-Já reparou, Emília, como é bem arrumado esse reino? Uma verdadeira maravilha de ordem, economia e inteligência! Estive no quarto das crianças. Que gracinha! Cada qual no seu berço de cera, com pernas e braços cruzados, todas tão alvas, dormindo naquele sono gostoso... O que admiro é como as abelhas sabem aproveitar o espaço. Como sabem economizar a cera, tudo dispondo de modo que a colmeia funcione como se fosse um relógio. Ah, se o nosso reino também fosse assim... Aqui não há pobres nem ricos. Não se vê um aleijado, um cego, um tuberculoso. Todos trabalham, felizes e contentes.
— Isso não! — contestou a boneca. — O besouro é aleijado e pede esmolas.
— Besouro não é abelha, boba. Estou falando das abelhas.
— E quem manda aqui? Quem é o delegado? – perguntou Emília.
— Ninguém manda — e é isso o mais curioso. — Ninguém manda e todos obedecem.
— Não pode ser! — exclamou a boneca. — Quem manda há de ser a rainha. Vou perguntar. e chamou uma abelha que ia passando.
— Faça o favor, senhora abelhinha, de nos dar uma informação. Quem é, afinal de contas, que manda neste reino? A rainha?”
— Não senhora! — respondeu a abelha. — Nós não temos governo, porque não precisamos de governo. Cada qual nasce com o governo dentro de si, sabendo perfeitamente o que deve e o que não deve fazer.
Nesse ponto somos perfeitas.
Narizinho ficou admirada daquelas idéias, e viu que era assim mesmo. “Que pena que também não seja assim na humanidade!”
— De manhã saímos todas — continuou a abelha — cada uma para o seu lado, a fim de recolher o mel das flores e o pólen. É disso que nos alimentamos. Depois guardamos o mel nos favos. Se há consertos a fazer, qualquer uma de nós os faz sem que seja preciso ordem.
As Reinações de Narizinho - Monteiro Lobato
E sinto - 'eu' para mim é pouco.
Vladimir Maiakovski
