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terça-feira, 29 de abril de 2014

2 Sonetos de Bocage

Morres de fraco? Morres de atrevido

Aflito coração, que o teu tormento,
Que os teus desejos tácito devoras,
E ao doce objeto, às perfeições adoras,
Só te vás explicar co(m) pensamento.

Infeliz coração, recobra alento,
Seca as inúteis lágrimas, que choras;
Tu cevas o teu mal, por que demoras
Os vôos ao ditoso atrevimento.

Inflama surdos ais, que o medo esfria;
Um bem tão suspirado, e tão subido,
Como há de ganhar sem ousadia?

Ao vencedor afoute-se o vencido;
Longe o respeito, longe a cobardia;
Morres de fraco? Morres de atrevido.


*pic, reprodução: A corça ferida (Frida Kahlo)



Meu ser evaporei na vida insana

Meu ser evaporei na vida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube. 

domingo, 29 de abril de 2012

Rascunho a uma negação do futuro - Paco Bernardo

Porque sendo a vida nada,
a morte também é nada.
E fios que chiam e gente que debate
e gente que diz o que está lendo e o que
A quis dizer com B, e qual o contexto histórico que o circunda
e como C é fruto de toda uma condição favorável para que C fosse C
ao invés de ser uma porra qualquer à esquerda. Qual ele mesmo que fala.
Isso sim
minha filha
é conformismo.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Há metafísica bastante em não pensar em nada? - Alberto Caeiro



Há metafísica bastante em não pensar em nada. 

O que penso eu do mundo? 
Sei lá o que penso do mundo! 
Se eu adoecesse pensaria nisso. 

Que ideia tenho eu das cousas? 
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? 
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma 
E sobre a criação do Mundo? 
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
E não pensar. É correr as cortinas 
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos, 
Começa a não saber o que é o sol 
E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
Mas abre os olhos e vê o sol, 
E já não pode pensar em nada, 
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
De todos os filósofos e de todos os poetas. 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? 
A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
A nós, que não sabemos dar por elas. 
Mas que melhor metafísica que a delas, 
Que é a de não saber para que vivem 
Nem saber que o não sabem? 

«Constituição íntima das cousas»... 
«Sentido íntimo do Universo»... 
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
É incrível que se possa pensar em cousas dessas. 
É como pensar em razões e fins 
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. 

Pensar no sentido íntimo das cousas 
É acrescentado, como pensar na saúde 
Ou levar um copo à água das fontes. 
O único sentido íntimo das cousas 
É elas não terem sentido íntimo nenhum. 

Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
Sem dúvida que viria falar comigo 
E entraria pela minha porta dentro 
Dizendo-me, Aqui estou! 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, 
Não compreende quem fala delas 
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 

Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar, 
Então acredito nele, 
Então acredito nele a toda a hora, 
E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 

Mas se Deus é as árvores e as flores 
E os montes e o luar e o sol, 
Para que lhe chamo eu Deus? 
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
Sol e luar e flores e árvores e montes, 
Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
E luar e sol e flores, 
É que ele quer que eu o conheça 
Como árvores e montes e flores e luar e sol. 

E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
Como quem abre os olhos e vê, 
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
E amo-o sem pensar nele, 
E penso-o vendo e ouvindo, 
E ando com ele a toda a hora.



Alberto Caeiro




**imagens: Magritte e Dali

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Quadras ao gosto popular - Fernando Pessoa

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não
Tal qual nos outros dias.

***

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!

***

Deixas-te cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada

***

O papagaio do paço
Não falava - assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.

***

Rezas a Deus toda noite
Pedindo não sei o que
Se rezasses ao demónio
Calcularia o que é

***

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer,
Que não sei para onde vou


*** *** *** *** ***

*pic: Van Gogh

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sobre a Revolução - Paco Bernardo



I

Não
não quero revolucionar porra nenhuma.
Antes eu até tinha um grito aqui dentro
ao som de Usé e uns trabalhadores com
foices nas mãos que gritavam yeahhhhh
(não as foices, os trabalhadores
- os trabalhadores gritam yeahhhhh
com foices nas mãos).
E iam invadir e matar burguês.
Bota foto no burguês.
Bota fogo no cristão.
Vou dar porrada no presidente.
Bota fogo na nação.

Mas olha para essa gente,
olha para esse povo. Não
é uma revolução que mudará o
homem e, feita revolução,
ficarão os contrários a ela
marginalizados. Não podemos
fazer revolução nenhuma.
A revolução, para ser revolução,
deve ser feita sempre, sempre
a destruir a ordem vigente, independente
da qual seja. Deve seguir como uma
linha reta, sempre em frente,
desestruturando sempre a política (qualquer que seja)
e a economia (qualquer que seja)
e a sociedade (qualquer que seja).
Ou, caso contrário, não haverá revolução,
e nós, libertários, para bem do homem
que nos odeia, devemos fundar nossa
comunidade – e a revolução deverá
ser somente para que sejamos
idnependentes, livres de nação, lei, moral.
Nossa comunidade é nossa revolução.

 II
 
Não
não quero revolucionar
merda nenhuma.
Faz pensar que o mundo
ainda tem coisa
e que tem coisa ainda no mundo.


*atual politica do PT mostra em que desaguou nossa revolução! (PODER)
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