O mundo que te ofereço, amiga
tem a beleza de um sonho construído.
Aqui os homens são crentes
Não em Deus e outras coisas sem sentido
mas em verdades puras e belas
tão belas e tão universais
que eles aceitam morrer para que elas
vivam.
É esta crença, são estas verdades,
que tenho
para te
ofertar.
Aqui a ternura não nasce
nas alcovas.
É uma ternura rude,
violenta, amarga
nascida na dureza áspera da luta
em caminhadas
longas
em dias de espera.
É esta ternura, rude e amarga,
que tenho
para ofertar.
Aqui não crescem rosas coloridas.
O peso das botas
apagou as flores pelos caminhos.
Aqui cresce milho, mandioca
que o
esforço dos homens fez nascer
na previsão da fome.
É esta ausência de rosas,
este esforço, esta fome
que tenho
para te ofertar.
Aqui as crianças não envelhecem,
o
seu riso é eterno,
brincam com o sol, com o vento
com a chuva e os gafanhotos,
com espingardas verdadeiras,
com pedaços de granadas.
É este riso eterno de
criança, este sol,
estas espingardas verdadeiras
(com as quais também
brinquei),
que eu tenho
para te ofertar.
O mundo em que combato
tem a beleza de um sonho construído.
É este combate, amiga, este sonho,
que tenho para te ofertar.
Sugerido por Maria Cristiana Casimiro, de Macau
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
domingo, 21 de agosto de 2011
No povo buscamos a força - Jorge Rebelo
Não basta que seja pura
e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza
e a justiça
existam dentro de nós.
Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar,
motivos ocultos,
intenções estranhas.
Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.
Para alguns outros era uma bolsa:
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.
Outros viemos.
Lutar p'ra nós é ver aquilo
que o povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É ter p'ra nós o que criamos.
Lutar p'ra nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.
Na mesma barca nos encontrámos.
Todos concordam - vamos lutar.
Lutar p'ra quê?
P'ra dar vazão ao ódio antigo?
P'ra encher a bolsa com o suor do povo?
Ou p'ra ganhar a liberdade
e ter p'ra nós o que criamos?
Na mesma barca nos encontrámos.
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que ali travámos!
Mantivemo-nos firmes: no povo
buscámos a força
e a razão.
Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O povo tomou a direcção da barca.
Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura
e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza
e a justiça
existam dentro de nós.
(1971)
*Há um debate sobre a autoria desse texto, pelo qual sua divulgação se mostrou profícua em revelar. Publicamos ele como sendo de Agostinho Neto de acordo com o livro publicado pela "Editora Codecri Limitada" em 1976, Poemas de Angola, contendo apenas poemas atribuídos à Agostinho Neto. Uma leitora veio afirmar, com o que parece, grande conhecimento de causa (vide os comentários) que esse poema é na verdade de Jorge Rebelo, um Moçambicano. Ainda estamos em apuração e quaisquer informações serão valiosas.
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