Pobrezas
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm
tempo pra perder tempo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm
silêncio e nem podem comprá-lo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm
pernas que se esqueceram de andar, como as asas
das galinhas, que se esqueceram de voar.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que comem
lixo e pagam por ele como se fosse comida.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm o
direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar
nada por ela.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm
liberdade senão para escolher entre um e outro canal
de televisão.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que vivem
dramas passionais com as máquinas.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que sempre
são muitos e sempre estão sós.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não sabem
que são pobres.
terça-feira, 25 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Uma estranha espécie animal - José Carlos Balieiro
À margem
Nos arredores da minha cidade natal
Solitariamente apartado das gerações
Percorro matas, grutas e plantações
Como uma estranha espécie animal.
Conheço tão poucos lugares.
Nem sei em que mundo vivo.
De informações, sorrateiro me esquivo.
Vago entre pastos e pomares.
À noitinha retorno a cidade iluminada.
Pessoas, automóveis, velocidade alucinada.
Na minha casa, certo silêncio, nada se move.
Eu, absorto, leio um romance do século dezenove.
Nos arredores da minha cidade natal
Solitariamente apartado das gerações
Percorro matas, grutas e plantações
Como uma estranha espécie animal.
Conheço tão poucos lugares.
Nem sei em que mundo vivo.
De informações, sorrateiro me esquivo.
Vago entre pastos e pomares.
À noitinha retorno a cidade iluminada.
Pessoas, automóveis, velocidade alucinada.
Na minha casa, certo silêncio, nada se move.
Eu, absorto, leio um romance do século dezenove.
*pic: reprodução de obra de Fábio Baroli
Tripalium
"A origem da palavra trabalho vem da
forma latina tripalium, um instrumento de
tortura usado na roma antiga, formado por
três estacas de madeira cravadas no chão,
onde os escravos eram amarrados para o suplício."
forma latina tripalium, um instrumento de
tortura usado na roma antiga, formado por
três estacas de madeira cravadas no chão,
onde os escravos eram amarrados para o suplício."
Acordo somente quando sonho
Sonho por não querer acordar
Se acordo, sigo entre os sonâmbulos
A noite é longa, os versos não.....
Não é o sol isto que clareia na horizonte
É uma afta infeccionada no céu
No céu da boca aberta de Deus.
Nas primeiras horas da manhã
As faces ainda preservam incertos resquícios
De tudo que se viveu na inebriante inércia do leito.
Por debaixo desses cobertores que nos encobrem
Onde os corpos descobrem corpos astrais.
Na profundidade de si, criaturas abissais.
Despertadores despertam pessoas
que se misturam nos metrôs
que se apertam nos ônibus
A cidade funciona, pessoas funcionam
Neste pequeno sonho cotidiano de todos.
Sem que todos queiram.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Han Shan: Cronicas do mestre dos vagabundos do dharma sem fazer nada na Montanha Gelada
As Montanhas Tientai são meu lar
Entre trilhas cobertas de nevoeiros em meio a nuvens
Isso mantém os hóspedes longe
Penhascos de mil metros fazem se esconder fácil
Acima de uma quina rochosa entre dez mil córregos
Com um manto de cânhamo e bastão de caruru eu contorno os picos
Enxergado além da impermanência e ilusão
As alegrias de vagar livremente são maravilhosas
***
Minha verdadeira morada está na Montanha Fria
Empoleirado nos penhascos além do alcance dos problemas
As imagens não deixam impressões quando se vão
Eu vagueio por todo o universo daqui
Luzes e sombras dançam em minha mente
Nem só um dharma aparece diante de mim
Desde que achei a pérola mágica
Posso ir a qualquer lugar, qualquer lugar é perfeito
***
Ontem subi até o cume
E fitei para baixo de um penhasco profundo
Uma árvore se tombava na quina
O vento desnudou seus dois membros
A chuva arrancou suas folhas
O sol a secou como o pó
Ai de mim que uma coisa verdejava tanto
É agora uma pilha de cinzas
***
Toda minha vida preguiçoso demais para trabalhar
Favorecendo o leve sobre o pesado
Outros tomam para si uma carreira
Eu seguro um sutra
Um rolo de papel com nada dentro
Eu o abro onde quer que esteja
Para toda doença tem uma cura
Cura com qualquer coisa funciona
Uma vez que você não tenha um plano
Onde quer que vá está alerta
***
Desde um elevado pico da montanha
A vista se estende para sempre
Sento aqui desconhecido
A lua solitária ilumina a Montanha Fria
Na primavera não há lua
A lua está no céu
Canto essa cantiga única
Uma canção na qual não há Zen
*Han Shan (Montanha Gelada) é um poeta mítico do zen que viveu entre os séculos VII ou VIII
**Tradução de Marcos Beltrão, download
*A pergunta que Han Shan faz é a seguinte: Quem é o homem que subirá a montanha gelada e virá ter comigo?
