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domingo, 16 de julho de 2017

Formato de dissertação cria polêmica na internet e serve como mote para a desqualificação programada que as ciências humanas vêm sofrendo: fizemos o que nenhum blogueiro fez, conversar com o autor.

por Vinicius Tobias




Em tempos forte crescimento do ódio generalizado, de assassinatos de ativistas ambientais, de notícias falsas e relativização das leis na justificativa de operações políticas uma coisa choca profundamente certos blogueiros: uma dissertação que pensa o mundo a partir de sua forma.
A descoberta por parte do estudante de filosofia Alysson Augusto da dissertação de mestrado: "Uma educação esquizita. Uma formação bricoleur processo ético e estético e político e econômico", do ator, performer, mestre em educação e atualmente doutorando em Educação e Professor substituto do curso de Teatro da Universidade Federal de São João del-Rei, Tarcisio Moreira Mendes.
Alyson Augusto publicou uma primeira matéria no site Universo Racionalista onde fazia uma leitura pouco séria da dissertação. Além de não levar o referencial metodológico em conta nas suas considerações, mostra desentendimentos que possivelmente não houveram: como achar um absurdo páginas soltas escritas à mão no corpo do trabalho, deixando de lado o fato de que essas atividades feitas na escola eram justamente o objeto de pesquisa ao qual aplicaria a esquizoanálise, um método inspirado nos escritos do filósofo francês Gilles Deleuze e do psicanalista Félix Guattari.
Essa primeira postagem foi tomada como fonte para a publicação do blogueiro Rodrigo Constantino para que também encenasse, a partir do exemplo, a desqualificação das humanidades. E finalmente houve também outra postagem no mesmo Universo Racionalista, respondendo às pessoas que leram o trabalho e discordaram da opinião do site.
Somando-se essas matérias às disseminações em redes sociais imaginamos o estrago que está sendo feito: essa suposta "impostura" (acharam um acadêmico em quem se apoiar diante da grandeza do desconstrutivismo de Deleuze, Sokal, que é quem emprega esse termo) é utilizada de maneira rasa para alimentar o senso comum de "doutrinação marxista" e de "vale tudo". Ou seja, utilizam esse exemplo para a desqualificação e perseguição das humanidades, disciplinas que invariavelmente elevam o debate político pelas suas implicações sociais e não apenas de produção de tecnologia e saber sobre o mundo natural.
Essa entrevista é uma tentativa de "direito de resposta" paralelo que o blog Larvas Poesia tenta operar toda vez que vê coisa parecida rolando na internet. Confira abaixo com o autor da tão temida dissertação, aqui está Tarcisio Mendes:


Tarcisio, sua repetição da frase "You have to learn Portuguese" realmente chocou esses blogueiros. Mas acabam aí as inadequações de seu trabalho, no entanto, a apresentação do objeto de estudo foi tomada como uma séria impostura. Qual a razão da repetição no 'abstract' dessa frase, você não estava querendo sugerir nada né, nem certa realidade de colonização cultural americana que toma nossas mentalidades? Ou é só porque não sabe inglês ou não tinha cinguenta reais para pagar um colega para traduzir?


Bom, alguns pesquisadores defendem que o uso de um resumo em língua estrangeira ajudaria no compromisso com a internacionalização do trabalho. Porém, é ingênuo pensar que alguém leria um trabalho em outra língua, ou aprenderia uma língua latina a partir do interesse produzido por um abstract.
Neste trabalho, resumo e abstract são produzidos com o desejo de problematizar os constituintes de um trabalho acadêmico, assim como o resto das partes que chamamos pretextuais. Neste sentido, o que você põe como questão é inteiramente relevante para o âmbito de produção do trabalho. Embora não tenha sido o desejo primeiro. E isso é outra função do trabalho: produzir questões a partir de sua leitura e não apenas pelo desejo do autor ao escrever.
É curioso encontrar ainda casos nos quais um trabalho é julgado, diferente de produzir questões ou posto em questão, apenas por uma incompreensão dos elementos pretextuais. O clássico preconceito de 'julgar o livro pela capa'. Por isso, creio que esta entrevista mais que um direito de resposta, é um direito às questões que suscitam o trabalho. Pois a obra se sustenta e é capaz de responder a todas as perguntas até agora feitas pela crítica opinativa que vem recebendo. Fica o convite a leitura de toda a dissertação. No entanto, ao que parece, não foi apenas o resumo e o abstract que causaram incômodo.
Ao longo de toda a pesquisa fui financiado por agências de fomento, totalmente adequado aos processos meritocráticos de produção científica, apeser de ser a favor das políticas afirmativas na pós-gradução. Sou muito grato a todos os contribuintes adimplentes que não sonegaram seus impostos. Por isso teria sim 50 golpinhos para pagar a tradução do resumo, se não fosse capaz de fazê-lo. Cabe ressaltar que a dissertação cumpre também seu papel de ser coisa pública ao ter seus resultados disponibilizados a qualquer interessado gratuitamente.


Pois bem, caso sim, você usou uma fórmula consagrada na arte de dizer a partir de processos. E parece que essa é uma pegada recorrente no corpo de sua dissertação, afinal, você procura a interpenetração do ético, estético, político e econômico, não é? Qual é a importância de se pensar a forma não apenas teoricamente na academia? Qual é a importância de aplicar essas reflexões?


Mais que propor uma metodologia de interpenetração entre os aspectos éticos e estéticos e políticos e econômicos, o desejo do trabalho é afirmar que toda obra é produzida a partir desse coengendramento. Não é possível produzir uma forma que não esteja totalmente implicada com uma ética, uma política e uma economia, mesmo que este coengendramento seja negligenciado em algum momento. Não por acaso que muitas opiniões rapidamente relacionaram o trabalho a certos movimentos estéticos, partidos políticos e meios de produção. Embora ele não esteja atrelado a nenhum deles.


"Não é possível produzir uma forma que não esteja totalmente implicada com uma ética, uma política e uma economia, mesmo que este coengendramento seja negligenciado em algum momento."

 É certo que a dissertação problematiza uma produção acadêmica que por vezes é produzida numa moralidade limitante, por uma política fascista, fixada numa produção clientelista do saber. E isto nada tem a ver com partido político ou movimento ideológico organizado. Creio também que uma incompreensão do trabalho foi produzida por ter em suas linhas termos como "golpe direitista", "marxismo". Atento que no momento em que o texto da dissertação fora produzida, vivíamos um governo legítimo eleito pelo voto popular. É preciso estar atento, principalmente nos tempos em que vivemos, a serviço de qual ética e estética e política e economia nossas trabalhos estão atrelados ou podem ser relacionados.


