sexta-feira, 13 de maio de 2016

Poemas Golpistas.

O dia de hoje está super inspirador. Um novo governo surge promovendo cortes e alegrias! Muitos poemas foram escritos hoje pelos poetas na rede, e outros foram trazidos a dizerem algo nessa sexta-feira 13 tão especial, ei-los:


Pequena Oração para Batismo Clandestino


Que eu transite livremente pelo país que é o lar de meu coração.
Que ninguém me barre os passos improvisados,
a dança delirante pela rua.

Que ninguém ao pé de porta me peça título de eleitor.
Ninguém meta constituição em argumento.
Alô polícia, eu tô usando um exocet calcinha
Alô polícia, corpo da lei. Mas, que lei?
Jà em curso meu próprio golpe legitimador
do Estado Independente de Mim Mesmo
Anota aí: erregê lua, cepeefe nuvens nuvens

O país não me representa. Não me representam os meus pais,
a língua do normais... Um beijo e até mais!


(Mingau)

*    *   *


Os Muros

Arrames invisíveis
cerceiam
As farpas de ventos
do Sul.
Nau do Norte
Oh, Sorte
Movem moinhos?


O medo me 
dita
é a regra.
Fé é cega
e Esperança 
transborda.

As crianças
(natimortos)

Sem escola
Tem gorjeta!
Tem esmola!
Oportunidade?
Não.

E nos bares

os muros,
[se rompem]
Corrompem corações.
As ruas, as praças
Condomínios fechados
(Assunto proibido)


A "fachada" avisa:
Perigo!
Aos gritos
[fecundo silêncio]

Quem é o inimigo!

Quem é o "eu"?
Quem é voce?


(Iberê Marti)


*   *   *

Luto de Preto que é pra apaziguar a falta de paz nas bandeiras Brancas

Sinto muito e menos um pouco que o tamanho bastante
infante, delirante, diamante brindado no sangue
dos olhos de todos os que ficaram sem mangues

Sem poros abertos pra suar o amor ao quotidiano
eu sinto menos e não tenho que Temer sozinho, Temer jamais!

Somos da raça do mundo, das digitais dos encontros, dos sem-muros

Sexta-feira 13 trouxe seus aposentos, sente-se e se sirva dos anos
o ministério da cultura encontra as flores amareladas de espanto e um
tumulo ao lado da sepultura das mulheres da terra, raiadas pelo corte de
suas iluminações;

[apagão as claras]

A morte chora o seu pranto e ri o seu riso: o medo tomou o ceio do corpo
e me adoece os homens com uma vida pronta, a ponto de não saberem
morrer, vão se restando em almas, penadas e peladas de calor, pelo
senado, sem nada mais a dizer, me retiro... num silêncio preto e gritante.

(Clélio Souza)

*   *  *


meu cu
e, no cu
uma rosa cujo caule
está cuidadosamente enfiado
um brilho grande no cu e rosa
a rosa do cu
eu desfilo cor de rosa
brilhando, amando, cantando

alegria e purpurina
é enfeite, que dá o contorno da coisa
pintam sobrancelha
e batom na boca
viver, impreterivelmente

viver, mais que tudo
e com tanto furor
que como um pingo de detergente
num molho de panela pós-fritura
tudo quanto não é vida
fuja desesperadamente de mim

(Vinicius Tobias)

*   *  *

 - - - - - poema trago à baila ------- 


prOs Fernandes e Martelo de Pano e outros que proclamam a 

independência na terceira margem de todo dia e toda noite

Eu sei 
nas margem da indústria da cultura
eu também sentei
e chorei

Mas já dissemos numa tarde:
sem culpa
antes arte
do que nunca

né?

É
Tá dificil
ficar de pé
ferir a fé
no cotidiano

Mas berramos 
como um bode sacrificado
como um deus despedaçado

EVOÉ!