"'Alvah, o seu problema é que você não pratica seu zazen noturno o bastante, principalmente quando faz frio lá fora, o que é muito melhor, além disso você deveria se casar e ter filhos mestiços, manuscritos, cobertores feitos em casa e leite materno sobre o seu tatame alegre e esfarrapado como este aqui. Arrume uma cabana para morar no mato não muito longe da cidade, gaste pouco para viver, enlouqueça em um bar de vez em quando, escreva e caminhe pelas montanhas e aprenda a serrar tábuas e converse com velhinhas, seu grande tolo, carregue muita madeira para elas, bata palmas em altares, consiga favores sobrenaturais, faça aulas de arranjos florais e plante crisântemos ao lado da porta, e se case pelamordedeus, arrume uma moça humana gentil, inteligente e sensível que não liga para os martinis de toda a noite nem para todo aquele maquinário branco na cozinha'
'Ah', diz Alvah, sentando-se todo contente; 'O que mais?'
'Pense nas andorinhas do celeiro e nos falcões da noite enchendo os campos. Sabe, Ray, desde ontem traduzi mais uma estrofe de Han Shan, ouça: "A montanha gelada é uma casa, sem pilastras nem paredes, as seis portas à esquerda e à direita estão abertas, o corredor é o céu azul, os quartos estão vagos e vazios, a parede leste bate na oeste, no meio não tem nada'. Pessoas que tomam coisas emprestadas não me incomodam, no frio armo uma fogueirinha, quando tenho fome cozinho algumas verduras, não tenho o que fazer com o cúlaque com seu celeiro e seu pasto extenso... ele só constrói uma prisão para si mesmo; uma vez lá dentro, não consegue mais sair, pense bem, isso pode acontecer com você."
*Trecho de Os Vagabundos iluminados onde Jack Kerouac reproduz, em meio à bebedeira, um discurso de Gary Snyder (no livro Jalphy Ryder), o beatnick zen anarquista e tradutor do Han Shan.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Larva Lança Livro - Metal Físico
A série de publicações poéticas Intervenção Humana, de Vinicius Tobias, chega ao seu 4º Capítulo. Após o Eu poético passar fome de moderação no Primeiro Capítulo, tentar minimamente organizar-se como um país vencido no Segundo Capítulo, projetar para o futuro sua própria humanidade no Terceiro Capítulo, agora sem nenhuma veste ele se pergunta sobre o sentido da existência.
Ao fazer esse debate a própria linguagem que descreve a realidade, aliás, a própria realidade é posta em cheque. As coisas realmente existem?
Traçados esses planos qual é o céntimo de realidade que temos acesso pela nossa vida cotidiana, cheias de distinções e de sérios problemas que não têm sustentação perante qualquer entendimento? Dar nomes e criar conceitos é um passo para frente ou para trás na busca pela sabedoria?