Outra coisa tomada como absurdo pelos blogueiros foi a performance encenada por você em ocasião da defesa. Ninguém se choca ao ver um nu artístico exibido no cinema ou no horário nobre da televisão, mas quando usado em uma peça performática na academia o terror toma conta dos liberais. Na performance você aparece encerrado em papéis e escritos e numa espécie de ritual de descarrego se liberta deles e fica nu ao final da performance. A performance tem ligação direta com o tema pesquisado, não? Você acha que a atitude estética tem sido desconsiderada como forma de conhecimento? Construir conhecimento também a partir do estético não seria uma forma de contemplar de forma mais integral as maneiras do saber, e não é exatamente o que esperamos de um ator?



Cabe aqui uma ressalva: a performance atacada pela crítica não foi produzida na defesa e sim no exame de qualificação, um ano antes da defesa. Sempre tem havido perseguição em relação ao corpo nu na academia, seja de arte ou não. Há pouco tempo, um aluno do Ceará denunciou perseguição sofrida dentro de sua faculdade de arte por usar em seus trabalhos como material de pesquisa o próprio corpo. Ou, há menos de um mês, o ataque que o curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Maringá sofreu pelo mesmo jornal Gazeta do Povo, que usou indevidamente imagens de uma performance de alunas do curso para tentar desqualificar mais uma vez a área das humanidades.
Neste trabalho, a performance não só tem ligação direta com o tema, como ela mesma é tema da dissertação. Inclusive, provocou a produção de um capítulo da dissertação intitulado "Nu questão de uma qualificação". Jorge Larrosa pergunta o que aconteceria se um professor vestisse um chapéu de guizos; a dissertação, a partir desta questão, questiona: e nu? Muitas opiniões produzidas nos comentários disseram que isto era aceitável para uma pesquisa na área de artes, mas na educação não. O trabalho não se pergunta apenas o que se espera de um ator nu, mas de um performer, de uma professora da educação, da arte. Que idealizações produzimos que impedem outros modos de vida? Que esperamos exatamente de uma pesquisa acadêmica, de uma pesquisa em educação? Forçar limites e pensar outros possíveis para além das moralidades é um exercício da obra.


Como foi sua avaliação pelos Professores Doutores da UFJF? A performance que apresentou fez parte da avaliação ou foi uma espécie de anexo? Você depois, ou antes, argumentou e foi questionado por eles, não? Como eles avaliaram seu trabalho?


O trabalho cumpriu com louvor todas as etapas avaliativas, composta por banca pública e especializada e aprovada pelo colegiado do Programa, como é de praxe. A performance, como dito anteriormente, fez parte do processo de dissertação, seja na qualificação, na provocação do texto ou na produção de imagens contidas no trabalho. O trabalho foi aprovado, inclusive, com destaque para a operação conceitual.
Porém, é sabido que dentro do meio acadêmico, pesquisas que não seguem os ideais das cientificidades das ditas Ciências Naturais ou da Natureza são sempre vítimas de ataques. Este trabalho não é o único. Mesmo dentro da UFJF, instituição na qual foi possível esta pesquisa, encontramos grupos que tentam desqualificar pesquisas como da área farmacêutica da homeopatia, dos estudos culturais de gênero e sexualidade, questionam trabalhos da área da Ciência da Religião, para citar alguns exemplos. Deste modo, esta dissertação não é, não foi e não será a única a sofrer ataques.


Pode explicar de maneira simplificada em que consiste a esquizoanálise, e em quais situações ela deva ser aplicada?


Qualquer coisa dita aqui que tente criar um entendimento acerca do que seria esquizoanálise corre o risco de limitar seu funcionamento, torná-la impotente. O que posso dizer é que se trata de uma prática que se põe a experimentar possíveis para a vida se fazer, que não propõe modelo, embora instigue a produzir múltiplas formas, como a dissertação que fora produzida. Propõe-se a combater os ideias a que estamos o tempo todo submetidos como a edipianização, o falocentrismo, o familismo, a neurotização das relações e a esquizofrenização da vida.
Esta empreitada de Deleuze e Guattari está disseminada nos dois tomos produzidos por eles intitulado "Capitalismo e Esquizofrenia 1 e 2". O tomo 1 é a obra "O anti-Édipo" e o tomo 2 é constituído pelo Mil Platôs, que fora traduzido para o Português em 5 volumes.


O Canadense e filósofo da comunicação McLuhan diz que "o meio é a mensagem". Isto é, que não há diferença entre forma e conteúdo, e que a forma é quase que a totalidade do discurso. Isso porque a escolha entre métodos e formas denota toda uma filosofia de mundo a ser considerada. Por exemplo, a linguagem escrita e linear se liga com a mentalidade moderna de "meios para fins" e um platonismo no sentido de uma concepção pura de "verdade". Nesse sentido a opressão também vem da forma e de nada adianta operar em argumentos se a forma continua a passar a mensagem de outra visão de mundo. Pode-se dizer que aí se encontra um viés de justificativa para suas operações na forma ao longo do trabalho?