Seguimos na criação,
mesmo se não
já que deus deu o verbo
e depois ficou quieto

BERRO

Os ecos de eros e thánathos

BERRO


a besta no nosso âmago


Baco nos abençoa
apesar do mundo
a vida é boa

a gente tenta
a gente venta
a gente inventa

até onde for
até onde flor

cria 
canta
dança
criança
música
esperança

essas trilhas
traços
abraços
becos e buracos

aos tombos e trombones

já que tudo parece
tão raso
já que tudo perece tão fácil

musicar: lançar
malabarismos de ar

nonada: projeta
projeta-se a manada

olhamos para o abismo 
e nos jogamos

nós

e nosso riso

nós

e nosso grito.

[In: finito]


(Igor Alves)




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Cuspam na minha cara: a questão da legitimidade nas publicações artesanais*. - Vinicius Tobias

    Andava pelas ruas barrocas de Tiradentes, depois de sair de uma pequena espera por um sarau burguês que não começava pois estava absolutamente esvaziado com um poeta da capital e zero de público (ao contrário dos saraus que os grupos locais que eu participava organizavam na região, sempre com um um público cativo) entrei num boteco com uma amiga, pedi uma cachaça, e enquanto o  garçom servia resolvi vender meu livreto recém-lançado para um camarada, ele tinha uma pose de intelectual, alguma deficiência na mão, uma cara empolgada e vermelha e se encontrava na companhia de dois jovens bem vestidos com seus figurinos cult. Era meu primeiro zine impresso, tinha tomado cuidado em fazer um material responsa, uma vez que o 4º Capítulo da Série Intervenção Humana eram conjuntos de quadras e fotos coloridas organizadas na tentativa de causar algum tipo de catarse cognitiva por um desencaixe aparente e uma coesão sutil entre as esferas semióticas do discurso. Além de ser meu primeiro trabalho impresso, era também meu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social na UFSJ, o que significa que havia feito um trabalho monográfico evidenciando as esferas do discurso e as implicações de enunciação que meu trabalho pretendia suscitar. Considerem que eu me esforcei e tentem fazer a inflexão: qual vocês acham que foi a reação do cavalheiro quando entrou em contato com meu trabalho em couchê colorido, o qual apresentei de maneira bastante humilde? A maior tentativa de humilhação de alguém que já presenciei, me chamou a tragar cachaças e insinuou que eu estava querendo trocar o livreto por aquelas doses, o homem estava possuído por uma agressividade louca contra mim, me inquiria sobre poesia e sobre minha incapacidade para a atuação enquanto poeta, então comprou "pra me ajudar", perguntando se a cachaça já não havia pago, no fim, eu que tentei ser gentil o tempo todo desejei "que tenha uma boa leitura" e ele não acreditava nas minhas palavras "acredita que eu possa ter prazer ao ler isso?" eu respondi "depende mais de você do que de mim, depende de você abrir esse coraçãozinho amargurado", nesse ponto eu tive que dar uma corrida porque ele tentou me acertar com alguma coisa. Outra vez, um cara tentou me dispensar com uma nota de cinco, e eu disse "bom cinco é o fanzine, o livro é vinte" ele me deu vinte e disse que não queria comprar, era só pra que eu fosse embora, outra tentativa suja de humilhação, dei três passos cabisbaixo, com o dinheiro na mão e depois levantei-a e pensei "brother, quem quiser me dar esmola tem de pagar o meu preço - há!". Numa outra ocasião um cara do círculo universitário simplesmente lambeu meu livro, sério, ele pegou e passou aquela língua áspera e branca sobre toda a superfície, ridículo, como alguns macacos que cagam no território do outro. O que liga essas três manifestações? Nenhum dos ultrajadores se deu ao trabalho de ler o material.
     Há um convencimento geral da incapacidade de se fazer arte, trabalho intelectual, literatura, filosofia, da incapacidade criadora, de conceber que "o que não é considerado genial por todos é lixo". O simples fato de alguém ter que representar o lixo que aquilo é (o simples fato de isso não estar dado) já mostra que estamos em território franco. Essas pessoas que tentaram de alguma maneira me rebaixar tinham uma coisa em comum comigo, a convivência com a cultura, com a literatura. Eles estavam convencidos que qualquer um que não estivesse blindadamente protegido pelos mecanismo sociais que legitimam a produção deveriam ser considerados medíocres. Mais do que isso, havia uma raiva