É possivel imaginar as coisas sem nossos sentidos para percebê-las, e se nossos sentidos fossem outros, as coisas também seriam outras?
O debate sobre esse acesso é feito, de forma processual, no livro Metal Físico a partir de quadras banais, leis da física e fotos anti-linguísticas.
Segue degustação:
* O coffee break será oferecido pela Padaria Pão Gostoso.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
"Panifesto" da Poesia Urbana contra o Eufemismo e a Cátedra - Lucas F.L
Que fique bem claro seu-dotô
A Poesia Urbana é uma praga
que se alastra como as favelas
cheira à água de despejo
perturba como insônia
tem a força do tráfico
e o atrevimento dos pivetes do Brás
Não adianta fechar seus vidros elétricos
e viajar para a Glória, a baía, a linha do horizonte
pois a fome das ruas arranhará sua lataria importada
incendiará sua vitrine de magazines
Ela anda como os desprovidos
revela sem eufemismo'
as mazelas humanas
a cidade oculta
a tristeza dos chineses
a loucura reprimida dos Garis
Se cuida, turista deslumbrado
um arrastão de versos miseráveis
invadirá sua praia
sequestrará seus fetiches literários,
seus continhos fantásticos,
e estraçalhará sua poesia plástica
num tiroteio hediondo
Um conselho?
se não quiser perder a pose
corra para bem longe
esconda-se atrás dos muros da academia
dope seus jovens operários com boas doses de informação
títulos
e reproduza robôs mais fortes
o suficiente para dar conta do que você não deu
Aqui fora
as crianças continuam praticando papai e mamãe
jovens morrem com a cabeça vazia no volante
existe uma massa de carne e osso dopada de altas doses-
institucionais
escolas apodrecem
falta teatro, cinema e orgia para o povo
E você catedrático,
só preocupado com a chegada de um livro
importado
e o congresso no planeta Hermético
*pic: Lucas F.L
A Poesia Urbana é uma praga
que se alastra como as favelas
cheira à água de despejo
perturba como insônia
tem a força do tráfico
e o atrevimento dos pivetes do Brás
Não adianta fechar seus vidros elétricos
e viajar para a Glória, a baía, a linha do horizonte
pois a fome das ruas arranhará sua lataria importada
incendiará sua vitrine de magazines
Ela anda como os desprovidos
revela sem eufemismo'
as mazelas humanas
a cidade oculta
a tristeza dos chineses
a loucura reprimida dos Garis
Se cuida, turista deslumbrado
um arrastão de versos miseráveis
invadirá sua praia
sequestrará seus fetiches literários,
seus continhos fantásticos,
e estraçalhará sua poesia plástica
num tiroteio hediondo
Um conselho?
se não quiser perder a pose
corra para bem longe
esconda-se atrás dos muros da academia
dope seus jovens operários com boas doses de informação
títulos
e reproduza robôs mais fortes
o suficiente para dar conta do que você não deu
Aqui fora
as crianças continuam praticando papai e mamãe
jovens morrem com a cabeça vazia no volante
existe uma massa de carne e osso dopada de altas doses-
institucionais
escolas apodrecem
falta teatro, cinema e orgia para o povo
E você catedrático,
só preocupado com a chegada de um livro
importado
e o congresso no planeta Hermético
*pic: Lucas F.L
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3. Revelando o filme (autores ascendentes),
4. Poesia,
Lucas F.L
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Poesia Poligrota - Autor Desconhecido
É verdade matemática
que ninguém pódi negá,
que essa história de gramática
só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra
ajudá a cumpricá
Mió falá o brasileiro
que todos sabe falá.
Na Ingraterra ouví dizê
que um pé de sapato é xu.
Desde logo já se vê,
dois pé deve sê xuxu.
Xuxu pra nóis é um ligume
que cresce sorto no mato.
Os ingrêis lá que se arrume,
mas nóis num come sapato.