É certo que toda forma produzida é um exercício ético e estético e político e econômico. No entanto, mais que garantias acerca de uma forma ideal, o trabalho se constitui problematizando as relações de produção. Isso porque, a linguagem escrita nem sempre estará relacionada a uma linearidade. Ou uma forma não linear não dará garantias que não se produzam relações lineares com ela. Dito de outro modo, não há garantia em nenhuma produção. Por exemplo, a crítica fez confusão com informações que a priori seriam objetivas ao questionar e clamar por uma objetividade na escrita: erra o nome do autor, confunde dissertação com tese, qualificação com defesa de mestrado. Isto é absurdo? Não. Isto mostra apenas que não há objetividade alguma na escrita.
Neste sentido, sempre temos que estar atentos para impedir relações moralizantes, fascistas, ideais e produtivistas. Estar atentos aos pressupostos que podem envenenar nosso contato com as coisas do mundo. Isto não depende de um objeto fixo, mas das relações que são produzidas com ele. É preciso estar à altura do acontecimento, isto significa abandonar sempre que possível os pressupostos moralizantes, as medidas do senso comum e os preconceitos limitantes.
Hoje não é raro encontrar pesquisadores reclamando e até adoecendo por não conseguirem se adequar a padrões de escrita e pesquisa. Alguns não encontram saídas, se sentem aprisionados, adoecem. É desejado que este trabalho seja uma pista que potencialize outros modos na diferença na pesquisa acadêmica que possa acontecer. Não um novo modelo de trabalho. E ele não é o único, ele se junta a outros tantos que vêm sendo produzidos Brasil a fora, por grupos de pesquisa como Escrileituras da Faculdade de Educação da UFRGS; Grupo Imago, da UNESP de Rio Claro ou do Grupo Olho, da UNICAMP, para ficar em alguns exemplos.
Em 1978 foi conferido o título de doutor ao pesquisador Edras do Nascimento que apresentou, em seu doutoramento em Letras pela UFRJ, não um texto padrão que se esperava, mas um romance intitulado "Variante Gotemburgo". Em 2005, a tese de Clarissa de Carvalho Alcântara, intitulado "Corpoemprocesso - Teatro desessência", foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária da UFSC; essa tese de arte da performance foi apresentada em quatro livros, junto a um texto impresso em tecido enrolado, dispostos num envelope de couro. Mais recetemente, exatamente em 2016, a tese defendida pelo professor Camilo Riani, docente da Faculdade de Comunicação da UNESP de Rio Claro, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESP de Rio Claro, foi apresentada por meio das artes Caricatas: arte-rosto-humor-experiência composta por composições visuais, telas, imagens e intervenções gráficas. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Cristian Poletti Mossi, doutorou-se pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria, produzindo a tese intitulada "Um corpo-sem-órgãos, sobrejustaposições - Quem a pesquisa [em educação] pensa que é?", na qual problematiza a pesquisa acadêmica criando uma escrita labiríntica com imagens.
Isso apenas para ficar em alguns exemplos. Não é só em Havard que aluno produz Rap como TCC. Tem muita coisa boa sendo produzida no Brasil que enche a academia de vida!


Esses blogueiros procuram perseguir trabalhos que não se encaixam no padrão, e argumentam que as humanidades são um ambiente bastante anárquico com seus participantes. Ao ler sua dissertação, entretanto, vemos que você trata de questões de cerceamento daqueles que pensam a forma dentro das instituições, também das questões midiáticas. Trata de corte de financiamentos a pesquisadores e todo o circo midiático que é formado quando alguém questiona as operações de legitimação da intelectualidade, usando, por exemplo, o caso do professor de filosofia que pergunta em prova sobre a 'pensadora' Valeska Popozuda. Há, segundo seu julgamento, uma perseguição àqueles que questionam questões centrais dos trabalhos na academia?


Problematizar é muito difícil. É muito sedutor combater um padrão impondo um outro padrão moralizante. O perigo do oprimido produzir como ressentimento ainda mais opressão. 



"Problematizar é muito difícil. É muito sedutor combater um padrão impondo um outro padrão moralizante. O perigo do oprimido produzir como ressentimento ainda mais opressão"

Uma pesquisa não deve ser constituída na produção de opinião ou na polêmica. Deleuze e Guattari ao produzirem o livro "O que é filosofia?" atentam que a filosofia tem horror às polêmicas, e que ela não é produzida através de opiniões. Um conceito não é produzido para se concordar ou não. E sim para fazer funcionar alguma coisa. Ele não serve para tudo. Às vezes ele passa ou não passa.
Este caso que problematizo na dissertação citado por você é bom para pensar estar relações. Pois defender que Valeska Popozuda é uma pensadora contemporânea é um falso problema. Ela é pensadora. A questão é como funciona isto que ela cria? Neste mesmo livro citado anteriormente, Deleuze e Guattari nos levam a pensar que não é privilégio da Filosofia produzir pensamento. O que diferencia Filosofia, Arte e Ciência seria seu modo de produção de pensamento. É um modo de combater esse pressuposto que pensar é privilégio dos filósofos. De modo simplificado, filosofia produziria pensamento através de conceitos; a ciência através de functions; e a arte através de perceptos e afectos. Assim a funkeira seria uma pensadora contemporânea que produz-se atrávez de perceptos e afectos, já que o campo que ela habita é o da arte da composição, da criação artística. A questão posta pela dupla é: o que é produzido ajuda a afirmar ou não outros modos de vida que não este imposto pela hegemonia? Por isso "My pussy é o poder" é muito mais revolucionário que apenas um "beijinho no ombro, tiro porrada e bomba".
E outra coisa que me incomodou muito e que está em outro texto da dissertação intitulado "Não somos científicos. Somos científicos. Que fazemos então!?", foi retaliação que um grupo de pesquisadores da USP sofreu ao serem acusados de não fazerem pesquisa científica ao propor o método histórico-dialético num edital de capitação de recursos da CAPES.
É preciso estar atento para que não nos tornemos fascistas ao combatermos certos fascismos.


E for fim, como foi passar por essa dramatização toda do seu trabalho na internet? Qual foi o lucro obtido?


Como disse, a polêmica e a disseminação de opiniões não ajuda muito a pensar. Pois senão ficamos apenas no "concordo ou discordo" e nada muda. Cada um fica no seu territoriozinho.
A internet como você muito bem pontuou no início da entrevista, é um ambiente muito propício para disseminação do ódio e dos fascismos contemporâneos. Desse modo, creio que o ambiente acadêmico, com todas as moralidades existentes, tem sido um território potente para problematizar e combater pressupostos, preconceitos e padrões limitantes de vida. A academia tem sido potente, em tempos tão difíceis, para produzir resistência e novos modos de vida. Bem diferente de alguns espaços da internet que, reproduzindo o jargão "liberdade de expressão", tem produzido mais clausura, violência, intolerância e ódio.
Como saldo fica os contatos com pessoas e pesquisadoras e pesquisadores que vêm produzindo ainda muita vida na academia, aliados de vida. Para citar um, a pesquisadora Fabiana Fabulosa (Fabiana Aparecida de Carvalho) que junto de seu orientando Madoxx (Claberson Diego Gonçalvez) produziram um texto belíssimo em defesa do trabalho, intitulado "Um dia a academia será deleuziana...". E não por acaso, a sua universidade sofreu recentemente um ataque do mesmo jornal por produzirem uma performance num evento acadêmico da Universidade Estadual de Maringá, que problematiza o corpo da mulher em nossa sociedade. Temos que nos mover como matilha, como um bando, para desarticular as opressões. Não estamos sozinhos.
Apesar de terem insinuado que perseguiriam a mim, inclusive no meu trabalho como professor, não ganhei ainda nenhum golpinho a mais em minha conta bancária.
A alegria é perceber que não estamos sozinhos. Sou muito grato a minha orientadora e ao Travessia Grupo de Pesquisa que só tem feito vida em mim. Agradeço ao PPGE e à UFJF pelo apoio à minha pesquisa nesse momento. Agradeço também a vocês pelo espaço dedicado às minhas questões.


