Ir go pra quem não sabe, além de um anagrama do meu nome, é um pleonasmo bilíngue, tipo "short curto", o que não quer dizer absolutamente nada.
Pra quem acha que trocadilho não é matéria pra poema, fique à vontade ou com vontade aí no seu vanguardismo marginal, sua alta filosofia ou seu super intelecto supracadêmico, querendo dizer absolutamente tudo.
Enquanto vocês se importam demais na lucidez da crítica. Eu me exporto mais na ludicidade da vida.
Como quem curte um som, fazendo malabarismos com vibrações acústicas, arte também chamada de música.
A vocês, todas as honrarias e profundidades da eternidade artística.
Eu fico de boa na efemeridade da superfície ávida e vívida.

Prefiro
ferir
rir
ir
i
!
Sempre
a palavra poderá ser quebrada
Pá e lavra
que brada
nas lavras do dia ah dia
Talvez eu encontre
um bruto diamante
ou quem sabe, a brutal:

p o e s i a

{ ir go }





diOli

quinta-feira, 4 de junho de 2020

terça-feira, 26 de maio de 2020

"Se doer coloque gelo"

Se doer coloque gelo
E um filtro no cabelo.
Sente-se ereta
Às 14.00 quando
O sol der as caras
Pela rede da janela
Mostre a barriga
Sintetize
Seja liquido
Passe o sol nas axilas
Deixe a virilha exposta
Não tem vizinho
Tome um taça de vinho
Ouça canções bregas
Ou o tipo que você gosta
O tempo está frio
O dia nunca esteve
Tão azul
Mistura as estações
Faça café
Molho de pimenta no pão
Frite o ovo
Lave o edredom
Use Vick
Use meias desiguais
Cuidado com o açúcar!
Isso marca sua cara
Envelhece; não de forma legal
Passe batom, ou cacau
Nívea creme
E sonrisal.
Desodorante corporal
Pouco sal.
Enfim.
She's going.



Valéria Duarte

terça-feira, 19 de maio de 2020

Dias de Pentecostes

Chegando o dia de Pentecoste,

chega o dia hoje, chega o dia ontem, chega o dia amanhã, nas ruas chega o dia, nas praças chega o dia, no meio do boteco, chega os dias como chegam os dias de menstruação e da morte, chega os dias nas padarias e supermercados, chega o dia fora do mercado, chega o dia na sarjeta dos bolsos, chega o dia depois de alguns nojos, chega o dia na capital do Espírito Santo, chega o dia em jardim América, Cariacica e Vilha Velha, chegando o dia de tantos, chegando o dia de pentecoste

estavam todos reunidos num só lugar.

estavam todos atoas e sincer0s num só espírito, estavam todos trabalhando num mesmo espírito. estavam as mulheres, os estrangeiros, os pobres, os príncipes convidados e os cavalos dos príncipes, estavam as pedras dos montes e a sujeira dos pés dos viajantes, estavam os doentes, palestinos, israelitas, estavam os empresários, os empregados, os desempregados, estavam os forasteiros e os brasileiros, estavam os negros, os pobres, os brancos, os mestiços, os latinos e os americanos, estavam as crianças e as brincadeiras de crianças, estavam os ladrões gente de bem gente ladrões bem, estavam os crentes e os curiosos, os interesseiros e os famigerados políticos, estavam os ausentes e os preenchidos, as anônimos e os estranhos, estavam os discípulos de Jesus e as testemunhas de Jeová, estavam todos num só lugar

De repente veio do céu um som,

De repente veio do céu uma bomba, veio do céu uma guerra, veio do céu uma união e uma separação, veio do céu as aves migratórias, veio do céu uma canção divina, veio do céu um anjo em forma de demônio, veio do céu a expulsão, veio do céu um filho, veio do céu o sentimento do trovão, veio do céu uma agitação, veio do céu o apocalypse e a voz de Deus criando o mundo, veio do céu uma banda de instrumentos tocando funk, ópera e heavy metal, outros estilos, veio do céu uma afinação, veio do céu um som

como de um vento muito forte,


como de um sopro de vida, como de uma respiração boca-boca, comode um beijo virgem de Cristo, como de uma brisa forte para empinar pipa, como de um ciclone a quebrar as praias e as cidades, como uma mãe em maremoto, como um ventilador de parede ao extremo, como de vidas voadas, como de uma tempestade de verão, como de um secador de cabelos, como de uma balão estourando, como de um furação, como de um vento muito forte

e encheu toda a casa na qual estavam assentados.

no qual estavam descansados, no qual estavam dormindo, no qual estavam comodismo, no qual estavam em posição de agachados, no qual estavam intactos, no qual estavam inoperantes, no qual estavam budistas e islâmitando, no qual estavam prostados como pedras, no qual estavam abandonados sobre si mesmo, no qual estavam imóveis, no qual estavam estavam prespreocupados, e encheu toda a casa no qual estavam assentados

E viram o que parecia línguas de fogo,

o que parecia línguas de enxofre, o que parecia a boca de fogão acesa, o que parecia o idioma dos oprimidos e dos oprimentes, o que parecia setas queimando no ar, o que pareciam bambolês azuis e amarelos, o que parecia a íngua que dá nos humanos, o que parecia um pedaço de pano rasgando-se, o que parecia a visão dos varões nas assembléias de Deus, o que parecia o surrealismo de Dali e o inferno de Dante, o que parecia uma obra barroca derretendo-se, o que parecia a dominação do vermelho, e viram o que parecia línguas de fogo

que se separaram e pousaram sobre cada um deles.