latente, como se eu estivesse pulando etapas, na visão deles eu simplesmente estava descartando toda a parafernália da indústria  cultural e apresentando meu trabalho sem nenhum grau de seleção e garantia de qualidade. Como se as justificativas para a melancolia daqueles que acreditam sem saída para o desenvolvimento de sua arte e cultivam uma fedorenta gaveta estivessem sendo cruelmente destruídas por minha prática, os tornando além de impotentes, sem desculpas para a própria impotência. No entanto, quem prestou atenção de que este também foi meu TCC, e mais, em quem leu as informações da publicação, inferiu que ele foi aprovado por três Professores Doutores, com louvor. Qual é o valor disso? O mesmo de um editor, ou seja, de uma seleção e aprovação por alguém considerado capacitado, estamos falando de dispositivos de legitimidade.
"vão te falar que é a qualidade (...) não é a qualidade, a qualidade para alguém com essa mentalidade eunuco de civilização sempre parecerá uma abominação cada vez maior, uma maquiagem cada vez maior, um blefe cada vez maior"
     O ponto que quero chegar é o seguinte: vão te falar que é a qualidade e que seu material é xerocado, não é a qualidade, a qualidade para alguém com essa mentalidade eunuco de civilização sempre parecerá uma abominação cada vez maior, uma maquiagem cada vez maior, um blefe cada vez maior. Vão te falar que é o valor literário filosófico, estético, etc. Mas não é, há nas pessoas com essa mentalidade a propensão de não se atacar de imediato algo nesse formato, de apresentar mesmo uma má vontade com um material com o qual se identificaria. Meu palpite, o palpite de quem já enfrentou a rodo o discurso do "isso não vale nada porque isso foi empacotado por você e não outro alguém a quem alienou esta etapa crucial), é que esse ódio é semelhante ao dos homens que se sentem seguros que as mulheres de sua família mantenham-se controladas pelas restrições da realização sexual que as tornam dependentes; então quando esses homens vêem-se na proximidade de uma mulher liberta sexualmente e partem a desclassificá-la e dirigindo difamações contra ela. Há um medo aí, há um temor por si, há um temor de que aquela pequena esfera de poder que ocupa por ter mais liberdade sexual seja desmembrada pela realização sexual de uma desconhecida assim como que os poucos louros de um capital cultural pouco efetivo seja desvalorizado por vontade e excitação juvenil. É algo mesquinho? Pode ser, mas é legítimo também, ela traduz uma falta de capacidade de se portar em outros contextos, de crescer com o desenvolvimento do próximo, ela não pode ser desprezada, esse medo da inversão de valores é um caminho a se trilhar.
    A esse material impresso, no entanto, faltam ainda uma série de adequações, como registro na Biblioteca Nacional, ficha catalográfica e algumas convenções editoriais que o transformam em um fanzine impresso em gráfica e não em um livro. Mas, sem dúvidas ele carrega em si mais legitimidade do que os meus anteriores xerocados. Essa é a chave do porque eu enfrentei mais oposição nesse, no bonito, do que no anterior. Agora eu estava com algo a não ser "naturalmente" inferior, mas algo que bancasse a batalha. Bom, conheço alguns poetas na mesma condição que a minha: fizeram fanzines no começo de sua prática e logo depois partiram buscando áreas de atuação como que "mais conceituadas", pessoas que sempre me disseram que fanzine era uma coisa menor e como que "respiraram" quando eu finalmente fiz algo mais adequado. É compreensível, da parte desses artistas, o desejo de expurgar o lugar infame no qual foram colocados quando excitados e juvenis, como eu, jogaram seus corpos no mundo. No entanto, considero lamentável essa reprodução do discurso opressivo, é triste que quando se trate de fanzine essas pessoas que em outras áreas considero grandes exemplos para mim e que já passaram por isso encontrem na frase "bom isso é um fanzine, você pode fazer algo melhor que tenha mais marcas da indústria cultural" como o melhor a dizer quando entram em contato com pessoas mais novas a lhes mostrar seus zines. É claro que não exijo de todos essa disposição Jesus Cristo que eu acabo tendo de receber um tapa na cara e virar a outra, não nego que ser como um ponto de converg~encia para o desenrolar do discurso opressivo e do desejo de impotência do próximo seja um papel que eu assuma com orgulho. Pô, mas não é entreguismo isso, desclassificar a prática quando ela é crucial para a sua história? Não é jogar a toalha de frente ao primeiro obstáculo? Não é, como dizia Torquato, neto, cortar o cabelo quando a barra pesa?
