quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mãe dos Budas, Rainha do céu, mãe do sol; Marici, Deusa do amanhecer

Ao monge Ghosananda


 porca velha na lama

negros pêlos endurecidos

abaixo do pescoço poderoso


patinhas remexendo

corpo agachado escorregando

fundo na lavagem


sua morna imundície,

fuçando tudo,

tetas arrastando


os que a criam

ou a comem

são proscritos


ela levanta o olhinho

da terra pra

me encarar.


Gary Snider

Nalanda, Bihar

Retirado do Livro Re-habitar

Azougue Editorial, 2005




segunda-feira, 21 de setembro de 2020

As treze dicas (lunáticas) de Walter Benjamin a escritores.


 É proibido afixar cartazes


A técnica do escritor em treze teses


I. Quem quiser lançar-se a escrever uma obra de fôlego, instale-se comodamente e conceda a si próprio ao fim de cada dia de trabalho tudo aquilo que não prejudique a sua continuação.

II. Fale do que escreveu, se quiser, mas não leia nada a nínguem enquanto o trabalho estiver em curso. Toda a satisfação que daí possa retirar retardará o seu ritmo. Seguindo esse regime, o desejo crescente de comunicação acabará por ser um estímulo à conclusão.

III. Quanto às condições de trabalho, procure fugir à mediocridade da vida quotidiana. O meio sossego, acompanhado de ruídos pouco estimulantes, é degradante. Já o ruído de fundo de um estudo musical ou da confusão de vozes pode ser tão importante para o trabalho quanto o silêncio tangível da noite. Se este afina o ouvido interior, aqueles se tornam pedra de toque de uma dicção cuja riqueza consegue absorver em si até esses ruídos excêntricos.

IV. Evite servir-se o primeiro instrumento de trabalho que tenha à mão. É útil o apego pedante a determinados tipos de papel, canetas, tintas. Sem luxos, mas com a indispensável abundância desses utensílios.

V. Não deixe que nenhum pensamento passe por você incógnito, e use seu bloco de notas com o mesmo rigor com que os servições oficiais fazem o registro dos estrangeiros.

VI. Torne a sua caneta avessa à inspiração, e ela a atrairá a si com a força de um ímã. Quanto mais refletir antes de passar a escrito uma intuição, tanto mais amadurecida ela se te oferecerá. A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.

VII. Nunca deixe de escrever pelo fato de não o ocorrer mais nada. Um dos mandamentos da honra literária é o de interromper a escrita apenas quando há que respeitar uma hora marcada (uma refeição, um encontro) ou quando damos o trabalho por terminado.

VIII. Preencha os momentos de falta de inspiração passando a limpo o que já escreveu. Entretanto, a inspiração despertará.

IX. Nulla dies sine linea - mas semanas sim.

X. Nunca dê uma obra por acabada sem ter mergulhado nela uma vez mais. desde o serão até ao nascer do dia.

XI. Não escreva a conclusão do trabalho no lugar onde habitualmente trabalha. Aí, perderia a coragem de fazê-lo.

XII. Graus de elaboração da obra: pensamento - estilo - escrita. A finalidade de passar a limpo é a de que agora toda a atenção se concentre na caligrafia. O pensamento mata a inspiração, o estilo aprisiona o pensamento, a escrita recompensa o estilo.

XIII. A obra é a máscara mortuária da sua concepção.


Rua de mão única / 

Infância Berlinense, 1900

Editora Autêntica, 2013

p. 27-28


 Jeremy Geddes, Cosmonaut

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

(-)