Na Argentina, veja ocêis,
um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva
tem que pô saco no sór.
E se acaso ele encóie,
a muié diz o pió:
"Teu saco ficô piqueno
vê se arranja ôtro maió"...
Na América corpo é bódi
Veja que bódi foi dá.
Conheci uma americana
doida pro bódi emprestá.
Fiquei meio atrapaiado
e disse pra me escapá:
Ói, moça, eu não sou cabra,
chega seu bódi pra lá!
Na Alemanha tudo é bundes.
Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confundi
disnorteia o coração.
Alemão ó, menos bundes
que só nos trais confusão.
pro que di trais desses bundes
sempre vem um salsichão.
No chile cueca é dança
de balançá e rodá.
Lá se dança e baila cueca
inté a noite acabá.
Mas se um dia um chileno
vié pro Brasi dançá,
que tente mostrá a cueca
pra vê onde vai pará.
Eu conheci um francêis
que me deu uma gravata azu.
Preguntei, onde se bota?
E ele me disse no cu.
Eu sou óme confirmado
mais respeito entendeu?
Seu franceis mar educado
bota a gravata no seu!
E vindo de Portugá
tem um dizê que num cola
lá os putos são as crianças
imagine isso na escola
a fessora vim dize:
vou da aula pra esses putos
oh! tiro meus fio na hora,
num dimito esses insurtos
E o Japão que aqui chegô
Sim sinhoro arigatô
com o kimono e o co shoyo
vapt a nossa lingua robo
nois fazia era serenata
hoje é karaokê
aquelas briga de tapa
Elis diz que é Karatê
E pra vosmiceis eu afirmo,
tem que se tê pusição.
Ô nóis fala a nossa língua,
ô num fala nada não.
Pois num pode um povo
fazê papér de idiota,
dizendo tudo que é novo
só pra falá poligrota
Na Itália els diz até,
eu não sei pro que razão,
que como mantêga é burro,
se passa burro no pão.
Ara agora chega,
certo é a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga,
burro é burro e pão é pão (e tenho dito)
*Extraído do cordel "Cordéis do Canfundó" de Cascão.
** Parece que vender poesias na rua não é novidade não né...
que ninguém pódi negá,
que essa história de gramática
só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra
ajudá a cumpricá
Mió falá o brasileiro
que todos sabe falá.
Na Ingraterra ouví dizê
que um pé de sapato é xu.
Desde logo já se vê,
dois pé deve sê xuxu.
Xuxu pra nóis é um ligume
que cresce sorto no mato.
Os ingrêis lá que se arrume,
mas nóis num come sapato.
Na Argentina, veja ocêis,
um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva
tem que pô saco no sór.
E se acaso ele encóie,
a muié diz o pió:
"Teu saco ficô piqueno
vê se arranja ôtro maió"...
Na América corpo é bódi
Veja que bódi foi dá.
Conheci uma americana
doida pro bódi emprestá.
Fiquei meio atrapaiado
e disse pra me escapá:
Ói, moça, eu não sou cabra,
chega seu bódi pra lá!
Na Alemanha tudo é bundes.
Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confundi
disnorteia o coração.
Alemão ó, menos bundes
que só nos trais confusão.
pro que di trais desses bundes
sempre vem um salsichão.
No chile cueca é dança
de balançá e rodá.
Lá se dança e baila cueca
inté a noite acabá.
Mas se um dia um chileno
vié pro Brasi dançá,
que tente mostrá a cueca
pra vê onde vai pará.
Eu conheci um francêis
que me deu uma gravata azu.
Preguntei, onde se bota?
E ele me disse no cu.
Eu sou óme confirmado
mais respeito entendeu?
Seu franceis mar educado
bota a gravata no seu!