     Quero apresentar uma outra visão sobre os fanzines, que não o considere como algo de 5ª categoria (se não o for) mas também não o tenha como heroico apenas por ser algo assim como marginal. Ver a publicação artesanal dentro de suas limitações e potencialidades. Tirar ela desse ponto puramente contestador do status quo significa, penso eu, vencer. Essa será a conclusão, mas, antes é importante notar que é ao inaugurar esse valor do "algo que existe no mundo" entram em marcha o terceiro hall de adversários (não inimigos), que não obstante respeito muito, os punks e tudo que vem desse movimento e tem o fanzine enquanto um veículo, os anarquistas, as feministas, os veganos, etc. Parte da galera sob a influência dessas visões de mundo, que eu também compartilho (mas com o ícone adotado do anarquismo, Camus, apreendi a impotência da afirmação absoluta de algo em um par de opostos) às vezes me combate levemente pelo fato de meus fazines terem um preço, de até mesmo na minha linguagem serem "vendidos" e não "passados".
     Não quero me alongar muito nisso, mas qualquer olhar mínimo frente a publicação artesanal percebe que ela serve a diversos fins, é um erro e mesmo uma tentativa de tolhimento de liberdade querer que sempre o fanzine sirva para a militância, mesmo sabendo que ele é um lugar privilegiado para isso. Dentro do movimento de poesia que eu participo existem fanzines muito próximos entre si que apresentam diferentes formas de distribuição, e essa maneira de distribuição muda bastante o que a publicação quer dizer enquanto publicação. As pessoas fazem como uma revista que lançam uma ou duas vezes e aí se esquecem delas, e usam a venda para isso, além de anunciarem nos meios de comunicação o lançamento, sempre acompanhado de um recital ou performance. Outra possibilidade que acontece é a de se fazer a edição como um "pacote" para mostrar os poemas para os amigos e então distribuem, e, mais raro do que isso, alguém faz uma performance poética e faz um zine para que as pessoas possam acompanhar o recital. Já eu quero ter uma produção perene, quero sempre os meus fanzines na minha bolsa para que as pessoas tenham acesso à minha escrita em diferentes momentos, penso que assim elas farão leituras mais contundentes, além de que, dessa maneira, consigo alcançar alguma eficiência na distribuição, devagar e em longo prazo. Daí vender é uma maneira de entregar a só quem vá ler. Não importa o que se faz com ele, o importante é que a publicação artesanal tem o papel ímpar de preencher lacunas da dinâmica social de um nicho, de forma que as pessoas que têm potencialidades possam desenvolvê-las onde se sintam participativas e engajadas gerando a força e o ânimo para que aquilo que é difícil de ser realizado (uma vivência filosófica verdadeira, estudo e produção de poesia, formação de um grupo de contestação, etc.) frente a uma lógica instrumentista da vida. A mídia nanica nesse cenário permite que essas vivências se tornem, além de viáveis, realidades sociais de vivência.
    Penso ser aí o lugar da publicação artesanal. Nesse ponto, é importante constatar que há, sim, um enorme número de fanzines de péssima qualidade, as perguntas que me faço quando alguém traz esse dado para a discussão são: qual é o real problema disso? Isso invalida aqueles mais coerentes? A exposição não pode ser um caminho para a melhora? Na minha experiência tenho visto que aqueles que não levam a prática a sério não têm a mesma repercussão e são levados ou a procurar algo mais o que fazer ou a estudar. Acho isso só produtivo. Quanto à recepção do público acho interessante quando alguém nem despreza o zine por ser zine nem o louva por ser marginal, mas gosto quando a pessoa analisa se quer ler aquele material ou não, seja lá a que decisão chegar.
    Nesse entre-lugar, nesse meio termo, esse tipo de publicação só tem o que somar. Todos reclamando da falta de cultura e do cultivo da mediocridade, pois bem, respeitemos os espaços que as pessoas têm para que adquiram informação, onde tenham a possibilidade de serem lidas e criticadas e onde é possível um desenvolvimento das práticas mais sucateadas e importantes.