 (-) o cheiro úmido das coisas que falam em silêncio


o orvalho sorve o concreto das paredes &

mais de quarenta anos

& os sonhos seguem inalcançáveis

a casa não deu,

namorado, emprego, beleza se vai,

as dúvidas sem boca

o gosto agridoce do sexo

as soluções sem conteúdo (das informações reproduzidas)

a cartilagem débil de sentir

& a luta entre ter ou ser dos moluscos no óleo

& o orvalho 

sorvendo o concreto das paredes




(-) reencontro


antigamente era simples

todo mundo se comia depois ia embora

hoje

você aqui na minha cara (neste apartamento)

eu viro mosca

& procuro uma fruta podre onde me esconder




(-) reencontro II


a nossa poesia sucumbiu

ficou

miúda de tesão



(-) os revolucionários também sabem ser caretas


esfaqueamos o rei & nas mãos ficou sangue

traímos 

tudo o que podíamos

até que o mofo cresceu nas cicatrizes

& a vida virou a bunda murcha no cabaret da travesti cansada



(-) memórias do nosso apartamento que resolvi esquecer debaixo da cama porque o banal do cotidiano é o maior continente da alma &depois da casca das feridas há névoa


o gato roçando a geladeira

(& você lavando louça)




(-) a beleza inaudível das coisas é arte


parece uma égua

abaixando-se para a água no bebedouro público

roupas coladas de suor

& os cabelos azucrinados do sol em seus olhos


Guilherme Paiffer Pelodan



                                        Kouřící žena




quinta-feira, 3 de setembro de 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Solidão-liberdade

 

A solidão me assola

Não me demoras, faço dela um prazer na minha solitude que esboça

Teu gosto é de pedra doce e saudade

Bebo vinho dez pras dez da noite

E toco piano por pura vaidade

Conto os dias, conto as horas, nessa solidão cheia de liberdade

Os ponteiros do relógio mentem às quintas

Meus livros estão cheios de tinta

Coisa velha faz borrão na parede

A lua invade a casa solitária e caminha entre as emoções cheia de sede

Bebe de mim o sonho de ontem

A solidão é libertária, nela me desprendo, sanidade, vôo com par de asas em total solitude, cheio de saudade

Agora sou mariposa, Maria que pousa corujeando o azul

Na melancolia, que é menina bonita

Aflita, chora e chove entre as couves do jardim

Seja solidão, seja liberdade, seja par de asas, que nessa alma exala

Seja o relógio, a tinta, a parede, a mariposa, a sede, tudo sou eu, gritando para outros eus.


Poema de Brunno Vianna e Débora Zambi





Débora, que é integrante da Academia de Letras e Arte de São João de Meriti, lançou em 2019 o livro Metamorfose Poética, que pode ser encontrado no site da Editora Metanoia: https://loja.metanoiaeditora.com/deborazambi. Enquanto Brunno Vianna lançou em 2020 Cartas Para a Cidade, livro de contos e crônicas disponível no site do Clube de Autores: https://clubedeautores.com.br/books/search?where=books&what=Cartas+para=a=cidade. O autor também disponibiliza o e-book do livro a todos que entram em contato pelo Instagram @brunnoviannarj. Além de fazer lives sobre Literatura ele mantém o Instagram @espelhodeleituras à disposição de todos os autores que quiserem divulgar seus livros e textos.

Esse poema foi criado em uma delas.



segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Dois poemas de Tassio Ribeiro

 


Raro, seu olhar castanho escuro

Sobre o muro que corta a cidade.

Cinza, cor do tempo, neste lugar

vazio de poesia, flores, árvores.

Tudo mudo, e você aqui observando

O silêncio contínuo

Que insiste em mostrar 

Nada além do tempo

Que passa sem nada

No seu devido lugar


* * * 


Meu pai engraxou os sapatos.

Um hábito antigo que aprendeu

No passado. Pegou seu casaco

E foi para o trabalho, onde era

Um operário. Trabalhava

O dia todo; levava a marmita,

E o café. Minha mãe cuidava

Da casa, e dos meus irmãos.

O seu salário quase não supria

As necessidades da casa.

Mas fazia o que podia, para

Garantir o sustento. E a sua maior

Virtude era a poesia, que fazia

Nas raras horas vagas. Dizia que

Tudo é uma questão de tempo e 

Paciência. E o sorriso já amarelo,

Acalentava a todos, que via sua

Fibra, no corpo franzino, boca de menino, e a coragem de um leão.