E vindo de Portugá
tem um dizê que num cola
lá os putos são as crianças
imagine isso na escola
a fessora vim dize:
vou da aula pra esses putos
oh! tiro meus fio na hora,
num dimito esses insurtos
E o Japão que aqui chegô
Sim sinhoro arigatô
com o kimono e o co shoyo
vapt a nossa lingua robo
nois fazia era serenata
hoje é karaokê
aquelas briga de tapa
Elis diz que é Karatê
E pra vosmiceis eu afirmo,
tem que se tê pusição.
Ô nóis fala a nossa língua,
ô num fala nada não.
Pois num pode um povo
fazê papér de idiota,
dizendo tudo que é novo
só pra falá poligrota
Na Itália els diz até,
eu não sei pro que razão,
que como mantêga é burro,
se passa burro no pão.
Ara agora chega,
certo é a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga,
burro é burro e pão é pão (e tenho dito)
*Extraído do cordel "Cordéis do Canfundó" de Cascão.
** Parece que vender poesias na rua não é novidade não né...
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2. Passando a mão (resenhas),
4. Cordéis,
5. Literatura Brasileira
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
De corpo e software - Igor Alves
não que eu me importe
com a altura da sua
literatura
escorrendo pelo
cânone
sei, é deprimente
a cultura pop
subdesenvolvida
dessa triste
américa latina
felizmente
pra aumentar
minha auto estima
tenho o face
compartilho uma
frase do Shakespeare
não sei se é confiável
mas é bonita
se quiser comente
mas não critica
a situação da crítica
é crítica
leio e me livro
depois caio
tem novela às nove
depois jogo do flamengo
na night um show
de samba rock
no corujão vai passar Hamlet
vou assistir
.
.
.
se chegar a tempo
* pic: Glauco Soares
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3. Revelando o filme (autores ascendentes),
4. Poesia,
Igor Alves
domingo, 23 de junho de 2013
2. Muita coisa se poderia fazer em favor da poesia: (Manoel de Barros)
a - Esfregar pedras na paisagem.
b- Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c- Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se
d- Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em Carlitos.
e- Perguntar distraído: - O que há de você na água?
f- Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas de
Mário-pega-sapo era nua. Por isso as crianças e as putas
do jardim o entendiam.
g- Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, terens
de rua e de música, cisco de olho, moscas de pensão...
h- Aprender a capinar com enxada cega.
i- Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos
j- Deixar os substantivos passarem anos no esterco, deitados
de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto
de chão - como cabelos desfeitos no chão - ou como um bule
de Braque - áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro - um
amarelo grosso de ouro da terra, carvão de folhas.
l- Jogar pedrinhas nim moscas....
b- Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c- Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se
d- Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em Carlitos.
e- Perguntar distraído: - O que há de você na água?
f- Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas de
Mário-pega-sapo era nua. Por isso as crianças e as putas
do jardim o entendiam.
g- Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, terens
de rua e de música, cisco de olho, moscas de pensão...
h- Aprender a capinar com enxada cega.
i- Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos
j- Deixar os substantivos passarem anos no esterco, deitados
de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto
de chão - como cabelos desfeitos no chão - ou como um bule
de Braque - áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro - um
amarelo grosso de ouro da terra, carvão de folhas.
l- Jogar pedrinhas nim moscas....
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4. Poesia,
5. Poesia Brasileira,
Manoel de Barros
segunda-feira, 3 de junho de 2013
o ROÇA N’ ROLL é (e) o mundo
‘E enquanto viver
Também depois, na luz
Ou num vazio fundo
Perguntarei: até quando?
Até que se desfaçam
As cordas do sentir
Nunca até quando.’
Também depois, na luz
Ou num vazio fundo
Perguntarei: até quando?
Até que se desfaçam
As cordas do sentir
Nunca até quando.’
Comecinho dos anos dois
mil, lembro-me bem o choque que foi meu primeiro Roça n’ Roll, ainda no Sítio Engrenagem. Em tempos de internet discada, entre a fita cassete e o CD, ainda
havia espaço para o deslumbre de ver e viver o som, na pele, e não só ouvir em
casa ou ver no youtube.