pic: Está aqui a pessoa que dá uma chocalhadinha na forma e põe os liberais à beira de um ataque de nervos, Tarcísio Mendes













terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Cuspam na minha cara: a questão da legitimidade nas publicações artesanais*. - Vinicius Tobias

    Andava pelas ruas barrocas de Tiradentes, depois de sair de uma pequena espera por um sarau burguês que não começava pois estava absolutamente esvaziado com um poeta da capital e zero de público (ao contrário dos saraus que os grupos locais que eu participava organizavam na região, sempre com um um público cativo) entrei num boteco com uma amiga, pedi uma cachaça, e enquanto o  garçom servia resolvi vender meu livreto recém-lançado para um camarada, ele tinha uma pose de intelectual, alguma deficiência na mão, uma cara empolgada e vermelha e se encontrava na companhia de dois jovens bem vestidos com seus figurinos cult. Era meu primeiro zine impresso, tinha tomado cuidado em fazer um material responsa, uma vez que o 4º Capítulo da Série Intervenção Humana eram conjuntos de quadras e fotos coloridas organizadas na tentativa de causar algum tipo de catarse cognitiva por um desencaixe aparente e uma coesão sutil entre as esferas semióticas do discurso. Além de ser meu primeiro trabalho impresso, era também meu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social na UFSJ, o que significa que havia feito um trabalho monográfico evidenciando as esferas do discurso e as implicações de enunciação que meu trabalho pretendia suscitar. Considerem que eu me esforcei e tentem fazer a inflexão: qual vocês acham que foi a reação do cavalheiro quando entrou em contato com meu trabalho em couchê colorido, o qual apresentei de maneira bastante humilde? A maior tentativa de humilhação de alguém que já presenciei, me chamou a tragar cachaças e insinuou que eu estava querendo trocar o livreto por aquelas doses, o homem estava possuído por uma agressividade louca contra mim, me inquiria sobre poesia e sobre minha incapacidade para a atuação enquanto poeta, então comprou "pra me ajudar", perguntando se a cachaça já não havia pago, no fim, eu que tentei ser gentil o tempo todo desejei "que tenha uma boa leitura" e ele não acreditava nas minhas palavras "acredita que eu possa ter prazer ao ler isso?" eu respondi "depende mais de você do que de mim, depende de você abrir esse coraçãozinho amargurado", nesse ponto eu tive que dar uma corrida porque ele tentou me acertar com alguma coisa. Outra vez, um cara tentou me dispensar com uma nota de cinco, e eu disse "bom cinco é o fanzine, o livro é vinte" ele me deu vinte e disse que não queria comprar, era só pra que eu fosse embora, outra tentativa suja de humilhação, dei três passos cabisbaixo, com o dinheiro na mão e depois levantei-a e pensei "brother, quem quiser me dar esmola tem de pagar o meu preço - há!". Numa outra ocasião um cara do círculo universitário simplesmente lambeu meu livro, sério, ele pegou e passou aquela língua áspera e branca sobre toda a superfície, ridículo, como alguns macacos que cagam no território do outro. O que liga essas três manifestações? Nenhum dos ultrajadores se deu ao trabalho de ler o material.
     Há um convencimento geral da incapacidade de se fazer arte, trabalho intelectual, literatura, filosofia, da incapacidade criadora, de conceber que "o que não é considerado genial por todos é lixo". O simples fato de alguém ter que representar o lixo que aquilo é (o simples fato de isso não estar dado) já mostra que estamos em território franco. Essas pessoas que tentaram de alguma maneira me rebaixar tinham uma coisa em comum comigo, a convivência com a cultura, com a literatura. Eles estavam convencidos que qualquer um que não estivesse blindadamente protegido pelos mecanismo sociais que legitimam a produção deveriam ser considerados medíocres. Mais do que isso, havia uma raiva latente, como se eu estivesse pulando etapas, na visão deles eu simplesmente estava descartando toda a parafernália da indústria  cultural e apresentando meu trabalho sem nenhum grau de seleção e garantia de qualidade. Como se as justificativas para a melancolia daqueles que acreditam sem saída para o desenvolvimento de sua arte e cultivam uma fedorenta gaveta estivessem sendo cruelmente destruídas por minha prática, os tornando além de impotentes, sem desculpas para a própria impotência. No entanto, quem prestou atenção de que este também foi meu TCC, e mais, em quem leu as informações da publicação, inferiu que ele foi aprovado por três Professores Doutores, com louvor. Qual é o valor disso? O mesmo de um editor, ou seja, de uma seleção e aprovação por alguém considerado capacitado, estamos falando de dispositivos de legitimidade.
"vão te falar que é a qualidade (...) não é a qualidade, a qualidade para alguém com essa mentalidade eunuco de civilização sempre parecerá uma abominação cada vez maior, uma maquiagem cada vez maior, um blefe cada vez maior"
     O ponto que quero chegar é o seguinte: vão te falar que é a qualidade e que seu material é xerocado, não é a qualidade, a qualidade para alguém com essa mentalidade eunuco de civilização sempre parecerá uma abominação cada vez maior, uma maquiagem cada vez maior, um blefe cada vez maior. Vão te falar que é o valor literário filosófico, estético, etc. Mas não é, há nas pessoas com essa mentalidade a propensão de não se atacar de imediato algo nesse formato, de apresentar mesmo uma má vontade com um material com o qual se identificaria. Meu palpite, o palpite de quem já enfrentou a rodo o discurso do "isso não vale nada porque isso foi empacotado por você e não outro alguém a quem alienou esta etapa crucial), é que esse ódio é semelhante ao dos homens que se sentem seguros que as mulheres de sua família mantenham-se controladas pelas restrições da realização sexual que as tornam dependentes; então quando esses homens vêem-se na proximidade de uma mulher liberta sexualmente e partem a desclassificá-la e dirigindo difamações contra ela. Há um medo aí, há um temor por si, há um temor de que aquela pequena esfera de poder que ocupa por ter mais liberdade sexual seja desmembrada pela realização sexual de uma desconhecida assim como que os poucos louros de um capital cultural pouco efetivo seja desvalorizado por vontade e excitação juvenil. É algo mesquinho? Pode ser, mas é legítimo também, ela traduz uma falta de capacidade de se portar em outros contextos, de crescer com o desenvolvimento do próximo, ela não pode ser desprezada, esse medo da inversão de valores é um caminho a se trilhar.