 
*pic: minha coleção de zines


     Póstexto

      Um poema. Refletindo a beleza da tomada de palcos elitistas que reivindicam para si o título de "malditos". Anti-malditos, tomamos o palco (que era livre): os poetas da capital correram, alguém mostrou a bunda e fomos aplaudidos não por obrigação, mas por entusiasmo. Há algo na poesia que as editoras não dão conta, onde os produtores de evento tropeçam, que docilidade não apreende e com a qual a voz lida maravilhosamente, tanto que se gasta e enrouquece.


Dia 27/11

essa noite eu tive um sonho bonito-macabro
onde trolls literários intelectuais
foram literalmente expulsos do palco
e o verdadeiro pulso, o da calçada
saqueou todos pelas suas entranhas ensanguentadas
e rapazes bonitos sem pé nem cabeça
deixavam seus cus expostos na feira burguesa
então conflitos recentes feitos para durar a vida inteira
foram quebradas por simples ações recíprocas de boa vontade
aliás, o que não foi quebrado naquele sonho do dia 27?
.
.
.
.

* texto publicado na revista artesanal Interpretes da Decadência nº3, disponível para download aqui http://interpretesdadecadencia.blogspot.com.br/?view=classic.

domingo, 29 de novembro de 2015

As obviedades de Paco Bernardo

Burro, mas que esperanceia


O mais difícil é conseguir viver.
Depois que se consegue viver,
o tempo traz
em algum tempo
tudo que sempre quiseste,
leve e respirando.
Estranhamente limpo.


*
       *
             *

Artificial e Forçado


Que coisa óbvia.
Mas que coisa óbvia.
As pessoas só falam coisas óbvias nesse mundo?
Ai, me poupe, minhas vozes são tantas
que me canso, bem. Agora
vou tomar mel. Tomei tanto.
Sim, tomei tanto.
A dor te controla os nervos
te crispa os nervos
deixando-os mais crispados
(crispando tudo)
que um divino metafórico
sem grandes coisas para fazer
que assusta o mundo
aqui debaixo
(caí de cima).
Caí em cima de eu que há pouco caí de cima.

Querendo o pó,
concedo-to.





sábado, 14 de novembro de 2015

O fluxo gaudinesco de Lucas Alvim

lagarto - Gaudí

Uma chuva de penas
coçam orlas de cimento.
Seu frio brilha confortável.
Iluminação nublada
que imunda

sentada gárgula
com olhos de baga.



O abismo não a assusta
grinalda decaída e branca.

A química está envelhecida.

Os ventos não a removem
as cúpulas estão abençoadas
verduras que nada significam.
E não fazendo sentido
ela o cose
enquanto desconversa.

A olho sobre a madeira
de minhas orelhas.
Imaginado o humor das formas
trespassado de sua presença.
De como eram jovens.
De como as noites se desnumeravam.

E ela não se vá.
Entorpecida de sobriedade,
não há nada para o que sentir hoje.
A parafina de minha razão
não se derrete 
se reconstitui bordado
por uma manhã fria.
Uma manhã que não é minha.

lagarto - Gaudí
Químicas musculares
molham relâmpagos
nos sérreos ombros

em que repousam
queixos sentinelas.



Aqui olho gatilho,
quilômetros linguístico

sexo que percorri

na sola estrada
de terra acordada.

Procuro serrado
meus ossos expostos.
Na claridade de não saber,
não sou capaz
de me lembrar da necessidade 
da queda de sombras.

Estou solto do bolso
em animais verdes
nas manchas de nuvens solares.
Ficarei sentado
entre cemiteriais
árvores férreas
e sua pedras vivas
em ornamentos.

Como lagarto humano,
enterro deserto
o dia que se decanta
e primavero
a noite
que se redemoinha
broto branco.