Virver e se perder em
meio àquela multidão embriagada, de roupas negras, cabelos longos (o meu na
época, nem tanto) era um êxtase. Tenho certeza, sem exageros, que o rumo de
muitas vidas são traçados em lugares apoteóticos como esse. Fora os amores e
amizades que se fazem e se desfazem aí, a partir daí.
Algo como pensar, mesmo
sem pensar, ou dizer, mesmo sem dizer: “É ISSO! porra.”
Tanto para o menino de
então, como para o menino de agora, ainda com o corpo dolorido, a roupa suja e
a alma lavada, depois do décimo quinto episódio do ROÇA.
Interessante demais essa
capacidade gregária que a música tem, que a cultura de forma geral tem,
especialmente quando, sob um signo comum, ela se abre para outras tantas
possibilidades. O Heavy Metal, que desdo blues até rock, e daí para o blacksabanismo
que se transmutou em tantas expressões, unindo nesse movimento rizomático, o
local e o global, aparece aí como chave para se pensar o contemporâneo.
Prova disso foram as
três atrações principais desse ano: Grave Digger, Orphaned Land e Tuatha de Danann.
O Grave, veterana com mais de 30 anos de banda, dispensa apresentações, o show
não deixou nada a desejar, com todos os clássicos que todos queriam ouvir, e a
presença de palco inconfundível da banda. Subiram no palco como quem sabe o que
foi fazer ali, e fizeram. The clans are still marching.
O Tuatha, junto da
lenda cachaceira Martin Walkyier, fizeram um show esperado por muitos. Não adianta, Bruno,
Geovane, Berne: NÃO DEIXEM ESSA BANDA ACABAR. Era isso que o público, cantando,
pulando, dançando todas as músicas diziam, sem dizer, todo o tempo. O grupo faz
uma feliz mescla de música celta, Heavy (doom, death etc.) Metal e
principalmente, muita criatividade, tato e talento de cada integrante. Eu vi
gente chorando lá no meio, e se isso aí não for motivo para a arte, não sei o
que é. Já que ninguém vai salvar o mundo, vamos criar nossos espaços no meio do
inferno. Foi ótimo ver vocês de volta, e esperamos que seja outro primeiro
passo rumo a um horizonte cada vez mais promissor, que já mostrava seu rosto
desde os shows em troca de cachaça no Nove Luas, no Minas Rock. O Tuatha tem
tudo pra ser o que um Sepultura, um Tom Jobim, um Villa Lobos já foi e é para o
Brasil e o mundo.
Finalmente, o que para
muitos foi uma agradabilíssima surpresa: o Orphaned Land. A banda de Israel
impressionou com a qualidade absurda de cada um dos músicos, fora o carisma, a
presença de palco, e suas composições que mesclam a música do oriente-médio com
um prog./doom metal, que transita por diversos gêneros, mostrando que, sim,
ainda há espaço para a criação, para o encontro entre os “diferentes”. E para
uma preocupação política e humana, junto da produção artística, como eles não se
cansam de repetir, inclusive no título de seu novo álbum “All is One”.
A música une. Como os
ônibus de Lavras (os últimos, pra variar) que atolaram na lama do estacionamento
na hora de sair, e precisou do braço de boa parte dos 100 que estavam lá,
detonados, querendo ir pra casa.
Une a seriedade de
alguns com piãozagens como guerreiros do star wars invadindo o festival a
caráter, fora as presepagens de tanta gente, os causos, e a publicidade que
mescla em imagem e linguagem, o tantas vezes cisudo rock n’ roll com o bom
humor do interior caipira, onde se vê bem a cara dos organizadores, como o
Bruno e o Rodrigo Monstrão.