    A esse material impresso, no entanto, faltam ainda uma série de adequações, como registro na Biblioteca Nacional, ficha catalográfica e algumas convenções editoriais que o transformam em um fanzine impresso em gráfica e não em um livro. Mas, sem dúvidas ele carrega em si mais legitimidade do que os meus anteriores xerocados. Essa é a chave do porque eu enfrentei mais oposição nesse, no bonito, do que no anterior. Agora eu estava com algo a não ser "naturalmente" inferior, mas algo que bancasse a batalha. Bom, conheço alguns poetas na mesma condição que a minha: fizeram fanzines no começo de sua prática e logo depois partiram buscando áreas de atuação como que "mais conceituadas", pessoas que sempre me disseram que fanzine era uma coisa menor e como que "respiraram" quando eu finalmente fiz algo mais adequado. É compreensível, da parte desses artistas, o desejo de expurgar o lugar infame no qual foram colocados quando excitados e juvenis, como eu, jogaram seus corpos no mundo. No entanto, considero lamentável essa reprodução do discurso opressivo, é triste que quando se trate de fanzine essas pessoas que em outras áreas considero grandes exemplos para mim e que já passaram por isso encontrem na frase "bom isso é um fanzine, você pode fazer algo melhor que tenha mais marcas da indústria cultural" como o melhor a dizer quando entram em contato com pessoas mais novas a lhes mostrar seus zines. É claro que não exijo de todos essa disposição Jesus Cristo que eu acabo tendo de receber um tapa na cara e virar a outra, não nego que ser como um ponto de converg~encia para o desenrolar do discurso opressivo e do desejo de impotência do próximo seja um papel que eu assuma com orgulho. Pô, mas não é entreguismo isso, desclassificar a prática quando ela é crucial para a sua história? Não é jogar a toalha de frente ao primeiro obstáculo? Não é, como dizia Torquato, neto, cortar o cabelo quando a barra pesa?
     Quero apresentar uma outra visão sobre os fanzines, que não o considere como algo de 5ª categoria (se não o for) mas também não o tenha como heroico apenas por ser algo assim como marginal. Ver a publicação artesanal dentro de suas limitações e potencialidades. Tirar ela desse ponto puramente contestador do status quo significa, penso eu, vencer. Essa será a conclusão, mas, antes é importante notar que é ao inaugurar esse valor do "algo que existe no mundo" entram em marcha o terceiro hall de adversários (não inimigos), que não obstante respeito muito, os punks e tudo que vem desse movimento e tem o fanzine enquanto um veículo, os anarquistas, as feministas, os veganos, etc. Parte da galera sob a influência dessas visões de mundo, que eu também compartilho (mas com o ícone adotado do anarquismo, Camus, apreendi a impotência da afirmação absoluta de algo em um par de opostos) às vezes me combate levemente pelo fato de meus fazines terem um preço, de até mesmo na minha linguagem serem "vendidos" e não "passados".
     Não quero me alongar muito nisso, mas qualquer olhar mínimo frente a publicação artesanal percebe que ela serve a diversos fins, é um erro e mesmo uma tentativa de tolhimento de liberdade querer que sempre o fanzine sirva para a militância, mesmo sabendo que ele é um lugar privilegiado para isso. Dentro do movimento de poesia que eu participo existem fanzines muito próximos entre si que apresentam diferentes formas de distribuição, e essa maneira de distribuição muda bastante o que a publicação quer dizer enquanto publicação. As pessoas fazem como uma revista que lançam uma ou duas vezes e aí se esquecem delas, e usam a venda para isso, além de anunciarem nos meios de comunicação o lançamento, sempre acompanhado de um recital ou performance. Outra possibilidade que acontece é a de se fazer a edição como um "pacote" para mostrar os poemas para os amigos e então distribuem, e, mais raro do que isso, alguém faz uma performance poética e faz um zine para que as pessoas possam acompanhar o recital. Já eu quero ter uma produção perene, quero sempre os meus fanzines na minha bolsa para que as pessoas tenham acesso à minha escrita em diferentes momentos, penso que assim elas farão leituras mais contundentes, além de que, dessa maneira, consigo alcançar alguma eficiência na distribuição, devagar e em longo prazo. Daí vender é uma maneira de entregar a só quem vá ler. Não importa o que se faz com ele, o importante é que a publicação artesanal tem o papel ímpar de preencher lacunas da dinâmica social de um nicho, de forma que as pessoas que têm potencialidades possam desenvolvê-las onde se sintam participativas e engajadas gerando a força e o ânimo para que aquilo que é difícil de ser realizado (uma vivência filosófica verdadeira, estudo e produção de poesia, formação de um grupo de contestação, etc.) frente a uma lógica instrumentista da vida. A mídia nanica nesse cenário permite que essas vivências se tornem, além de viáveis, realidades sociais de vivência.
    Penso ser aí o lugar da publicação artesanal. Nesse ponto, é importante constatar que há, sim, um enorme número de fanzines de péssima qualidade, as perguntas que me faço quando alguém traz esse dado para a discussão são: qual é o real problema disso? Isso invalida aqueles mais coerentes? A exposição não pode ser um caminho para a melhora? Na minha experiência tenho visto que aqueles que não levam a prática a sério não têm a mesma repercussão e são levados ou a procurar algo mais o que fazer ou a estudar. Acho isso só produtivo. Quanto à recepção do público acho interessante quando alguém nem despreza o zine por ser zine nem o louva por ser marginal, mas gosto quando a pessoa analisa se quer ler aquele material ou não, seja lá a que decisão chegar.
    Nesse entre-lugar, nesse meio termo, esse tipo de publicação só tem o que somar. Todos reclamando da falta de cultura e do cultivo da mediocridade, pois bem, respeitemos os espaços que as pessoas têm para que adquiram informação, onde tenham a possibilidade de serem lidas e criticadas e onde é possível um desenvolvimento das práticas mais sucateadas e importantes.


