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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mãe dos Budas, Rainha do céu, mãe do sol; Marici, Deusa do amanhecer

Ao monge Ghosananda


 porca velha na lama

negros pêlos endurecidos

abaixo do pescoço poderoso


patinhas remexendo

corpo agachado escorregando

fundo na lavagem


sua morna imundície,

fuçando tudo,

tetas arrastando


os que a criam

ou a comem

são proscritos


ela levanta o olhinho

da terra pra

me encarar.


Gary Snider

Nalanda, Bihar

Retirado do Livro Re-habitar

Azougue Editorial, 2005




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Han Shan: Cronicas do mestre dos vagabundos do dharma sem fazer nada na Montanha Gelada


As Montanhas Tientai são meu lar
Entre trilhas cobertas de nevoeiros em meio a nuvens
Isso mantém os hóspedes longe
Penhascos de mil metros fazem se esconder fácil
Acima de uma quina rochosa entre dez mil córregos
Com um manto de cânhamo e bastão de caruru eu contorno os picos
Enxergado além da impermanência e ilusão
As alegrias de vagar livremente são maravilhosas



              ***



Minha verdadeira morada está na Montanha Fria
Empoleirado nos penhascos além do alcance dos problemas
As imagens não deixam impressões quando se vão
Eu vagueio por todo o universo daqui
Luzes e sombras dançam em minha mente
Nem só um dharma aparece diante de mim
Desde que achei a pérola mágica
Posso ir a qualquer lugar, qualquer lugar é perfeito



             ***


Ontem subi até o cume
E fitei para baixo de um penhasco profundo
Uma árvore se tombava na quina
O vento desnudou seus dois membros
A chuva arrancou suas folhas
O sol a secou como o pó
Ai de mim que uma coisa verdejava tanto
É agora uma pilha de cinzas


             ***


Toda minha vida preguiçoso demais para trabalhar
Favorecendo o leve sobre o pesado
Outros tomam para si uma carreira
Eu seguro um sutra
Um rolo de papel com nada dentro
Eu o abro onde quer que esteja
Para toda doença tem uma cura
Cura com qualquer coisa funciona
Uma vez que você não tenha um plano
Onde quer que vá está alerta


             ***


Desde um elevado pico da montanha 
A vista se estende para sempre 
Sento aqui desconhecido
A lua solitária ilumina a Montanha Fria
Na primavera não há lua
A lua está no céu
Canto essa cantiga única
Uma canção na qual não há Zen



*Han Shan (Montanha Gelada) é um poeta mítico do zen que viveu entre os séculos VII ou VIII
**Tradução de Marcos Beltrão, download




*A pergunta que Han Shan faz é a seguinte: Quem é o homem que subirá a montanha gelada e virá ter comigo?



    "'Alvah, o seu problema é que você não pratica seu zazen noturno o bastante, principalmente quando faz frio lá fora, o que é muito melhor, além disso você deveria se casar e ter filhos mestiços, manuscritos, cobertores feitos em casa e leite materno sobre o seu tatame alegre e esfarrapado como este aqui. Arrume uma cabana para morar no mato não muito longe da cidade, gaste pouco para viver, enlouqueça em um bar de vez em quando, escreva e caminhe pelas montanhas e aprenda a serrar tábuas e converse com velhinhas, seu grande tolo, carregue muita madeira para elas, bata palmas em altares, consiga favores sobrenaturais, faça aulas de arranjos florais e plante crisântemos ao lado da porta, e se case pelamordedeus, arrume uma moça humana gentil, inteligente e sensível que não liga para os martinis de toda a noite nem para todo aquele maquinário branco na cozinha'
     'Ah', diz Alvah, sentando-se todo contente; 'O que mais?'
   'Pense nas andorinhas do celeiro e nos falcões da noite enchendo os campos. Sabe, Ray, desde ontem traduzi mais uma estrofe de Han Shan, ouça: "A montanha gelada é uma casa, sem pilastras nem paredes, as seis portas à esquerda e à direita estão abertas, o corredor é o céu azul, os quartos estão vagos e vazios, a parede leste bate na oeste, no meio não tem nada'. Pessoas que tomam coisas emprestadas não me incomodam, no frio armo uma fogueirinha, quando tenho fome cozinho algumas verduras, não tenho o que fazer com o cúlaque com seu celeiro e seu pasto extenso... ele só constrói uma prisão para si mesmo; uma vez lá dentro, não consegue mais sair, pense bem, isso pode acontecer com você."

      *Trecho de Os Vagabundos iluminados onde Jack Kerouac reproduz, em meio à bebedeira, um discurso  de Gary Snyder (no livro Jalphy Ryder), o beatnick zen anarquista e tradutor do Han Shan.



                      *pic: Gary Snyder no Japão, 1963, em foto tirada por Allen ginsberg


  

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Poucas coisas são piores que tarde demais - Bukowski -

Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos...

Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.



Oh Yes


there are worse things than

being alone

but it often takes decades

and most often 
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than 
too late


*O documentário "Born Into This" é dos melhores já feitos sobre um escritor. Vale a pena passar esse tempo com o velho Buk.

"Que tempos penosos foram aqueles anos - ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade."

to realize this

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resmungo confuso e gutural de um homem que leu demais - Carl Solomon

                              Kafca,
                              Strindberg,
                              Jack London,
                              Gogol,
                              Mike Gold,
                              Edward Everett Hale,
                              Heywood Broun,
                              Westbrook Pegler,
                              Jacques Vaché,
                              Henri Miler,
                              Stalin,
                              Mao Tsé-Tung,
                              Hitler,
                              Mussolini,
                              William Buckley,
                              Lawrence Ferlinghetti,
                              Estes e muitos outros

             E o que eu ganhei em termos de sabedoria universal?
             Nada.

             A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que a gente encontra no metrô... é óbvio que é só um meio de matar o tempo, um assunto para conversa. Estou entregando o jogo?
             Mas não se pode dizer isso de qualquer coisa... o beisebol, tantas bolas rebatidas? Onde está o que eu procuro? E eu estou procurando alguma coisa?
            Digamos: eu leio para manter minhas mãos ocupadas... para não me masturbar.
            Sou possuído pela linguagem e não tenho nada a dizer.
            Porque não colecionar selos, piadas sujas ou trocadilhos?
            Beber intermináveis chicaras de café ou entrar em um concurso de comedores de tortas é quase a mesma coisa.
            Eu estou um pouco desapontado com Ferlinghetti. O verdadeiro Dada deveria ter atravessado a Rússia no lombo de um cavalo.



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