Os pentecostes El Greco
e cada um deles. e pousaram como pássaros que encontram refugio, e pousaram como quem pula de para-quedas, e pousaram como quem não tem casa e descansa nas favelas, e pousaram como uma folha quando cai da arvore, e pousaram sobre cada cabeça abaixada e levantada, e pousaram sobre as costas dos que já não se levantam, e pousaram sobre os que não eram concursados, e pousaram sobre os que eram santos e pecadores, e pousaram sobre os viúvos e recém-casados e pousaram sobre os solteiros e os despreparados, e pousaram sobre os menos atraentes, gordos, estranhos, fora dos padrões de sansão, e pousaram sobre os que eram diversos e vários, sobre os que estavam distante de Deus e sobre os que deixaram de assistir o programa do Silas Malafaia, pousaram sobre os gringos, pousaram sobre cada um do gueto, da periferia, do medo, pousaram 

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava.

 And they were all filled with the Holy Ghost, and began to speak with other tongues, as the Spirit gave them utterance. 

Y fueron todos llenos del Espíritu Santo, y comenzaron a hablar en otras lenguas, como el Espíritu Santo les daba que hablasen.

(Atos 2: 1-4)

Clélio Souza



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Sou um com o mundo

Sou um com o mundo,
Isto é, também jazo
em leitos ignorantes
tal e qual os pensamentos
ao meu redor
Jazem de ignorância.

Quero morrer na noite
Quando tudo virar pizza,
Ou picanha na brasa.
Essa eu quero mal passada,
sempre.

E agora o aguardado momento:
De ver o pau cair as folhas,
tudo em questão de segundos.
amargo sorriso de língua

Pode ser C.P.I
Churrasqueira acesa 
Pipoca no microondas
Na manteiga tudo desliza
Fácil até demais.

Não me importam 
Esses engravatados
Desde que me sirvam, tudo bem.

Eduardo Guimarães


                                                      Foto: Vinicius Tobias

sexta-feira, 27 de março de 2020

Nada como o tempo - para matar

NADA COMO O TEMPO
para matar

como o tempo

( e não há nada
                   para saciar )

de cá a rotina
      o dia a dia
      para passar

Prezado prazo,
venho através deste
                                   comunicar:

ESTOU PRESO!
                            em cada medo
                            em cada dado
                            em cada dedo

Desatenciosamente,

_________
               Igor

(sigo como cínico ouvinte
o ritmo algorítmico
dos anos 2020)

Caro contrato,
estou inconsciente
mas quero continuar

exposto como uma fratura
 :

"É NECESSÁRIO
ASSASSINAR AS
ASSINATURAS ! ! !"

matar o tempo, sim
sem deixar impressões

                     digitais
                     manuais
                     editoriais

Quedar a vida inteira
caído como cachoeira

imitar o mito do vento
trespassar transparente

COMO O TEMPO
nada para passar

sigo o silêncio com o olhar:
uma bactéria florida

o sol e sua solidão espacial
sua melancolia de nunca ver o dia

entediado em sua escravidão
               gravitacional

rotações translações como
prótons                    nêutrons

sonhando fugir de seu giro
N     U      C     L    E     A     R

como eu . . . nesse tédio trágico
t e m p o f á g i c o

encaro o cotidiano
pleno de planos

de explodir o mundo
de construir o futuro

de tornar toda folha vazia
um           lugar         seguro

Mas isso tudo pode esperar . . .
por ora:

               preparar
               apontar
               e atirar

Afinal, nada como o tempo para

(se) matar.