 
*pic: minha coleção de zines


     Póstexto

      Um poema. Refletindo a beleza da tomada de palcos elitistas que reivindicam para si o título de "malditos". Anti-malditos, tomamos o palco (que era livre): os poetas da capital correram, alguém mostrou a bunda e fomos aplaudidos não por obrigação, mas por entusiasmo. Há algo na poesia que as editoras não dão conta, onde os produtores de evento tropeçam, que docilidade não apreende e com a qual a voz lida maravilhosamente, tanto que se gasta e enrouquece.


Dia 27/11

essa noite eu tive um sonho bonito-macabro
onde trolls literários intelectuais
foram literalmente expulsos do palco
e o verdadeiro pulso, o da calçada
saqueou todos pelas suas entranhas ensanguentadas
e rapazes bonitos sem pé nem cabeça
deixavam seus cus expostos na feira burguesa
então conflitos recentes feitos para durar a vida inteira
foram quebradas por simples ações recíprocas de boa vontade
aliás, o que não foi quebrado naquele sonho do dia 27?
.
.
.
.

* texto publicado na revista artesanal Interpretes da Decadência nº3, disponível para download aqui http://interpretesdadecadencia.blogspot.com.br/?view=classic.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Agente tamo junto: Como era bom escrever errado.





    Uma coisa há muito me incomoda, mas só recentemente é que me tirou noites e noites de sono: a gente estar errada ao escrever agente.

    Nunca fui bom em escrever certo, minha tendência à poesia vem mais pela transgressão e imaginação do que pelo "amor às letras". As quais, aliás, nunca tive um relacionamento lá muito afeito, nem cultivo por elas muito respeito. Escrevia errado que só. Inclusive agente. Mas comecei a reparar que as pessoas quando percebiam que algo estava errado não conseguiam tirar proveito de nada que havia ali, sentiam alguma coisa no estômago que eu num sei bem como descrever, e faziam uma careta feia de nojo como se a gente tivesse levado um pedaço de carne podre às suas narinas.

     A poesia, no entanto, parece libertina. Quase achei que poderia ali fugir ao imperativo certo/errado. Ledo engano. É lá que as coisas realmente se parecem com o que são: leis arbitrárias e sem sentido e zumbis (até porque a linguagem é isso, né?). Ora, um poema hoje em dia aceita tudo: dialeto virtual, regionalismos, onomatopeias. Mas insira um "agente" sem trocadilho intencional nem qualquer contextualização... A sarjeta e o desprezo o aguardarão. Lulu Santos pagou os capangas poetas marginais apenas para assassinarem a métrica que já estava agonizante, a gramática eles apenas assaltaram.

     Esses dias mesmo fui confrontado a isso: no meio de uma conversa falávamos da beleza das interações linguísticas e um bom estudante das humanas declarou que atualmente estava com muita preguiça de errada escrita. Disse a ele "mas é belo & belo" e perguntei "coisas como o que?". "A gente junto não dá pra aturar" - respondeu o estudante.

       Sim o a gente. Essa expressão (é isso mesmo, uma expressão?), penso, é onde se encontra o ponto de tensão mais exacerbado entre a galera do fundão e a professora de óculos e saia azul opaco abaixo dos joelhos. É aí que a academia segura as rédeas, mas não me posicionarei (contra o pensamento endêmico acadêmico), tenho sofrido muito por tomar tantos posicionamentos. Todos eles de um extremo radicalismo lunático. Depois de ser tantas vezes reprovado na academia estou começando a aprender a manter um distanciamento crítico, a me manter separado. Embora lá no fundo minha filosofia de vida que clama por amor e paz e acredita que somos mutantes uma pessoa só ache que a gente tem mais é que ficar tudo junto.

      No mais o agente torna todo mundo senhor de si quando tamo junto (e não todo o mundo). Agente de seu próprio destino, o que seria inevitável, se não viesse sempre uma carranca dizer-nos que temos sempre que separar tudo a fins de catalogação. Até porque quando escrevo que a gente foi à padaria sempre fico os vendo descer a rua por entre as grades da janela.

 
                     "Até porque quando escrevo que a gente
                foi à padaria sempre fico os vendo descer
                 a rua por entre as grades da janela." 
  

     Não vos parece que são eles sem mim: a gente? A gente desceu do ônibus é uma frase vista de cima, por um narrador onipresente ou de uma sacada de apartamento no centro. É diferente do a gente que agente diz e por isso justifica escrever de outro jeito, mesmo que não saibamos justificar. Agente desceu do ônibus, eu, o Beto e o Gilmar e fomos orçar a camisa da formatura - né não, terceirão! Estamos nós juntos, misturados e agindo coordenadamente sem a necessidade de um líder proclamado, portanto, imbuídos de poder.

      Acredito mesmo nisso. As línguas refletem nossa ideologia: movimento oposto à esse que tenta separar a gente seria o movimento rastafarI que inseria a palavra "eu" em quase todas as palavras.

       Mas não levem isso muito a sério, são só divagações de alguém que escreve muito e que demorou pacas para aprender os adornos mínimos exigidos para veicular impulsos em letras. Lembro de um poema em que escrevi "atoras francesas antigas" e me doeu muito arrumar. Mesmo sabendo o certo e sendo o certo mais bonitas e curvilíneas e meigas: as atrizes são muito mimadas! Queria me referir - mas que coisa impossível! - às atoras mesmo.

      Quanto às vírgulas, tenho me acostumado, a elas, quando não sei bem, quando colocar, saio virgulando tudo, de modo, que parece que a gente tá, viajando, naquele ponto da rodovia, onde ela atravessa cidade, e tem quebra-molas, pra porra!
   
        Antes preocupava apenas com o espírito do escrito e que ele (como eu) estivesse usando uma roupa velha rasgada e que lhe assentasse bem. Devo admitir que sou mais versado em dar nó em gravata de texto do que em amarrar meus tênis (embora saiba bem pouco sobre as gravatas dos textos). Aos textos são exigidos, além de se passar e engomar, que a meia combine com o detalhe do colarinho. Deve ser por isso que os capitalistas e operários acham escrita coisa de moçoila. 



Vinicius Tobias
      

domingo, 9 de novembro de 2014

E porque é que o que fica não está nos livros?

Resíduo

    Carlos Drummond de Andrade


De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu
nos olhos do rufião.
Da ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
Roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros - ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco do teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo 
No pires de porcelana
dragão partido, flor branca,
Ficou um pouco
De ruga na vossa testa.
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas porque não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
Nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim, de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, ficou um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.



E por que é que o que fica não está nos livros?

