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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mãe dos Budas, Rainha do céu, mãe do sol; Marici, Deusa do amanhecer

Ao monge Ghosananda


 porca velha na lama

negros pêlos endurecidos

abaixo do pescoço poderoso


patinhas remexendo

corpo agachado escorregando

fundo na lavagem


sua morna imundície,

fuçando tudo,

tetas arrastando


os que a criam

ou a comem

são proscritos


ela levanta o olhinho

da terra pra

me encarar.


Gary Snider

Nalanda, Bihar

Retirado do Livro Re-habitar

Azougue Editorial, 2005




sábado, 31 de março de 2018

Conheça William Carlos Williams

*Tradução de José Paulo Paes

A uma velha pobre


mascando ameixas pela
rua um saco de papel
cheio delas na mão

Elas lhe parecem saborosas
Elas lhe parecem
saborosas. Elas
lhe parecem saborosas

A gente pode ver isso
pelo jeito dela
se concentrar na fruta
meio chupada

Satisfeita
um gosto de ameixas maduras
como que enchendo o ar
Elas lhe parecem saborosas


* * * 

O lavrador


Perdido em pensamentos o 
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março - 
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia 
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista


*  *  *

Nada ter feito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da 
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma 
infinidade de
combinações

envolvendo os 
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo 
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer perfeito


* cena de Paterson, filme de Jim Jarmusch
composto sob forte signo do poeta
William Carlos Williams

sábado, 1 de novembro de 2014

Três Convites de Entrada

  

*Comentário dos auto retratos: Na primeira foto o espectador adentra seu corpo. Somos objeto de seu olhar. Além disso, a madeira da cama é um objeto fálico entre suas pernas. Dando virilidade e feminilidade ao corpo como a boca e tromba de uma deusa hindu. Na segunda fotografia há quatro mulheres. Duas dentro do espelho, a narcísica e a fotógrafa. 4, a simetria do número par é muito sensual. Seu corpo é como "O Violino de Ingres", olhar de Man Ray sobre a "Banhista de Valpinçon" -  claro, esta mulher atende aos padrões de beleza de nossa época, ao contrário das gordinhas do neoclassicismo, mas é tão artística quanto elas. se a arte tem a capacidade de se presentificar eternamente - ou não - confesso não saber a diferença entre a imagem de seu corpo real e seu corpo artístico. O corpo real talvez seja tão eterno quanto esta fotografia moderna neoclassicamente. O mais grandioso nesta segunda obra de arte é a quebra do lugar comum com o riso e a ampliação do ambiente pelo espelho que dialoga com a janela, perdendo assim a identidade de espelho. O cenário também diz muito. É seu quarto? Livro, nudez e janela. Três convites de entrada.
-Voyer Cego



Uma mulher espera por mim
Walt Whitman

Uma mulher espera por mim, nela tudo se contém, não falta nada,
No entanto faltaria tudo se lhe faltasse o sexo ou a umidade do
                 homem certo.

Tudo se contém no sexo, corpos, almas,
Significados, provas, purezas, delicadezas, proclamações, efeitos,
Ordens, canções, higidez, orgulho, o mistério materno, o leite
                  seminal,

As esperanças todas, bens, outorgas, todas as paixões, belezas,
                  amores, os deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, o cortejo das pessoas da terra, 
Tudo se contém no sexo como partes de si e justificações de si.

Sem pejo o homem de quem gosto sabe e confessa as delícias do sexo,
Sem pejo a mulher de quem gosto sabe e confessa as delícias do sexo.

Pois eu me afasto das mulheres insensíveis,
Para ficar com a que espera por mim, e com as mulheres de sangue
                   quente que me satisfazem,
Eu vejo que elas me compreendem e não me repudiam,
Vejo que são dignas de mim e eu serei delas o marido vigoroso.

Essas mulheres não são em nada inferiores a mim,
Têm o rosto tisnado pelo brilho dos sóis e pelo sopro dos ventos,
Há na carne delas, antigas e divinas, agilidade, força,
Elas sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, bater
                  recuar, avançar, resistir, defender-se sozinhas,
São supremas por direito próprio - são calmas, límpidas, donas
                  de si mesmas.



**Trad, José Paulo Paes      




domingo, 5 de fevereiro de 2012

Poucas coisas são piores que tarde demais - Bukowski -

Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos...

Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.



Oh Yes


there are worse things than

being alone

but it often takes decades

and most often 
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than 
too late


*O documentário "Born Into This" é dos melhores já feitos sobre um escritor. Vale a pena passar esse tempo com o velho Buk.

"Que tempos penosos foram aqueles anos - ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade."

to realize this

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um Corvo para soltar as Bruxas - Edgar Alan Poe

*trad: Machado de Assis

*Você já teve uma noite de Terror?


O Corvo


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."


Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.


E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."


Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.


Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.


Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."


Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.


Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".


Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".


No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"


Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".


Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".


Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.


Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".


“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".


“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."


“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".


E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resmungo confuso e gutural de um homem que leu demais - Carl Solomon

                              Kafca,
                              Strindberg,
                              Jack London,
                              Gogol,
                              Mike Gold,
                              Edward Everett Hale,
                              Heywood Broun,
                              Westbrook Pegler,
                              Jacques Vaché,
                              Henri Miler,
                              Stalin,
                              Mao Tsé-Tung,
                              Hitler,
                              Mussolini,
                              William Buckley,
                              Lawrence Ferlinghetti,
                              Estes e muitos outros

             E o que eu ganhei em termos de sabedoria universal?
             Nada.

             A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que a gente encontra no metrô... é óbvio que é só um meio de matar o tempo, um assunto para conversa. Estou entregando o jogo?
             Mas não se pode dizer isso de qualquer coisa... o beisebol, tantas bolas rebatidas? Onde está o que eu procuro? E eu estou procurando alguma coisa?
            Digamos: eu leio para manter minhas mãos ocupadas... para não me masturbar.
            Sou possuído pela linguagem e não tenho nada a dizer.
            Porque não colecionar selos, piadas sujas ou trocadilhos?
            Beber intermináveis chicaras de café ou entrar em um concurso de comedores de tortas é quase a mesma coisa.
            Eu estou um pouco desapontado com Ferlinghetti. O verdadeiro Dada deveria ter atravessado a Rússia no lombo de um cavalo.



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