( ir go - Igor Alves)

domingo, 1 de março de 2020

Ijaci Alagada

Ijaci é muito pequena
E tem muitos poucos símbolos cívicos
Numerá-los? Pra que?
Precisaria de apenas três versos
Talvez menos
Mas tem muitos pontos cardeais
Nos quais os corações - dos religiosos e dos maconheiros
Podem se ancorar, e alçar vôos de sonhos
É notável sua potência mineral
E apesar da represa afogando
      o rio sobre o qual repousava a lua
Pedras grandiosas guardam sua soberania
A pedra do bugio
Que privilegiadamente vejo pela janela
E a gruta de Santo Antônio
Alagada até a metade
Na qual a permanência do santo fujão
Garantiu a exigência de uma passarela
Essas pedras, uma por seu formato de obelismo
E outra por guardar a sagrada imagem
Mantém seu corpo mineral, embora esquartejado
A erguer-se em direção ao céu noturno
À lua cheia
Através da água agora má, agora parada
Um dia choverá o bastante, e Jaci
Recuperará seu rio da hidra-elétrica
Disso eu tenho a certeza
                          -nesse dia todos estarão casados



Vinicius Tobias
1/03/2020 - aniversário de Ijaci







sábado, 29 de fevereiro de 2020

Big Pupa: Raisa Faetti e o Direito Orgânico



Estamos vivos, todos nós. Constituídos, risomados e fluidificados na fauna e na flora - também nas condições físicas que permitem que a vida continue a pulsar por aí, nos desejos humanos, estamos a crescer, a multiplicar, a matar, a escarnear: sempre em direção à luz, ao verde ou ao sangue. Assim é a poesia de Raisa Faetti repleta de luz, exoesqueletos, verde e sangue. Cheio de vida. Raisa conclama o "direito orgânico", como diz em seu poema "Gerra dos Torrões" abaixo. Propõe uma tradução entre as lógicas físicas e químicas da fauna e flora em uma lógica semântica da palavra-enzima. O resultado é uma espécie de concretismo orgânico, onde fungos, mamíferos, insetos, crianças, velhos, amantes, ambientes e enfim todos aqueles seres cuja relação é constituída por instinto e pó contribuem com uma indexação quase cientifica de seus traços semióticos. O clima de sua poesia responde exatamente ao bioma que habita a poeta: não o colorido, quente e super saturado das florestas tropicais, mas o árido, profundo, misterioso e super-específico Cerrado. Como uma bióloga do sentido guarda com astúcia suas espécimes em versos, preservando o que ainda há de expressão mental do Cerrado - o bioma mais ameaçado, mais misterioso e mais antigo do continente. Esquisito, super-específico, revelador, pequeno e torto e com raízes super-profundas a poesia de Raisa guarda um manancial sob a aridez propondo ainda o ver e o sentir do ambiente, da poesia, da fauna e da flora: observa os animaizinhos enquanto desaparecem. 


A pedra, de Raisa Faetti


GUERRA DOS TORRÕES


Quando a terra quente
deste brejo urbano
ficou exposta e secou
as crianças correram
para reclamar ao dono
seu direito orgânico
da exploração da área

Declarou-se a Guerra dos Torrões
punhados de frutinhas
roubadas no mato
deixavam os dias
mais adstringentes
e sustentavam as horas
dos soldados em batalha

Prenderam os insetos 
em caixinhas de fósforo
para futuras pesquisas
sobre seu potencial bélico
enquanto os últimos girinos
capturados com armas de cozinha
viravam munição

O pelotão tomou a casa abandonada
À noite ouvia-se o tropel
tudo se apertava:
coração, pernas e calor
Até os cães latirem
para alguma coruja inocente
que logo era bombardeada

Ao fim de treze anos 
a rua inteira e as fachadas
todas destruídas
houve uma reunião com 
a alta cúpula dos soldados
e a cansada diligência dos pais:
Era chegada a hora do banho

***

PALEOZOICO

Há um embargo antigo
no banho de lavadeira
que confunde o horizonte
e todo animal se arrepia

***

CORTEJO

O cortejo passando
lixivia estruturas
pinga resistência

O cortejo confunde
intermitências
resiste pela metade

***

CAÇADA

de cima do jirau
ecos de furou panela!
e o bicho-estanque passa
assim como um peixe
pula entre árvores
uma leve gastura

***

PANTANAL

Na fronteira mais ao
teiús descorados
e o restante dos bos
metabolizam

paus pretos virados no chaco
cachimbam a mesma torção

***

MARCENARIA

Pausa na leitura
eu, esticada no sofá
penso em você:
como deve ser bonita a execução
do ofício santo da marcenaria

Fico desejando ser
fina e reta
a tábua que você alisa
calcula e esquarteja

Nessa hora da luz do dia
tomar vinho na taça do freguês
transformar em peça de deboche
a acabar com o cristo marceneiro burguês

Olho para o livro novamente
e para a ponta dos dedos:
você vai adorar 
o meu esmalte preto


***

ISLERO

"No perder de vista al toro"

Mesmo que seja rombo
o animal que pasteja
é preciso sangrá-lo
com o cheiro antigo
da morada limpa

Assim como numa igreja
o que mancha a roupa
do fiel imprudente
é a parede recém caiada
e não o santo empoleirado

***

CENA DE TERROR I


Pegaram os três
mas um estava em ovo ainda
este foi só trincar

o restante tentou se defender
com os ...
_É difícil saber.

Mas depois acharam 
as orelhas e um rabo
no outro lado da linha.





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