Vinicius Tobias

    "Oh, abre os vidros de loção / e abafa / o insuportável mau cheiro da memória", mas é apenas de memória que Drummond fala no poema Resíduo? 

     O eu-lírico, em um momento de mágoa, melancolia e clarividência descreve o processo de coisas que ficam e geram resíduos, indo e vindo entre o reino material e o psicológico. No entanto, esse ir e vir representaria uma sinceridade sensorial livre de preconceitos cartesianos, fundamental a quem pretende entender tais lógicas subjacentes. Como diz Manoel de Barros "Conhecimento é parede", ser árvore e desaprender são necessários quando se deseja lançar um olhar visceral sobre as coisas e os processos. 

    "ser árvore e desaprender são necessários quando se deseja lançar um olhar visceral sobre as coisas e os processos"


   O medo, o comichão no abdômen presente nesse poema parece demonstrar que o eu-lírico-melancólico se encontra em frente a um mistério universal. Tentando listar e descrever as coisas que ficam, e vai fundo, apresenta o que fica mesmo, aquilo que fica pouco, muito pouco, e depara-se com uma confusão que se faz também entre o que fica de uma forma universal e o que é sentido pessoalmente, apontando um sentido abrangente da memória, classificando tudo no mesmo pacote infeliz, mas que porta, intrinsecamente o puro e o natural, se atirando à desconhecida união de tudo.

     Esse processo é desenrolado na sétima estrofe, e, se antes poderíamos pensar que todos os resíduos marcam aquele indivíduo em sua profundidade psicológica, agora ele pergunta se também não ficaria um pouco dele no trem que leva ao norte, na consoante, no poço; ou seja, matéria não-consciente. Isso acaba por re-significar e abranger as estrofes anteriores. Sobram coisas enquanto entidades, enquanto matéria (um pouco de teu queixo no queixo de tua filha), enquanto lembrança, enquanto realidade onírica sub-consciente (trecho que complemente a gota absurda) e esse meio termo entre consciência e matéria (a matéria da consciência nas "folhas,  mudas, que sobem") desenvolverá o metafísico.
       
     E nada melhor do que esse  medo mineiro de seguir em frente, no cuidado ao falar, da dificuldade de definir, do ir e vir diletante daquele que percebeu algo inefável e sabe que o melhor a fazer é tomar todo o cuidado ao concretizar aquilo verbalmente de tão fugidia e sensível que é aquela relação, usando-se desse temor para descrever a cadeia de erros de uma ordem não conhecida que sobra do que sobrou (da ternura, embora sobre um pouco, é muito pouco). A palavra erro aqui é escolhida pelo tom predominantemente negativo do poema, é palavra usada por Drummond em outro poema de mesmo tom, o entusiástico "A flor e a náusea". E vale lembrar que em contraposição ou complemento (parece aqui que as prerrogativas tanto se contrapõe quanto se complementam, ou melhor se complementam pelo processo de contraposição) aos maiores erros humanos - medo, asco, ponte bombardeada - são colocados elementos puramente naturais e bons - rosa, grama, botão. Gerando assim um deslocamento da dialética bem/mau para uma espécie de erro agente/natural imóvel. 

     Logo após a pergunta que o eu-lírico faz se também dele não sobraria um pouco, o erro metafísico materializado em lixo fica oscilando na embocadura do rio, "não está nos livros" é o verso que complementa essa imagem; essa frase, é importante dizer, também se encontra no poema "A flor e a náusea".



                 "Ora, o livro é o símbolo máximo da
                 práxis humana, quando se aponta que
                aquilo que sobra não está nos livros se
                consta o completo fracasso do ser humano
              em lidar com essa realidade sutil, subjacente
              e regente dos movimentos"  

    Ora, o livro é o símbolo máximo da práxis humana, quando se aponta que aquilo que sobra não está nos livros se consta o completo fracasso do ser humano em lidar com essa realidade sutil, subjacente e regente dos movimentos: não é possível trabalhar em nível consciente com a maneira de o que passa marcar e deixar seus resíduos no eterno Devir. Na próxima estrofe desse "abrir o jogo" que é dizer que o que sobra não está nos livros ele caminhará na descrição daquilo que sobra tanto enquanto intangível tanto como memória (e qual é a diferença entre os dois? nossa consciência? nós? que precisamos de paliativos para estancar o mau cheiro da memória?).

      A meu ver essa é a grande questão do poema, abrange-se o problema das coisas que sobram até o ponto mais subjetivo, mais sutil, metafísico. E a abrangência se dá por uma espécie de não saber definir e identificar a natureza do que sobra. Não saber é a única base sobre a qual repousa a sabedoria. O poema até a oitava estrofe vai abrangendo e abrangendo, mas, ao chegar ao limite subjetivo máximo ele se contrai e oscila, e, depois da próxima torrente descritiva daquilo que sobra, pede para abrir os vidros de loção e estancar o mau cheiro da memória.

        Isso pode ser visto como a descrição dos ciclos de erros que se perpetuam até identificar as causas residuais que os circundam. O lixo, o podre, no entanto, não será revirado pois logo o poeta clama para que se abra os vidros de loção, uma artimanha. Disfarçar os "mau cheiros" do remorso é não mudar o curso das marcas e resíduos, é preguiça de fazer uma boa faxina, é falta de vontade, e não saber por onde ir, é um paliativo, é a impossibilidade de superação (absurdo).

              "ou o lixo humano proliferará ratos ou, 
              se ele abstiver-se de agir, talvez outra
             flor nasça para o poeta comemorar."  

      A última estrofe descreve onde as coisas ficam. E, como dito, elas ficam sob coisas de aspecto puramente naturais, "ondas ritmadas", assim como ficam sob coisas de aspecto humano, "igrejas triunfantes", a listagem aborda qualquer aspecto, as coisas, ficam, um pouco, sobre todas as coisas.

       As cadeias de erros talvez sejam as terras morbidamente férteis de onde brotarão os novos erros. Às vezes um fragmento, "um botão ou um rato", pode revelar esse aterrador destino; algo ficou, construiu os erros do presente, e disto algo restará. Identificamos essa transitoriedade cíclica com os seres vivos que encerram o poema, o rato - erro agente - ou o botão de flor - natural imóvel. A referida dialética é retomada, ou o lixo humano proliferará ratos ou, se ele abstiver-se de agir, talvez outra flor nasça para o poeta comemorar.   

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Essas eleições...