Inseto, guarda-chuvo
minhas pernas cruzadas
na dança relógia
de quinas sem ângulos
e esferas friáveis.

lagarto - Gaudí
Galhos olhos perfuram o doce ventre ar.
Poupo sua essência em ombros ramos.
Pousam em mim pássaras luzes.
Lacrimejantes estrelas da cidade.
Afundo até as costas

Recife de quadrados lógicos.
Longe dos rebanhos do sol.

Não conheço o cansaço.
me foi vendido somente o soterramento
de nossos lazeres.
Entre pinturas de nossos tijolos
a centésima luxuria de meu coração negro
morre em sais expostos ao sol.
De minha felicidade
só tenho sua inorgânica arcaria dentária.
E por um minuto
destruiria todos para brincar com seus cadáveres.
Crente de que nada me faltará.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

domingo, 6 de setembro de 2015

A Bem Soar




o haikai convida por si:


comparações como pastos
convido esses versos
a se ruminarem calados 

Mugido 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ATenda - Clélio Souza


"Rumino fino. Lã de gravidez das aves. Corpo maciço das metáforas. Linha na
 Retina do Poema de Segunda. Prosa dos Monstros Alados com Sísifo.
Mediações de Vinícius: entre Tombos e Tobias. Na carcaça Teodoro: o comício* 
de outro tudo e por fim, Ir go."

(A primeira impressão é a que finca.)

Maços de poesia por todos os lados,
quem foi que tirou a vergonha sintática
desses bichos palavreais alados?

Bambus estendidos ao tronco da noite apanham pessoas,
são palavras que alcançam o buraco do raso.
Um modo de brincar no fundo do poço.

O preço é de pirata que afunda o mar dentro de um barco.
por 3 você leva, por 2 você trás. 10 ou 5 tô tais.
____________________________ Há zines pra todos os Pratos.



(I Virada Cultural de Lavras)
Dias 27 e 28 de Junho de 2015.
Mais Informações:
https://www.facebook.com/viradaculturallavras?ref=ts&fref=ts

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cris Penoni - Monstros Alados

Inquisição
Velheira literária
Alfarrábios
Um ordálio
.
Confesso ter o gosto esnobe
Dos estudantes de literatura
É uma das minhas falhas de caráter
----------------------------------------------------
Pirataria
Faço poesia pirata
Aproprio-me de poemas alheios
Procuro um porto recluso
E ali enterro
Versos, estrofes, rimas, aliterações
.
Pirateio minhas ideias
Ponho-las sob pedra
Misturo com os tesouros saqueados
E proponho inúmeras transformações
A poesia que brota da poesia
Tal é meu lucro bucaneiro
.
Um porém:
Poesia corsária, jamais
Salvador Dalí



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

diOli



minha boca tesa tua pela nua
falo seu voz minha perna sua
língua minha anca sua coito nosso

eu te esfrego e você se entrega
derreto, viro ar e você me ofega



*

    *
  
         *


se você chega de mansinho
e me pede um carinho
- com o cio não negocio -
de pronta entrega me aquiesço

é foda, o que você merece
meu bem
é foda, o que eu mereço






*retirados do livro "Poesia com P__ de Puta" de David diOli

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Agente tamo junto: Como era bom escrever errado.





    Uma coisa há muito me incomoda, mas só recentemente é que me tirou noites e noites de sono: a gente estar errada ao escrever agente.

    Nunca fui bom em escrever certo, minha tendência à poesia vem mais pela transgressão e imaginação do que pelo "amor às letras". As quais, aliás, nunca tive um relacionamento lá muito afeito, nem cultivo por elas muito respeito. Escrevia errado que só. Inclusive agente. Mas comecei a reparar que as pessoas quando percebiam que algo estava errado não conseguiam tirar proveito de nada que havia ali, sentiam alguma coisa no estômago que eu num sei bem como descrever, e faziam uma careta feia de nojo como se a gente tivesse levado um pedaço de carne podre às suas narinas.