Felizmente, em meio à
vida virtualizada que cresce exponencialmente, ao rodízio de (cultura de)
massas, pão e circo que vemos pelas ruas e mídias, esse pessoal, como tantos
outros, vão nadando contra a corrente, contra a ‘Cultura’. A neotribalização que
junta afins a partir de significantes estéticos e ideológicos comuns, não
serviu só para reproduzir padrões vazios, gerar mais solidão prometendo o
contrário (a la rivotril) ou incentivar violências (inclusive não vi nenhuma,
no festival). Ela pode servir, sim, índios que somos, roots que somos, antropófagos que somos, para criar o novo de novo.
A estética do grotesco,
desde Poe e Baudelaire, nos mostrou que o belo vai além do “bonito”, mas está
no expressivo. No que agrega, sintetiza, engole e vomita. E aí está o Motoserra, o Cracker Blues, Aneurose,
o Kernunna, o Malefactor e tantos outros, berrando isso. Até perder a voz, e encontrar outras.
Entre um vinho barato e outro, entre um murro na
cara num mosh e um abraço de quem está se conhecendo ou se re conhecendo depois
de muito tempo.
Saio desse
texto, como quem pisou no barro da roça e da criação; e gostou do que viu.
foto: Orphaned Land e alguns de nós
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Uma peça bem fadada
Começa no auge, no meio do espetáculo, com
uns pontos de exclamação do depoente. Alguns soltam uns bocejos em sinal
de aprovação e outros continuam bebendo em copos descartáveis.
Aparentemente nem todos estão ali para ouvir a peça bem fadada.
íssimo realce ardente
virulentas pompas adjetivadas
olha o seio catereto de hipérbole
num sofregue com as palmas
exclama só no time
Flick
Ninguém tosse no decorrer da peça bem-fadada, eles deixam o pigarro e o espirro pra missa de domingo. Como não há missa de domingo, o catarro é sempre adiado.
O íssimo chegou e resolveu parar pra beber de graça.
íssimo realce ardente
virulentas pompas adjetivadas
olha o seio catereto de hipérbole
num sofregue com as palmas
exclama só no time
Flick
Ninguém tosse no decorrer da peça bem-fadada, eles deixam o pigarro e o espirro pra missa de domingo. Como não há missa de domingo, o catarro é sempre adiado.
O íssimo chegou e resolveu parar pra beber de graça.
![]() |
| Francis Bacon |
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Equivocos - Lucas F. L
1º Equivoco
O
tempo seco
“cuidado
qualquer
inflamação na garganta pode te levar a óbito”
Mas
fique calmo
consulte
seu plano de saúde
A
cidade
um
deserto
respiração
poeira
Quem
passa pela praça
escuta
apenas ciganas rogando pragas
“as
mãos estão todas iguais”
No
termômetro
38º
2º Equivoco
A
pipoca jogada ou acidentalmente perdida
é
disputada num lance de dados por pombos
e por seres cinzas enrolados em cobertores.
e por seres cinzas enrolados em cobertores.
Esses
por sua vez
evitam
o mínimo movimento durante as noites,
qualquer
gasto de gordura pode ser fatal
...
O
SENSACIONAL de ontem
encontra-se
nas mãos de um barbudo sensato
papel
vagabundo
traçando
o exagero
e
a extravagancia
logo
a frente
motoristas
que passam por uma moto sem a roda da frente
riem
do poste sacana
muletas
pra quem te quer!
3º Equivoco
Eu
sei...
é
mais uma impressão óbvia
mais
uma chateação escrita
mas
é
nesses pedaços providos de domingos mal dormidos
que
percebo qual é o tipo da força humana
Presumo que...
essa
força
é
a mesma do capim gordura sob o sol
praga
invasora de terrenos baldios
que
não se resolve com poda
ou
guilhotina
Você
envelhece e morre
e
a humanidade insiste no erro
sufocando
flores silvestres
e
abrigando em sua vegetação rasteira
um
mundo de carrapatos
pic's: Minotauros ilustrados por Picasso
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