...vão deixar saudades. Foi sem dúvida umas das eleições mais marcantes que já vivi. Seja pelo apelativo circo midiático, a morte súbita de um candidato e as viradas imprevisíveis por desconstrução da imagem pública.
    Também tiveram suas boas surpresas como era de se esperar nas primeiras eleições depois das históricas manifestações de junho. A primeira delas, a multiplicidade dos candidatos em todos os debates do primeiro turno que (para o bem ou para o mau) pela primeira vez refletiu a variedades de pensamentos e ideologias que compõe esse amalgama gigantesco que temos a audácia e a coragem de chamarmos unicamente de Brasil.
    Uma dobradinha interessante foi a Luciana Genro - Eduardo Jorge defendendo, cada um a seu modo e com suas teses, temas progressistas com um idealismo que marcou pontos para a discussão séria e racional sobre convenções que fazem milhões de pessoas sofrer e não podem avançar porque batem na barreira intransponível da opinião pública.
   Interessante também foi a distribuição de apoios desses dois candidatos que, salvo suas particularidades fundamentais, tinham muito em comum. Eduardo Jorge apoiou claramente Aécio e Luciana embora não apoiasse Dilma sugeriu que não se votasse no tucano.
     Não há dúvidas de que a manobra eleitoral de Luciana Genro tenha sido mais inteligente, e qualquer leitura apontaria que a maioria dos eleitores de Eduardo Jorge repudiaria o apoio do ambientalista. Mas por isso mesmo que podemos falar em sinceridade, autonomia e coragem por parte de Eduardo Jorge, deixando claro em seu enorme discurso quando anunciou o apoio ao tucano que não se identificava com o governo que ele propunha, mas indicava que a atividade política engloba, em seu jogo, muita coisa além do que identificação absoluta pela qual muitos saem se digladiando por aí.

                         "Posso afirmar que me diverti
                muito nessas eleições,
                   coisa que não aconteceria se eu
                perdesse meu tempo e meu humor
                  brigando com as pessoas por aí." 

     Posso afirmar que me diverti muito nessas eleições, coisa que não aconteceria se eu perdesse o meu tempo e meu humor brigando com as pessoas por aí. Aproveitei, ao contrário, para entender como as outras pessoas pensavam, fazendo com que as vezes eu conseguisse esclarecer alguma questão dentro mesmo das cadeias de pensamento da pessoa.
      Ora, convenci nove pessoas a votarem no Eduardo Jorge no primeiro turno, e, embora tendo votado na Dilma no segundo, minha opinião sobre meu candidato não estremeceu nem um pouco. Ainda mais por saber que a pluralidade nos debates foi garantida por ele ter sido o único a se negar a entrar num acordo com a globo para o qual foram chamados ele, Dilma, Aécio e Pastor Everaldo. A ideia da emissora era haver um consenso e contemplar a porcentagem que o TSE exige para não se fazer o debate com todos que representam partido com representante na câmara. Na outra ponta desse eixo se encontra o Pastor Everaldo, ele foi o único a fazer o ridículo papel de cabide de algum candidato, deixando até mesmo o tucano sem graça enquanto levantava para ele sacar no referido debate.
    Mas, além das pessoas com as quais falei e convenci, o entusiasmo estava presente na discussão, sempre cordial, com pessoas que pensavam radicalmente diferente de mim.
       Uma militante do PSDB mesmo ficou muito agradecida depois que ficou sabendo que eu votaria no PSOL (isso no começo das eleições) e mesmo assim eu fui educado com ela e falei sobre os motivos que eu não votaria no Aécio muito calmamente.

                              "E deus me livre de me 
                       transformar num fiscal
                           do bom comportamento"   

      Ao conversar com um antigo professor de história meu, partidário do Aécio, que soltava alguns comentários que podiam ser entendidos como preconceituosos à esquerda não me senti ofendido, afinal ele falava com a leveza de quem brinca. E deus me livre de me transformar num fiscal do bom comportamento rechaçando qualquer brincadeira bem intencionada com o lado político oposto, afinal, também na esquerda temos nossas piadas e taxações que podem não ser agressivas, só engraçadas.
  Ao invés de me entregar à tentação de taxá-lo e listar as idiossincrasias de seu lado político, que sempre estão na ponta da língua. Preferi levar na brincadeira que propunha e ressaltar que foram suas excelentes aulas de história é que fizeram de mim um anarquista.
    No mais acho que foi válido. Afinal, nem que seja nos debates do primeiro turno ouvimos diferentes teses sobre as direções políticas do nosso país e assim poderemos refletir melhor.
      O que eu percebi é que, sabendo conversar, tudo pode ser abordado, tudo pode ser discutido.
      Também Aécio não é um monstro, será tão difícil entendermos que não votamos no outro porque ele é o diabo encarnado, é apenas porque não queremos determinado projeto político para o país. Além de Aécio não ser um monstro tem muita habilidade política, sabendo ele que, caso eleito, deve moderar em medidas impopulares, senão não é reeleito nem elege sucessor. 
      Mas a principal vitória política, não se dá pela reeleição do PT. Se dá pelo fato de a presidente eleita pelo PT se comprometer claramente eu seu discurso de vitória com a urgente reforma política, apoio governista já temos, agora é só nos organizarmos em torno dos movimentos sociais e irmos para as ruas.

                 "Apoio governista [para a reforma
               política] já temos, agora é só nos
           organizarmos em torno dos movimentos
             sociais e irmos para as ruas." 

      E para aqueles que clamam que o nordeste seja declarado a "Nova Cuba" saibam que o Brasil não caminha para o comunismo, mas caminha, sim, para uma social-democracia, ou seja, uma democracia governada e pensada pelo e para o povo. Coisa que muito deveria agradar as pessoas que se identificam com o Partido da Social Democracia Brasileira, ou PSDB.
       Já podemos retomar as amizades e nos imbuir de boas vontades, a eleição já passou, e só valerá a pena se conseguirmos reverter o quadro de violência que se deu nas relações e nas redes sociais e usarmos da pluralidade não para alimentar nosso ódio, e sim para aumentar nosso universo de conhecimento político, coisa que, inclusive muito servirá ao advento do projeto político que acreditamos.
       Saber enfim, olhar o novo e os acontecimentos com distância e curiosidade, não sem paixão. Até porque sem ela nem o almoço de domingo com a família vale a pena. É pela paixão, e pelo aprendizado que ela vai gerar que essas eleições vão deixar saudade. 


Vinicius Tobias
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