     A poesia, no entanto, parece libertina. Quase achei que poderia ali fugir ao imperativo certo/errado. Ledo engano. É lá que as coisas realmente se parecem com o que são: leis arbitrárias e sem sentido e zumbis (até porque a linguagem é isso, né?). Ora, um poema hoje em dia aceita tudo: dialeto virtual, regionalismos, onomatopeias. Mas insira um "agente" sem trocadilho intencional nem qualquer contextualização... A sarjeta e o desprezo o aguardarão. Lulu Santos pagou os capangas poetas marginais apenas para assassinarem a métrica que já estava agonizante, a gramática eles apenas assaltaram.

     Esses dias mesmo fui confrontado a isso: no meio de uma conversa falávamos da beleza das interações linguísticas e um bom estudante das humanas declarou que atualmente estava com muita preguiça de errada escrita. Disse a ele "mas é belo & belo" e perguntei "coisas como o que?". "A gente junto não dá pra aturar" - respondeu o estudante.

       Sim o a gente. Essa expressão (é isso mesmo, uma expressão?), penso, é onde se encontra o ponto de tensão mais exacerbado entre a galera do fundão e a professora de óculos e saia azul opaco abaixo dos joelhos. É aí que a academia segura as rédeas, mas não me posicionarei (contra o pensamento endêmico acadêmico), tenho sofrido muito por tomar tantos posicionamentos. Todos eles de um extremo radicalismo lunático. Depois de ser tantas vezes reprovado na academia estou começando a aprender a manter um distanciamento crítico, a me manter separado. Embora lá no fundo minha filosofia de vida que clama por amor e paz e acredita que somos mutantes uma pessoa só ache que a gente tem mais é que ficar tudo junto.

      No mais o agente torna todo mundo senhor de si quando tamo junto (e não todo o mundo). Agente de seu próprio destino, o que seria inevitável, se não viesse sempre uma carranca dizer-nos que temos sempre que separar tudo a fins de catalogação. Até porque quando escrevo que a gente foi à padaria sempre fico os vendo descer a rua por entre as grades da janela.

 
                     "Até porque quando escrevo que a gente
                foi à padaria sempre fico os vendo descer
                 a rua por entre as grades da janela." 
  

     Não vos parece que são eles sem mim: a gente? A gente desceu do ônibus é uma frase vista de cima, por um narrador onipresente ou de uma sacada de apartamento no centro. É diferente do a gente que agente diz e por isso justifica escrever de outro jeito, mesmo que não saibamos justificar. Agente desceu do ônibus, eu, o Beto e o Gilmar e fomos orçar a camisa da formatura - né não, terceirão! Estamos nós juntos, misturados e agindo coordenadamente sem a necessidade de um líder proclamado, portanto, imbuídos de poder.

      Acredito mesmo nisso. As línguas refletem nossa ideologia: movimento oposto à esse que tenta separar a gente seria o movimento rastafarI que inseria a palavra "eu" em quase todas as palavras.

       Mas não levem isso muito a sério, são só divagações de alguém que escreve muito e que demorou pacas para aprender os adornos mínimos exigidos para veicular impulsos em letras. Lembro de um poema em que escrevi "atoras francesas antigas" e me doeu muito arrumar. Mesmo sabendo o certo e sendo o certo mais bonitas e curvilíneas e meigas: as atrizes são muito mimadas! Queria me referir - mas que coisa impossível! - às atoras mesmo.

      Quanto às vírgulas, tenho me acostumado, a elas, quando não sei bem, quando colocar, saio virgulando tudo, de modo, que parece que a gente tá, viajando, naquele ponto da rodovia, onde ela atravessa cidade, e tem quebra-molas, pra porra!
   
        Antes preocupava apenas com o espírito do escrito e que ele (como eu) estivesse usando uma roupa velha rasgada e que lhe assentasse bem. Devo admitir que sou mais versado em dar nó em gravata de texto do que em amarrar meus tênis (embora saiba bem pouco sobre as gravatas dos textos). Aos textos são exigidos, além de se passar e engomar, que a meia combine com o detalhe do colarinho. Deve ser por isso que os capitalistas e operários acham escrita coisa de moçoila. 



Vinicius Tobias
      

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

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