Tassio Ribeiro





sábado, 13 de junho de 2020

Pó ética + gif poema

Ir go pra quem não sabe, além de um anagrama do meu nome, é um pleonasmo bilíngue, tipo "short curto", o que não quer dizer absolutamente nada.
Pra quem acha que trocadilho não é matéria pra poema, fique à vontade ou com vontade aí no seu vanguardismo marginal, sua alta filosofia ou seu super intelecto supracadêmico, querendo dizer absolutamente tudo.
Enquanto vocês se importam demais na lucidez da crítica. Eu me exporto mais na ludicidade da vida.
Como quem curte um som, fazendo malabarismos com vibrações acústicas, arte também chamada de música.
A vocês, todas as honrarias e profundidades da eternidade artística.
Eu fico de boa na efemeridade da superfície ávida e vívida.

Prefiro
ferir
rir
ir
i
!
Sempre
a palavra poderá ser quebrada
Pá e lavra
que brada
nas lavras do dia ah dia
Talvez eu encontre
um bruto diamante
ou quem sabe, a brutal:

p o e s i a

{ ir go }





diOli

Na dimensão da quarentena - Crônica fotográfica

















































Aqui os dias passam como se fossem
indiferentes ao resto do mundo
uma dimensão própria

Marcius Barcelos

quinta-feira, 4 de junho de 2020

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A hora do pesadelo

pic: Marcius Barcelos


De repente, tudo foi suspenso. A aula parou, o concurso parou, as viagens, a festa, os encontros, a bebida no bar parou. Tudo ficou suspenso no ar. Tudo exigiu stop. Ainda que você ou os governantes não queiram, tudo parou. Só não pararam, é claro, a fome, as contas, o aluguel.
Os berros das crianças aumentaram na verdade, e eu notei que o senhor aparentemente despreocupado que vivia na rua, na frente da loja de departamento, exibia um novo matiz de apatia. Ele ainda me cumprimenta, porque continua muito educado, mas deixa cair o braço rente ao corpo depois de me saudar. Preocupo-me de haver exigido tanto esforço.
Se me sinto aliviada de saber que ele está ainda vivo em algum lugar, ainda que em um espaço impróprio, também noto, triste, que o brilho dos seus olhos se foi. Dá para ver que está aturdido agora. Vazio. Parado. Suspenso no caminho em que passa pouca gente, os mais solidários de máscara. Ele mora na rua, é senhor de idade, tem um colchão, uma garrafa térmica florida — parece nova — e mais alguns apetrechos naquele pedaço de calçada que já, eu não sei por que, já pareceu razoavelmente feliz.
Toda lógica de vida foi suspensa. A precária, a boa, a mediana. Todo plano que o homem consegue colocar em prática, toda sistemática, seja aquela que envolve soltar bolinhas pro alto e pegá-las com destreza no semáforo, seja os planos para a próxima viagem, o próximo estudo, tudo parou.
Parou também o sono para muita gente. Na madrugada, dá para ouvir as estatísticas ganhando formas. Choro de mulher, grito de homem. E a vizinhança até então silenciosa se desvela em contornos angustiantes. Pensei em um dia — em um desses momentos suspensos — que tudo isso parecia um pesadelo. Talvez se eu chacoalhasse a cabeça, beliscasse um braço, a rotina voltaria ao normal.
Não que eu achasse que ela, a rotina, fosse justa. Afinal, o pedaço de chão na frente da loja de departamento já era habitado antes de tudo isso ( e por um bicho, meu Deus, que era um homem). A rotina não era boa para muitas pessoas, mas a gente tinha nossos pulos, nossos encontros, nossos sonhos sonhados com quem também apostava em mudanças.
Tudo parado. Numa conversa de horas no telefone, dessas cada vez mais usuais, descubro que não sou a única a pensar que isso é um sono mau. A moça com problema de saúde disse quase o mesmo: — estou no meio de uma pandemia, caramba, e 'cismei' de ter apendicite. Eu tô num pesadelo. Isso é um pesadelo. Quero acordar!
Bom, chegou a minha hora de dormir. Tenho insônia, mas sei que logo pego no tranco. Preparo-me para uma noite bonita, cheia de encontros sem máscaras, algumas surpresas e dedos em fios dourados. Quando acordo, porém, vem um desejo estranho de pedir por um intercâmbio: prefiro o pesadelo na hora de dormir, e não quando abro os olhos.

Ana Gabriela Oliveira
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